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Política

A entrevista da presidente Dilma ao ‘Washington Post’

Às vésperas de viajar aos EUA, Dilma comenta seu segundo mandato em entrevista ao 'Washington Post'

A entrevista da presidente Dilma ao ‘Washington Post’
Presidente falou sobre o estado da economia, a corrupção na Petrobras e o que espera de seu legado (Foto: ABr)

Em entrevista ao jornal americano Washington Post às vésperas de viajar aos EUA, Dilma fala sobre a situação da economia, o ajuste fiscal, os casos de corrupção na Petrobras, a queda em sua popularidade e o que espera deixar ao país como legado. O Opinião e Notícia reproduz a entrevista na íntegra.

Da última vez que eu estive aqui, sua economia estava crescendo, mas agora ela está realmente em apuros. Sua taxa de inflação é alta. O boom das commodities acabou. O novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, está realizando duras medidas de austeridade. Você instituir medidas de austeridade é uma grande mudança. Como o Brasil vai sair desta situação?

O Brasil tem se esforçado há seis ou sete anos para não adotar medidas que reduzam as oportunidades de emprego ou renda.

Mas isso não funcionou, não é?

Funcionou por sete anos. Nós não tivemos qualquer redução dos níveis de emprego ou renda.

Mas você tinha o boom das commodities, que agora caiu por terra, e também há uma desaceleração na China.

Sim. Nós experimentamos o fim do superciclo do boom das commodities.

No passado, você achava que o governo poderia fazer tudo?

Não, eu não acredito nisso. Se você acha que o Estado pode cuidar de tudo, você não está levando em conta o fato de que a economia é muito maior do que isso. O Brasil tem um forte setor privado. Nós não queríamos que o setor privado enfrentasse uma depressão. Nós reduzimos os impostos para o setor privado.

Você está operando com um déficit agora?

Não é muito alto porque a nossa moeda se desvalorizou.

Agora, com o novo ministro da Fazenda, você propôs medidas de austeridade e cortes no orçamento. Seu próprio partido se opõe a essas mudanças, assim como alguns na oposição. Você acha que pode aprová-las no Congresso?

Sim, o programa atual não é chefiado pelo meu ministro da Fazenda, mas pelo meu governo. Estamos absolutamente certos de que é essencial pôr em prática todas as medidas que são necessárias, não importa quão duro elas sejam, a fim de retomar as condições de crescimento no Brasil. Algumas medidas são fiscais. Outros são estruturais.

As reformas do mercado de trabalho, por exemplo?

Sim, benefícios de seguro desemprego, bem como pensão por morte e subsídios de licença médica. Nós não acreditamos que ajustes são um fim em si mesmos. Temos um objetivo — retomar o crescimento.

O que você espera de sua visita ao presidente Obama?

Os Estados Unidos são o maior investidor privado no Brasil. Nós compartilhamos uma visão que pode nos levar a uma grande parceria na agenda da mudança climática. Nesta viagem eu espero traçar laços mais estreitos em assuntos de ciência, tecnologia e inovação. Esperamos também uma cooperação no setor da educação, nomeadamente no ensino primário.

Como você vê o escândalo envolvendo a Petrobras, a companhia estatal de petróleo? Dois CEOs das maiores empresas de construção do Brasil foram presos este mês, além de existirem acusações anteriores contra políticos e ex-executivos da Petrobras em conexão com a fixação de contratos e pagamentos de propina a políticos, executivos da Petrobras e de partidos políticos. Você foi presidente do conselho da Petrobras por um longo tempo. Você tinha alguma ideia de que isso estava acontecendo?

Estamos totalmente apoiando todas as investigações. Foi sob a minha administração [presidencial] que eles [ex-executivos da Petrobras] foram destituídos de seus cargos – muito antes do escândalo vir à tona. Essas pessoas cometeram crimes, ou pelo menos é o que a promotoria pública está dizendo. Eu não posso dizer isso.

E quanto à alegação de que o Banco Nacional de Desenvolvimento [BNDES] está envolvido neste escândalo? Que ele deu empréstimos a grandes empresas de construção a taxas favoráveis? E que o Partido dos Trabalhadores recebeu pagamentos da Petrobras e daqueles que se beneficiaram com isso?

O BNDES não estava envolvido. Não há investigação sobre isso. A oposição quer saber sobre todos os empréstimos que foram feitos pelo BNDES a países estrangeiros, e isso não tem nada a ver com a Petrobras.

Isso envolve as empresas de construção?

Sim. Mas essas empresas de construção são apenas isso. Assim como o Enron e os bancos americanos foram investigados nos EUA, isso é parte integrante da democracia.

Quando você era presidente do conselho da Petrobras, você não tinha ideia da corrupção que estava acontecendo?

