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A arte de levar cultura a áreas urbanas marcadas pela violência

No Rio de Janeiro, o O&N conheceu o trabalho da Biblioteca-Parque do Alemão, que luta para incentivar a cultura em uma área conhecida apenas pela violência

A arte de levar cultura a áreas urbanas marcadas pela violência
A Biblioteca Parque do Alemão fica na estação Palmeiras, a última do teleférico (Foto: Wikipedia)

A leitura amplia o conhecimento, expande o vocabulário e ajuda a desenvolver o senso crítico. Pensando nisso, em 2010, o Governo do Estado do Rio de Janeiro criou o projeto das Bibliotecas-Parque. Inspirado em um projeto colombiano de mesmo nome, ele leva cultura a regiões carentes da cidade, mas também é alvo de crítica de algumas organizações.

Entrada da biblioteca na estação Palmeiras (Foto: Melissa Rocha)

Entrada da biblioteca na estação Palmeiras

Esta semana, o Opinião e Notícia conheceu a unidade do Complexo do Alemão. Criada em abril de 2013, ela fica na Estação das Palmeiras, a última do teleférico, e incentiva a cultura em uma região que costuma ser destaque nos noticiários apenas pela violência.

No comando da unidade está a assessora cultural Alexandra Silva. Nascida e criada no Complexo do Alemão, ela atuou em vários projetos sociais da comunidade até assumir a direção da biblioteca, há cinco meses.

Segundo Alexandra, a unidade ainda passa por um processo de reengenharia, por isso ainda não conta com a mesma estrutura das outras bibliotecas da rede.

“Na verdade, ainda não somos uma Biblioteca-Parque nos moldes de Manguinhos ou Rocinha. Somos uma ocupação cultural aqui no Alemão, que funciona há mais de dois anos, administrada pela Superintendência de Leitura e Conhecimento da Secretaria de Estado de Cultura (SEC). Temos uma biblioteca infantil que as crianças da comunidade usam livremente e participam de atividades”.

Na unidade, são ministrados cursos de leitura, reforço escolar, teatro, música, modelo, arte marciais, entre outros. A ideia é usar elementos do cotidiano da comunidade para atrair crianças e jovens. “Eles percebem que aqui tem as danças que gostam, as músicas que escutam, a linguagem que falam e as pessoas que eles conhecem. Com isso, os jovens começam a se reconhecer aqui. O objetivo é aproximá-los do aparelho do Estado, fazendo eles se sentirem acolhidos em um espaço que é deles”, explica Alexandra.

 

O acervo da biblioteca é provido pelo Sistema Estadual de Bibliotecas e pelo Pró Rede, um projeto que doa livros a bibliotecas comunitárias. “Temos livros desde os clássicos até a literatura popular, nós temos Machado de Assis, Vargas Lhosa, Freud, Faustini. Recentemente, tivemos uma doação em torno de 100 livros para cada unidade”, diz Alexandra.

Um dos objetivos da biblioteca é desenvolver nas crianças o hábito de ler. Para isso, conta com o trabalho da professora de letras Maria Antonieta, que elabora atividades que compreendem toda a formação da criança. “Para os menores, há brinquedos de encaixe, com formas geométricas para que eles aprendam as cores, os nomes e os formatos. Depois, elas passam para a leitura e escrita, treinando a caligrafia. Eu gosto de atividades que estimulam a criatividade. Por exemplo, hoje desenhamos uma floresta em uma cartolina e vamos contar uma história sobre bichos. Então as crianças começaram a pensar a história. É importante também estimular nelas o bom convívio, ensinando que cada um tem a sua vez, a pedir ‘por favor’ e a dizer ‘obrigado’”.

Organizações reclamam de desmantelamento e corte de verbas nas unidades

Algumas organizações, no entanto, afirmam que as unidades estão sofrendo com corte de verbas. Entre elas, está o Movimento Abre Biblioteca. Criado para protestar contra a redução dos horários de atendimento, ele também protesta contra o corte de cursos oferecidos em algumas unidades e reivindica a abertura de mais bibliotecas públicas no Rio de Janeiro.

