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PROJETO BAQUAQUA

A escravidão nas palavras de um ex-escravo que viveu no Brasil

Previsto para ser lançado até o dia 30 deste mês, o site Projeto Baquaqua narra a história de Mahommah Baquaqua, que após viver como escravo no Brasil escreveu sua autobiografia nos EUA

A escravidão nas palavras de um ex-escravo que viveu no Brasil
Baquaqua foi escravo em Recife e no Rio de Janeiro entre 1845 e 1847 (Foto: Divulgação/Projeto Baquaqua)

Na última sexta-feira, 20, comemorou-se o Dia da Consciência Negra. Celebrado no dia em que morreu Zumbi dos Palmares, último líder do maior quilombo que já existiu no país, o Quilombo dos Palmares, a data é usada para refletir sobre a luta dos negros pela liberdade e pela igualdade racial.

Em homenagem à data, o Opinião e Notícia conversou com o professor de história Bruno Véras, coordenador de dois projetos destinados a contar a história de Mahommah Gardo Baquaqua.

Baquaqua foi escravo em Recife e no Rio de Janeiro entre 1845 e 1847, quando fugiu para os EUA, onde se livrou da escravidão e teve sua autobiografia publicada em 1854. Trata-se de um dos poucos escritos de ex-escravos do Brasil que se tem notícia.

Livro interativo contará a história de Mahommah Baquaqua (Ilustração/Tatiane Lima)

Livro interativo contará a história de Mahommah Baquaqua (Ilustração/Tatiane Lima)

Um dos projetos coordenados por Véras trata de traduzir para o português a autobiografia de Baquaqua, que ganhou uma nova edição em inglês em 2007, feita pelos professores canadenses Paul Lovejoy e Robin Law. “Nesta tradução, estamos trabalhando eu e Nielson Bezerra (professor da UERJ). Estamos traduzindo a edição preparada pelo professor Paul Lovejoy e Robin Law, com o texto original, cartas endereçadas e escritas pelo próprio M. G. Baquaqua, além de vários outros documentos históricos. O nosso objetivo com esse trabalho é elaborar não só uma tradução, mas uma nova edição, no caso, em língua portuguesa. Esse livro só ficará pronto pouco antes da metade de 2016.”

Segundo Véras, o período como escravo em Pernambuco tem papel de destaque na autobiografia de Baquaqua. “Ele fala dos trabalhos que exerceu em Recife e Olinda como carregador de pedras, vendedor de pão, etc. Fala também do conflito religioso que viveu quando foi obrigado a praticar ritos do catolicismo. O desembarque ilegal de escravos nas praias de Pernambuco deixou muitos vestígios em registros policiais e do governo da província, mas temos que lembrar que Baquaqua foi desembarcado num período em que o tráfico de africanos na condição de escravizados já era proibido no Brasil. Logo, por lei, a própria escravidão de Baquaqua foi ilegal.”

projeto Baquaqua

Prévia da home do Projeto Baquaqua (Divulgação/ Ednaldo F. do Carmo Jr)

O segundo ponto é o Projeto Baquaqua, um website previsto para ser lançado até o dia 30 deste mês, com documentos e um livro interativo sobre a vida de Baquaqua.

“No website do Projeto Baquaqua será possível acessar um banco de imagens e fontes históricas sobre Mahommah Gardo Baquaqua; a série de vídeos de entrevistas produzidos pelo projeto; ter acesso ao livro didático elaborado; conhecer diversos links de instituições, sites e revistas sobre a temática; bem como, interagir através das redes sociais com os conteúdos do site.”, explica o editor e web designer do site Ednaldo F. do Carmo.

Véras afirma que o site será uma importante ferramenta para levar a história de Baquaqua para um número maior de pessoas. “Esta é uma iniciativa de História pública e digital. A ideia é trazer a história de Baquaqua para um público mais amplo, através do uso de uma plataforma digital. A primeira parte do website estará disponível no final deste mês, no endereço www.baquaqua.com.br A ideia é que o website tenha também sua versão em inglês, francês e hauçá (uma das línguas mais importantes da África Ocidental e que Baquaqua também falava). A ideia do Projeto Baquaqua é que estes primeiros estudos e os novos que estamos realizando cheguem a um público cada vez mais amplo nas línguas citadas.”

Também fazem parte da equipe do projeto Denizá Rodrigues, responsável pela parte audiovisual, Tatiane Lima (designer e ilustradora) e Paul Lovejoy (professor da York University, Canadá). Os projetos também contam com o apoio financeiro do Ministério da Cultura e com o apoio institucional do Harriet Tubman Institute, da York University.

Filho de um comerciante, Baquaqua nasceu no Benim (Ilustração Tatiane Lima)

Filho de um comerciante, Baquaqua nasceu no Benim (Ilustração Tatiane Lima)

Apesar de o Brasil ter recebido mais de 4 milhões de escravos africanos, total que, segundo Véras, representa “50% de todos os africanos traficados para todas as colônias e países das Américas”, o ensino do período escravocrata brasileiro ainda é retratado de forma superficial nas salas de aula.

Para Rodrigues, que é especialista em Gestão Cultural da UFBA, o projeto é fundamental para revisar a forma com a escravidão é ensinada nas escolas brasileiras.

