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BOEMIA CONTRA O MORALISMO

A ditadura de 1964 vista desde o Clube da Esquina

Boemia, fraternidade e ocupação do espaço urbano deram o tom da resistência mineira ao moralismo reacionário difundido pela ditadura militar

A ditadura de 1964 vista desde o Clube da Esquina
Aglomerações não eram bem-vistas pelos militares daqueles tempos (Foto: Arquivo/O Cruzeiro)

“O clima era de terror total”, lembra Lô Borges, em depoimento ao Canal Brasil, quando perguntado sobre as consequências na vida urbana da ditadura militar instaurada no Brasil em 1964. “Muitas vezes eu saí correndo do Clube da Esquina”, conta, em referência ao cruzamento das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro belo-horizontino de Santa Teresa, onde ele e seus amigos se reuniam para conversar fiado e fazer música, e que depois daria nome ao famoso disco lançado por ele e Milton Nascimento em 1972.

Aglomerações não eram bem-vistas pelos militares daqueles tempos, sobretudo se contavam com o instrumento “altamente” subversivo: o violão, empunhado geralmente por hippies e “malandros”. “A polícia era tão arisca, tão sorrateira, que eu tinha que pular o muro da casa do vizinho, e jogava o violão, porque a polícia estava dando dura”, diz Lô Borges.

Belo Horizonte, embora tenha sua edificação inspirada no traço de Washington e Paris, constituiu-se como típica metrópole latina: nela surgiram contradições e problemas mais ou menos semelhantes aos observados em Caracas, Buenos Aires ou São Paulo, e, tal qual nessas cidades, aqueles que vivem em BH tratam de buscar soluções locais para conviver em meio ao novo, ao arcaico e à repressão.

Com efeito, a radicalização do processo de urbanização em Belo Horizonte nos “anos de chumbo” veio reforçar algumas das ideias de seu projeto inicial: como aponta o geógrafo Ulysses Baggio, BH fora planejada em fins do século XIX dentro dos “marcos do racionalismo urbano, da ordem positivista e geométrica, para ser uma capital moderna e simbolizar uma empreitada rumo ao progresso”. A cidade deveria representar o rompimento com o passado colonial e o compromisso com uma nova era – cabe lembrar, a capital anterior de Minas Gerais era a colonialíssima Ouro Preto.

Se parte desse projeto logrou sucesso, nem tudo saiu conforme o planejado e mesmo as vontades dos urbanistas e, num momento posterior, dos generais, foram contrariadas pelas representações muitas que os moradores de BH fizeram da cidade. Em parte, essa “mineiridade” contemplativa, avessa à modernização galopante, e o “cosmopolitismo interiorano” de BH passam pelos diversos modos como artistas, a exemplo de Milton Nascimento e Lô Borges, viveram e cantaram a cidade.

A casa dos Borges

Em sua primeira participação no programa “Ensaio”, que em 1970 foi ao ar pela TV Cultura, Milton definiu o que para ele era o Clube da Esquina: “o pai e a mãe [de Márcio e Lô Borges], onze filhos, dez agregados – um deles, eu – e todos músicos. E na esquina de baixo, o pessoal sentado, olhando para a lua e fazendo música”.

Antes de se mudarem para o subúrbio, os Borges viviam no centro da cidade, e apesar do espaço limitado do apartamento, o clima era semelhante ao que Milton descreveu. Quem dá a “ficha técnica” é Márcio Borges, em seu livro “Os sonhos não envelhecem”: “em caso de lotação plena do 17o, poderia dizer: estamos eu, Lô, Marilton, Sandra, Sônia, Sheila, Yé, Solange, Suely, Telo e Nico. E Bituca. E mamãe. E papai. E a empregada. Todos de uma vez. Assim era a casa dos Borges: cheia”.

Músicos circulavam e entravam sem precisar bater à porta: “várias vezes via Wagner Tiso na minha casa, Milton Nascimento, todos ilustres desconhecidos”, lembra Lô. E à medida que o Clube foi conquistando renome, outros “membros” passaram a compô-lo: antes da gravação do álbum homônimo, o percussionista Naná Vasconcelos esteve na casa dos Borges “pesquisando a sonoridade das panelas” de dona Maricota, a matrona da família. Paulinho da Viola, Nelson Ned e Elis Regina também estiveram no “quarto dos homens”, onde Lô, Beto Guedes e Márcio Borges bebiam cerveja, compunham e ensaiavam suas primeiras canções.

