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A ‘Grande Falha’ brasileira

Cresce no Brasil o debate sobre 'falhas' no modelo brasileiro. Há flagrante descompasso entre a capacidade de gastar e as de produzir e investir

A ‘Grande Falha’ brasileira
Até ano passado, éramos os campeões mundiais dos juros altos (Fonte: Reprodução/Além de Economia)

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O economista indiano Rhaguran Rajan é reconhecido por sua contribuição ao entendimento da crise financeira. Em livro recente, que lhe deu fama mundial, intitulado “Fault Lines” — em português, “Linhas de Falha”— Rajan aponta as falhas estruturais da economia mundial.

Ele as compara às falhas tectônicas do planeta, escondidas, que podem trazer destruição grave no caso de súbita movimentação de placas. A metáfora é interessante. O termo já foi incorporado à linguagem econômica para designar situações de vulnerabilidade de uma estrutura econômica, seja nacional, regional ou mundial.

Cresce no Brasil o debate sobre “falhas” no modelo brasileiro. Há flagrante descompasso entre a capacidade de gastar e as de produzir e investir. O consumo das famílias e do governo no Brasil é que sustenta a geração de empregos, concentrados no setor de comércio e serviços, e em geral vinculados à lenta evolução da produtividade da economia nacional. Até ano passado, éramos os campeões mundiais dos juros altos.

Somos donos da Copa do Mundo da burocracia tributária: são horas sem fim, despendidas pelas empresas para cumprir as regras de impostos, as mais variadas e complicadas do planeta. Nem precisamos apelar para a existência de outras falhas estruturais, como baixa educação e treinamento, infraestrutura péssima e sofrível grau de inovação industrial, para explicar porque temos crescido tão pouco. Juros e impostos são causas dominantes.

Problemas crônicos de saúde e educação já existiam nos anos 1960 ou 1970. No entanto, naquelas décadas, chegamos à fronteira do crescimento, com PIB evoluindo acima de 7% ao ano, chegando ao topo, com 10% ao ano. Depois trombamos contra uma parede de má gestão macroeconômica. Esta foi, e ainda é, a principal falha brasileira: o diagnóstico equivocado dos nossos erros, não qualquer outra falha pontual.

A economia vai mal porque a falha principal permanece convenientemente camuflada. A debilidade do PIB brasileiro decorre da enorme falha no modo de financiamento dos gastos do Estado, que crescem, há mais de uma década, acima do PIB privado. Recursos bons são sugados para financiar o consumo no setor público.

A ferramenta que opera tal sucção vampiresca é a tributação acrescida (marginal), hoje em torno de 70% da renda nacional acrescida. De tudo que se acrescenta ao PIB durante o ano, mais de metade – chegou a 70% em 2011! – é desviada do setor privado para financiar o setor público.

A tributação na margem vem comendo parcela majoritária dos acréscimos de renda gerados pelas empresas, inviabilizando novos investimentos pelos lucros acumulados.

Tais lucros são sugados antes, e viram consumo público. As máquinas políticas, em Brasília e nas assembleias estaduais, têm endossado esse procedimento vampiresco, com argumentos absurdos como “fazer os empresários pagarem a conta” ou “investir mais no social”.

O resultado escondido da tributação brutal é a anemia do PIB. Rever a carga fiscal, controlar o gasto público com metas estritas, simplificar e cortar impostos, este é o ÚNICO remédio imediato e de amplo espectro contra o Pibinho. Esta, sim, é a grande falha brasileira. Persistente, injusta e quase criminosa. Mas dá pra consertar.

Fontes:
Instituto Millenium - A “Grande Falha” brasileira

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9 Opiniões

  1. helo disse:

    Muito bom o artigo, frase final conclusiva e alentadora. Existe conserto.

  2. André Luiz de Jesus Silva disse:

    É existe conserto… Resta saber se o governo o deseja. A Reforma Tributária tão desejada por todos nós não ocorrerá no governo Dilma, certamente, em decorrência da mesma ter sido efetuada mal e porcamente por seu antecessor. Seria como reconhecer que os oitos anos de Lula foram sim um grande desperdício.