Não. Uma investigação teve que ser conduzido pela Polícia Federal e o Ministério Público antes que pudéssemos descobrir. Não se costuma ver a corrupção acontecendo. Isso é típico da corrupção – ela se esconde.

As pessoas dizem que você é uma gerente que controla tudo. Mas eles também dizem que, desde a última eleição, você mudou e decidiu capacitar as pessoas, como o seu ministro da Fazenda e seu vice-presidente, Michel Temer – para permitir a Temer negociar com o Congresso.

Alguma vez você já ouviu alguém dizer que um presidente do sexo masculino coloca o dedo em tudo? Eu nunca ouvi isso.

Então você acha que este é um comentário sexista?

Eu acho que há um viés sexual ou de gênero. Eu sou descrita como uma mulher forte e dura que enfia o nariz onde não deveria, e eu sou [dizem que eu estou] cercada de homens muito bonitos.

Sua taxa de aprovação é de 11% Você deve se preocupar com isso.

Sim, me preocupar não significa que eu vou arrancar meus cabelos ou perder meu rumo. Você tem que viver com críticas e com preconceito. Eu não tenho problema nenhum em cometer erros; quando alguém comete um, ele deve mudar. Não há um plano pronto para dizer “este não é o caminho certo, é o caminho errado”. Em qualquer atividade, inclusive no governo, você deve fazer incessantemente mudanças e ajustes. Se você não faz, a realidade não espera por você. O que realmente muda é a realidade.
Qual foi o primeiro momento que você pensou “isto não está indo bem”?
Nós vimos um agravamento da situação econômica brasileira no final de 2014, bem como uma queda na arrecadação de receitas do governo.
Você acha que é hora de o Brasil ser capaz de olhar para além de associações comerciais regionais como o Mercosul? É hora de o Brasil negociar com a União Europeia? O que acha do livre comércio?
O Mercosul é uma grande conquista. . . . Nós já informamos aos nossos parceiros da União Europeia que estamos prontos para submeter uma oferta de comércio. Também assinamos um bom acordo com o México recentemente. É importante ter relações comerciais com diversas regiões do mundo, como com os EUA e a China.

Você vê uma luz no fim do túnel para os problemas econômicos do Brasil?Nossa expectativa é de que no próximo ano estaremos em uma situação muito melhor. A partir do próximo ano, vamos começar a crescer na chamada “nova taxa normal”. O mundo não vai mais crescer às taxas passadas. O FMI diz que o mundo não vai crescer além de 3,5 por cento e mesmo isso não é um dado certo.
Qual você quer que seja o seu legado?
Eu acredito que a parte mais importante do meu legado é assegurar que uma grande redução da desigualdade ainda é possível. Eu espero que, ao fim do meu mandato, eu tenha garantido condições para tornar essa evolução permanente. Nós fomos capazes de colocar 50 milhões de pessoas, que eram de classes mais baixas, na classe média. Nosso objetivo é tornar o Brasil um país da classe média.A desigualdade foi reduzida durante o seu primeiro mandato, porém pode voltar a crescer agora por causa da situação econômica. As pessoas podem ir às ruas caso o desemprego aumente?
Eu não acredito nisso.Você não se preocupa com isso?É claro que me preocupo com isso, venho me preocupando com isso desde o primeiro dia. Houve um aumento no desemprego nos últimos dois meses. Porém, antes disso, nós já criamos 5,5 milhões de vagas de trabalho. Nós queremos realizar um ajuste rápido para reduzir o efeito do desemprego. Hoje, nossa taxa de desemprego está entre 6% e 7%, o que não é alto.O que pode falar sobre o relacionamento do Brasil com a África?A África sempre será um continente onde nós desempenhamos um papel ativo, pois nós temos uma dívida humana, social e cultural com eles. Cinquenta e dois porcento da população brasileira declara ter ancestrais africanos. Nós nos vemos como o maior país negro fora da África. Nossas relações com a África estão reabilitando nossa história, considerando que a escravidão prevaleceu em nosso país desde o século XVI. Nosso país viveu sob um regime escraviagista até 1888 e deve superar a ferida histórica deixada pela escravidão.

 

Fontes:
The Washington Post - Brazil’s president, Dilma Rousseff, points to the ‘sexual bias’ of her critics

1 Opinião

  1. André Luiz D. Queiroz disse:

    Eu estranhei que o(a) repórter do Washington Post tenha tratado Dilma Rousseff por ‘você’ em quase todas as perguntas, mas no artigo original realmente o tratamento é, realmente, em segunda pessoa — ‘you’; creio que seja porque os americanos têm por hábito serem ‘diretos’.
    Faltou mencionar o título (headline) do artigo original: “Why does everyone in Brazil hate their president?” (“Por que todo mundo no Brasil ODEIA sua presidente?”…)

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