Lançada em 1970, a primeira parceria de Milton e Lô também recebeu o título de “Clube da Esquina”. Cantados “ao pé do ouvido” por Milton e, reminiscência da bossa nova, acompanhados apenas pelo violão dedilhado e pelo contracanto de Lô, seus versos tratam do clima intimista e familiar de um “clube” de amigos que, no entanto, desloca-se para a rua:

Noite chegou outra vez / de novo na esquina os homens estão / todos se acham mortais / dividem a noite, a lua e até solidão / Neste clube, a gente sozinha se vê / pela última vez / à espera do dia, naquela calçada fugindo de outro lugar.

A sonoridade dissonante e nostálgica e a poesia misteriosa abordam estados de solidão, fraternidade, fuga e despedida que eram o que caracterizava os encontros no Clube da Esquina. A batida aberta do violão, típica de rodas informais de música onde, para se fazer ouvir, o instrumento precisa ser tocado de forma rasgueada, mimetiza também a musicalidade desses primeiros encontros.

E, no entanto, entre angústias e escuridões, a voz de Milton deixa entrever  otimismo. Como é praxe nas composições da MPB da época, é no amanhã, no futuro, que residia a expectativa do encontro com “um grande país” – e assim, sem a ironia da tropicália ou o lirismo revolucionário de um Belchior, o Clube da Esquina ia tecendo seu discurso de resistência:

E no curral Del Rey / janelas se abram ao negro do mundo lunar / Mas eu não me acho perdido / Do fundo da noite partiu minha voz / Já é hora do corpo vencer a manhã / Outro dia já vem e a vida se cansa na esquina / Fugindo, fugindo pra outro lugar.

No ambiente urbano imaginado na canção “Clube da Esquina”, assim, a casa aproxima-se de seu oposto simbólico, a rua.

Conforme teorizou o sociólogo Roberto da Matta, certa concepção de “rua”, pensada como lugar inóspito em que predomina a razão e o individualismo, foi instrumentalizada pelo estado policial instaurado pelo regime militar após 1964. A ela, contrapuseram-se os usos que muitos fizeram da rua e as maneiras em que ela foi retratada em poemas, filmes, romances e canções, onde, ao exemplo de “Clube da Esquina”, a rua surge como espaço em que há a possibilidade do encontro, do afeto e da utopia. Surgiram, aí, ideais de brasilidade, modernidade e mineiridade avessos ao ufanista “ame-o ou deixe-o” dos militares.

Ame-o ou deixe-o

“Vive a nação dias gloriosos”, comemorava em editorial o jornal “O Globo”, em 2 de abril de 1964, um dia após o bem-sucedido golpe de Estado, “porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem”.

O jornal repercutia um sentimento que, se não era geral, estendia-se a parte significativa dos brasileiros: tanto na retórica militar quanto na de seus apoiadores, transbordavam termos como “patriotismo” e “nacionalismo”. Nos anos posteriores ao golpe, informa a “Folha de S.Paulo”, “o governo gastava milhões em propagandas destinadas a melhorar sua imagem junto ao povo”. Foi de uma dessas campanhas, durante o governo Médici, iniciado em 1969, que emergiu o termo síntese do ufanismo militar, o conhecido “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Mas, nesse caso, a expressão não era mera retórica de quartel: calcula-se que em 1979, último ano do governo Geisel, somavam 10 mil os exilados políticos pelo regime.

Esse amor compulsório à pátria, cuja negação significava o desterro, foi largamente instrumentalizado pelo regime militar. E seja torcendo contra a seleção de futebol na Copa do Mundo de 1970 ou abraçando outras concepções de nacionalismo (que emergem, por exemplo, na MPB regionalista de Geraldo Vandré e no apelo ao popular periférico de Nara Leão), a esquerda buscou como pôde desviar-se dessa noção do que era ser brasileiro. É nesse quadro de disputas que a MPB, e o disco Clube da Esquina, surgem.

