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SABATINA

A audiência de Moro na CCJ do Senado

Ao longo de oito horas e meia, ministro respondeu a questionamentos sobre mensagens trocadas com procuradores e negou a existência de conluio

A audiência de Moro na CCJ do Senado
Moro se colocou voluntariamente à disposição da CCJ (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

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O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, participou na última quarta-feira, 19, de uma audiência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado para prestar esclarecimentos sobre as conversas com o procurador Deltan Dallagnol, vazadas pelo site “The Intercept”.

Ao longo de oito horas e meia de sabatina, Moro respondeu questionamentos de senadores da base aliada do governo e da oposição. O ministro se colocou voluntariamente à disposição da sabatina e em seus comentários não apresentou novidades, uma estratégia que que pode enfraquecer os pedidos pela instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o caso.

Moro defendeu a Operação Lava Jato e novamente negou a existência de conluio entre ele e procuradores da Ministério Público que coordenavam as investigações. Ele tornou a afirmar que conversas entre procuradores e juízes são normais na Justiça brasileira, algo que classificou como “embargos auriculares”.

“É o que tradicionalmente se chama de embargos auriculares, isso é muito normal. Às vezes até como a forma de: ‘Ah, vou requerer isso’, para ter uma opinião prévia do juízo do que é necessário e do que não é necessário, se é possível ou se não é possível”, disse Moro.

Tal posicionamento foi respaldado pela senadora Soraya Thronicke (PSL-MS), que também afirmou que tais conversas são comuns e que Moro agiu como uma espécie de “juiz de instrução”. Tal ponto, no entanto, é controverso, pois essa função não existe no direito brasileiro. Nos países em que existe, o juiz de instrução não é responsável por julgar o processo.

A opinião de Thronicke, no entanto, foi refutada por alguns senadores, como Fabiano Contarato (Rede-ES), que afirmou ter sido delegado durante 27 anos e disse não imaginar o que aconteceria se mantivesse contato via WhatsApp com o advogado de algum investigado em inquéritos instaurados por ele. O senador afirmou que, se isso ocorresse, poderia sair preso da delegacia.

O senador Cid Gomes (PDT-CE) sugeriu alterar a legislação processual brasileira para incluir a função de juiz de instrução, de forma a garantir que o juiz que instrui não seja o mesmo que julga a ação. “A meu juízo, isso é fundamental para que a imparcialidade se imponha”, disse o senador.

Questionado pelo senador Jaques Wagner (PT-BA) sobre a possibilidade de deixar o cargo de ministro para garantir que eventuais investigações corram de forma isenta – uma vez que Moro é chefe da Polícia Federal, que ficaria encarregada da investigação -, o ministro afirmou não ter nenhum apego ao cargo e desafiou o site “The Intercept” a divulgar todo o material. “Se houver alguma irregularidade da minha parte, eu saio”, disse Moro.

Moro foi questionado se autorizaria a recuperação de dados em sua conta no aplicativo Telegram – pelo qual trocou mensagens com procuradores – para confrontar o material com as conversas divulgadas pelo “Intercept”. O ministro disse que isso não seria possível, pois parou de usar o aplicativo e descartou seus antigos aparelhos celulares.

Durante a audiência, Moro colocou em xeque a autenticidade do conteúdo divulgado pelo “Intercept”. Segundo o ministro, as mensagens podem ter sido “total ou parcialmente adulteradas”. Tal posição, no entanto, vai de encontro com as primeiras declarações dadas pelo ministro logo quando o caso veio à tona. Logo, que as primeiras reportagens sobre o caso foram divulgadas, Moro não questionou a veracidade das mensagens, se limitando a afirmar que as conversas divulgadas eram normais.

Um dos pontos mais inusitados da audiência ficou ao encargo do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), que citou uma teoria da conspiração que circula na internet que aponta que o criador do site “The Intercept”, o jornalista Glenn Greenwald, teria pago um hacker russo com bitcoins para invadir celulares de autoridades.

Flávio não confirmou a veracidade das informações nem citou a fonte, mas questionou se a PF está apurando o caso. “É o que está nas denúncias, não estou dizendo que elas são verdadeiras”, disse o senador.

Moro respondeu que a teoria “pode ser fake news, pode ser contra-inteligência” e que a PF tem investigado o caso com independência.

A teoria

A teoria citada por Flávio Bolsonaro foi espalhada nas redes sociais no último fim de semana, por um perfil no Twitter intitulado “Pavão Misterioso”, que foi apagado horas após postar a teoria.

O perfil divulgou uma imagem que supostamente seria um documento da transação feita entre Glenn Greenwald e um hacker russo. No entanto, o documento continha erros em palavras básicas em inglês. Além disso, a suposta transação trazia os números em português. Na ocasião, Greenwald apontou os erros e debochou da teoria.

“Se a rede de Bolsonaraistas/@MBLivre/@tercalivre for fabricar documentos falsificados em inglês para tentar espalhar falsas acusações contra mim, pelo menos tenha a cortesia de não ser tão preguiçoso a ponto de errar as palavras básicas. E da próxima vez que vcs quiserem forjar um documento em inglês, não esqueçam de expressar os números em inglês, não em português, pra que sua fraude não seja tão óbvia. Demora menos de 30 segundos pra usar o Google Tradutor. Haja preguiça. Devo acrescentar que não acho que o @MBLivre esteja envolvido nessa fraude. Uma pessoa chave do grupo ajudou a espalhá-lo, mas ele já o apagou. Isso foi divulgado pelo PSL, @TercaLivre, os disseminadores usuais bolsonaristas do Fake News e fraudes.”, escreveu o jornalista em sua conta oficial no Twitter.

Além de citar uma suposta compra de serviço de hacker, a teoria também sugeria a compra de mandato do ex-deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) por Glenn, para beneficiar seu marido, David Miranda.

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1 Opinião

  1. Aquiles Leonardo Pisanelli disse:

    As opiniões do Opinião continuam pecando pela falta de isenção e pela falta de transparência e imparcialidade. Fazem parte daquele jornalismo marrom do qual fazem parte Época, UOL Globo e Folha dentre outros. Sempre prestando um desserviço à população brasileira quanto à qualidade da informação.

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