“Nossa ambição hoje é fazer com que o governo do estado não só retome o antigo horário, das 10h às 20h, mas que amplie. Inclusive no nosso site está lá em uma carta aberta ao governador”, diz Chico de Paula, bibliotecário e membro do movimento.

Chico alerta para o desmantelamento que, segundo ele, acaba inviabilizando o projeto. “O projeto é belíssimo, mas gradativamente veio sendo desmantelado, com a redução do horário, dos dias de atendimento e da mão de obra. Todo mundo que trabalha na Biblioteca-Parque é funcionário de uma empresa contratada pelo governo do estado, a IDG (Instituto de Desenvolvimento e Gestão), que terceiriza a mão de obra, desde o pessoal da limpeza até os bibliotecários. Este ano, houve a denúncia de que o projeto estava com atraso de uma parcela de R$ 5 milhões que não tinham sido repassados pela SEC para a IDG. O pessoal da Biblioteca-Parque da Rocinha avisou que, por conta da redução dos horários, várias atividades estavam sendo canceladas. E a comunicação da Biblioteca-Parque da Presidente Vargas (sede do projeto) é precária, não respondem emails, não atendem telefone, além de, recentemente, terem cortado a assinatura de todos os jornais”.

Além de pedir por mais investimentos no projeto, o Movimento Abre Biblioteca também luta pela abertura de mais bibliotecas públicas no Rio de Janeiro. “Pelos dados do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas, o Rio de Janeiro é o estado com o menor número de bibliotecas públicas por habitante. Temos uma para cada 100 mil habitantes”.

IDG nega falta de repasse de verba

Em 2013, a SEC fechou um contrato com a IDG, concedendo à empresa a gestão das bibliotecas públicas e das Bibliotecas-Parque. Pelo contrato, está previsto um aporte de R$ 96.900.000,00, que serão distribuídos em parcelas trimestrais de R$ 4.845.000,00, ao longo dos cinco anos de vigência do contrato.

Procurado pelo O&N, o chefe executivo da IDG, Pedro Sotero, disse que o atraso de pagamento mencionado por Chico realmente ocorreu, mas já foi normalizado. “O que aconteceu foi que o aporte referente ao primeiro trimestre, que deveria ter sido pago em janeiro, acabou entrando em abril”, disse Sotero.

 

Caro leitor, 

Na sua avaliação, o que falta para o Brasil investir em projetos de incentivo à cultura como o das Bibliotecas-Parque? 

Que outras iniciativas poderiam ser implantadas para levar cultura a regiões carentes? 

2 Opiniões

  1. helo disse:

    O projeto é muito bom. Acolher e reunir crianças e jovens em um só local desenvolvendo a leitura e sendo um centro cultural, as vezes é mais educativo e atraente que a atividade escolar. Talvez estimular o envolvimento dos moradores no projeto poderia suprir a falta eventual do staff terceirizado por falta de verbas. Importante confiar mais na capacidade de um grupo jovem de se enriquecer no convívio mesmo na ausência de um tutor. Pensava numa escola pública da Baixada que às tarde oferecia seu espaço e uma bola para o futebol. De staff havia um porteiro idoso para entrada e saída. Os jovens sabiam jogar, dividir os times, sortear o juiz. Ocupavam seu tempo com interação, exercício, disciplina e prazer.

  2. Rosana Lanzelotte disse:

    É uma pena que a penúria do Governo Estadual tenha tido um impacto negativo em um projeto excelente como o das Bibliotecas Parque.
    No entanto, o foco em áreas carentes é uma prioridade tanto na Secretaria de Cultura do Estado quando do Município.
    As Arenas Cariocas, iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura, localizadas na Pavuna, Penha, Madureira e Guaratiba, são bons exemplos de iniciativas bem sucedidas. Felizmente, ao contrário do Governo do Estado, o Município tem podido dar a devida continuidade dos projetos nesses locais.

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