“Tradicionalmente a figura do escravo é representada de maneira passiva nos livros didáticos, que também naturalizam a ideia de escravidão negra, como se negro e escravo fossem sinônimos. Estes dois estigmas precisam ser revisados, pois apesar da falta de controle sobre seus destinos pessoais, cada negro escravizado também era um agente histórico e, por meio de estratégias e acordos, transformavam suas realidades trazendo um novo equilíbrio às relações de poder no sistema escravista. Assim, a trajetória de Baquaqua é uma ferramenta poderosa para este tipo de revisionismo, pois apresenta exemplos concretos de estratégias usadas pelos grupos de escravos para superar alguns dos desafios postos pelo sistema de que faziam parte, reinventando práticas e valores nesse processo.”

projeto Baquaqua

Baquaqua foi capturado e feito escravo pelos Ashanti (Ilustração/Tatiane Lima)

A trajetória de Baquaqua

Baquaqua nasceu no início do século XIX, em Djougou, uma das maiores cidades do Benim, na África Ocidental. Filho de um renomado comerciante muçulmano foi educado em uma escola islâmica, onde, entre outras coisas, aprendeu as lições do Corão e demonstrou grande aptidão pela matemática. Sua angustiante trajetória como escravo teve início em 1820.

Na época, a África Ocidental era disputada por dois impérios, o Califado de Sokoto, que dominava região do Sudão Central, e o Império de Ashanti, que se estendia da atual Gana até o Togo e a Costa do Marfim. Além do território, os dois impérios disputavam a liderança na venda de escravos. Baquaqua, que já ajudava o pai no ramo do comércio, foi capturado e feito escravo pelos Ashanti, quando vendia grãos e outros produtos na rota entre os dois impérios.

projeto Baquaqua

Foto atual do palácio do rei em Djougou (Foto: Paul Lovejoy)

Após ser comprado e libertado pelo próprio irmão, ele foi novamente preso e escravizado depois, por tentar roubar e ingerir bebida alcoólica, o que era considerado um crime grave na região, dominada pela religião islâmica. Levado ao Porto de Uidá, no Benim, um dos mais importantes portos escravistas do Atlântico ele foi posto em um navio negreiro e enviado para Pernambuco.

“Quando estávamos prontos para embarcar para as Américas, fomos acorrentados uns aos outros e amarrados com cordas pelo pescoço e, assim, arrastados para a beira-mar. Uma espécie de festa foi realizada em terra firme naquele dia. Não estava ciente de que essa seria minha última festa na África. Feliz de mim que não sabia”, diz Baquaqua em sua autobiografia.

Após o período de servidão em Pernambuco, ele foi vendido a um comerciante do Rio de Janeiro, que o fez trabalhar em um navio que fazia rotas comerciais. Em uma das viagens, quando levava encomendas de café para Nova York, escutou boatos de que os estados do Norte dos EUA haviam abolido a escravidão e decidiu fugir do navio.

Cabana do séc XIX na cidade de Buxton, Canadá, muito semelhante à que Baquaqua morou (Foto: Paul Lovejoy)

Cabana do séc XIX na cidade de Buxton, Canadá, muito semelhante à que Baquaqua morou (Foto: Paul Lovejoy)

“A primeira palavra que meus dois companheiros e eu aprendemos em inglês foi F-R-E-E (L-I-V-R-E). Ela nos foi ensinada por um inglês a bordo e, oh!, quantas e quantas vezes eu a repeti”, escreveu Baquaqua.

Baquaqua foi preso logo após fugir do navio, mas, com a ajuda de abolicionistas americanos, conseguiu sair da prisão. Ele se refugiou no Haiti, onde se converteu ao cristianismo. De volta aos EUA, dessa vez como um homem livre, ele estudou inglês por três anos em Nova York. Se tornou amigo de importantes abolicionistas americanos, como Gerrit Smith, que concorreu à presidência dos EUA em três ocasiões (1848, 1856 e 1860).

Em 1854, quando Baquaqua já morava no Canadá, sua autobiografia, escrita com a ajuda do escritor americano Samuel Moore, foi publicada em Detroit, para arrecadar fundos para a campanha abolicionista dos EUA.

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4 Opiniões

  1. José André disse:

    A história está cheia de relatos que negam a passividade do negro africano, isto é que o escravagista passou para os descendentes destes heróis negros, dói quando ouço a enorme importância que é dada à imigração de outros povos… Enquanto que o negro é menosprezado e esquecido da sua importância para a colonização deste país, acham que nós temos que ser gratos por termos sido escravizados… Por sermos esbulhados até hoje pela perversa raça branca? Quando derem VOZ aos negros, e reconhecerem o valor de sua participação nesta nação, passarão então a poder dizer que são uma nação igualitária!

  2. Edson Silva disse:

    Que história fantástica que o Opinião e Noticia nos traz…parabéns pelo belíssimo artigo.

  3. Ludwig Von Drake disse:

    Há muitas biografias interessantes como a do príncipe Osuanlele Okizi Erupê, que morou em Porto Alegre no século XIX. Não foi escravo e foi um lider de seu povo.

  4. Jorge Hidalgo disse:

    Que história fantástica e que não tinha ideia…mais do que “tristes trópicos” somos um país desgraçado por não conhecer o nosso passado e ainda hoje “forças ocultas” são completamente contra que a nossa História seja contada como ela é: pela força bruta, pela ilegalidade (escravidão quando o tráfico já era proibido por lei…lei para Inglês ver…), pelos crimes de consciência – obrigar alguém a professar outra Religião e por aí vai…bom saber!!!

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