Na canção “Clube da Esquina no.1”, tanto a sonoridade nostálgica quanto a referência a Belo Horizonte pelo seu nome ancestral, “Curral Del Rey”, como era chamado o arraial que daria terreno à nova capital, podem ser entendidas dentro desse campo de disputas em torno da memória nacional e, mais especificamente, da mineiridade. Ao contrário do moderno traçado das largas avenidas belo-horizontinas, a canção não nega o passado colonial expresso no próprio nome do Estado: as Minas Gerais, por séculos epicentro de ávido interesse econômico da coroa portuguesa.

O inconveniente que essa memória representava ao idealismo republicano que, no fim do século XIX, destronou Pedro II, foi parte das motivações que culminaram no deslocamento da capital mineira de Ouro Preto para Belo Horizonte. A alusão ao “Curral Del Rey”, assim, representa uma negação de certa modernidade que visa “superar” e “apagar” o passado; trata-se, da afirmação de uma mineiridade que não é mera exaltação de valores tradicionais ou mitos heroicos relacionados à formação do Estado.

Outras canções de Milton também expressam a preocupação com a construção de uma brasilidade alternativa à que se pretendiam hegemônicas: em “Pai Grande”, de 1970, uma estrutura melódica de contornos barrocos, eletrificada no arranjo lisérgico de Wagner Tiso e O Som Imaginário, serve de base para a letra que trata do sequestro dos africanos “trazidos lá do longe” rumo ao Brasil colônia. Já em “Beco do Mota”, de 1969, samba, cantos litúrgicos e arranjos inspirados na nouvelle vague de Truffaut cooperam na reconstrução da ambiência do referido beco, uma extinta zona de prostituição e boemia que funcionava próxima à monumental arquidiocese de Diamantina.

Lírica, harmônica ou melodicamente, a MPB buscou, entre o amar e o deixar, espaço também para a festa, a fraternidade e o lembrar na articulação de um discurso e uma estética críticae resistente à noção de patriotismopromovida pelo regime militar.

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7 Opiniões

  1. Roberto Henry Ebelt disse:

    Saudades de abril de 1964, quando finalmente a pior ameaça, a espada soviética de Castro, deixou de pairar sobre nossos pescoços e centenas de comunistas vagabundos, dos quais muitos hoje estão novamente na cadeia, foram, devidamente enjaulados. Nunca imaginei que uma DITAMOLE pudesse fazer tanto bem para o o país, a ponto de, em 1970, sermos 90.000.000 de brasileiros ganhando a vida honestamente e fazendo este país progredir. Tempos perdidos na história e que não voltam mais, infelizmente. Que Bolsonaro tenha a coragem de ser tão politicamente incorreto a ponto de nos devolver a tranquilidade parecida com a que tínhamos em abril de 1964. Que Deus o abençoe e inspire para nos devolver o país que merecemos e dê um jeito de nos dar uma nova e enxuta constituição.

  2. Almanakut Brasil disse:

    Que bela “ditadurinha” de merd* foi o Regime Militar, o brando, que não fuzilou seus opositores PEÇONHENTOS no paredão, como fizeram as DITADURAS comunistas.

    Enquanto artistas cubanos eram desconhecidos em seu próprio país, a MPB dos garnizés enchia a cara e deitava e rolava em clubes de esquina.

  3. Almanakut disse:

    Estes músicos cubanos incríveis foram censurados pelos irmãos Castro – (Istituto Mercado Popular – 28/01/2016)

    mercadopopular.org/internacional/musica-cubana

  4. Carlos disse:

    Nunca li e ví tanta bobagem junta, acho que quando não temos uma opinião sensata e raciolnal sobre os fatos históricos devemos ficar calados, e estou dizendo isso sem polarizar pra esquerda ou direita no Brasil, mas os senhores devem ter vivido no mundo da lua nesses ultimos 55 anos.

  5. Jorge Cardillo disse:

    Foi governo militar, não foi ditadura.

  6. LAERTE CLAUDINO XAVIER disse:

    Se perguntarem para os compositores daquelas músicas que saíam naturalmente dos seus corações se consideraram tudo isso que vocês descreveram para compô-las eles vão, no mínimo, morrer de rir. Acho que exageraram demais na avaliação, com todo o respeito…

  7. Fábio Henrique C. Gomes disse:

    Esse Sr. Ebelt vomita um ódio FASCISTA que dá pena. Vá tentar ser feliz, Sr. Pobre Coitado.

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