  3. Mauricio Fernandez disse:

    A “Grande Falha” brasileira está na batida e surrada afirmação “tudo pelo social e pela educação”. É uma grande falha que suga recursos como um imenso esgoto. O esgoto da corrupção que estende seus tentáculos apoiando-se em programas caça níqueis governamentais com fins eleitoreiros. Educação é um problema estrutural que não pode ser tratado com faz de contas a curto e médio prazo. Aqui é tratado a curtíssimo prazo, drenando bilhões pelo esgoto de grupelhos que se dizem educadores e que despejam no país milhões de brasileiros com o endino fundamental sem saber direito ler e escrever. Na saúde o crime de matar em nome da incompetência e do descaso não consegue comover os direitos humanos. Temos um povo ignorante e enfermo. Mas tudo faz parte de um plano de governo de cinquenta anos e que gesta as escancaras um sistema de castas que todo mundo teme, não quer falar, ver ou ouvir. “Fault Lines” de Rhaguran Rajan é um livro comum que bem poderia ser escrito por qualquer economista mais atento. Se tudo é visto e concebido sob exorbitantes lucros podemos aceitar sem problemas o título “GRANDE FALHA”.

  4. Nelson Franco Jobim disse:

    A melhor tradução para fault lines é falhas geológicas.

  5. Élio J. B. Camargo disse:

    O problema brasileiro é alienarmos nossas responsabilidades ao estado, como o grande pai que tudo resolve e de quem podemos sempre reclamar. E o estado centralizado (burocrático por natureza) é incapaz de resolver todos os nossos velhos problemas (educação, saúde, segurança, justiça, infraestruturas, etc.). Os estados e municípios são responsabilizados fiscalmente, mas o grande pai federal tudo pode, mas é totalmente incapaz. Nosso mal foi extremamente aumentado com a Constituição de 88 (onde tudo é direito do cidadão e dever só do estado!). É preciso uma real descentralização destas responsabilidades para que cada comunidade (cidade) assuma as suas e efetivamente resolva-as. Se trouxermos os problemas mais próximos a nós, seremos obrigados à participação e descobertas das soluções.
    O inquilino de plantão político (qualquer que seja) e funcionários, em Brasília ou estados jamais farão esta descentralização e nós, também não!

  6. Rodney g. Taboada disse:

    A nossa grande falha é a falha do carater. Políticos pensam apenas em si mesmos, nas próximas eleições. Os governantes pensam em manter o poder e por isto “incham” a máquina pública. O povo alienado e ignorante não tem a menor ideia do que está ocorrendo e garante indices de popularidade fabulosos aos que afundam o pais. A “mídia” em sua grande maioria conivente com os governantes de plantão não quer perder verbas de publicidade em sua maioria em mãos oficiais. A juventude combativa está agora com mais de sessenta anos e não combate mais nada. As pessoas bestificadas perdem seu tempo vendo BBB. Não temos um MAU caráter, na verdade, como Macunaíma, não temos nenhum caráter. Vamos boiando onde as correntes nos levarem.

  7. Roberto Santiago disse:

    Sempre costumo emitir o meu próprio conceito sobre os temas tratados nos artigos que me despertam atenção aqui no “Opinião e Notícia”, porém, neste caso ora em tela, nem preciso divagar, abraço, “in totum”, o que escreveu o Rodney G. Taboada, e “peço licença” ao mesmo para complementar com uma colocação do também brilhante, Maurício Fernandez, quando escreveu: “Temos um povo ignorante e enfermo. “. Apenas “complemento” esta frase com: “Temos um povo ignorante e enfermo…, porém, profundamente interesseiro e egoísta.”

    P.S.: Cara Helo, desculpe se não concordo com você. Para “consertar”, a meu ver, o povo deveria mudar sua maneira de pensar e de agir, e isso muito antes do “governo”(???). Com todo respeito, aceite um fraterno abraço deste amazônida já descrente em “brasileirismos”.

  8. helo disse:

    Roberto Santiago,
    Quero ser otimista, mas às vezes me bate um pessimismo. Como você disse, povo e governo são interesseiros e egoístas. Se as coisas não vão indo bem, talvez o povo troque os políticos. Um conserto via desacerto.
    Considero que pensar no bolso é normal, anormal é o homem público só pensar no seu. Há muitos brasileiros Macunaímas, mas quando o nome foi dado ao Lula é que ficou claro o desconserto, a falha, tenha ela a tradução que tiver.

  9. celso disse:

    “Até ano passado, éramos os campeões mundiais dos juros altos.” a duas, duas decadas em dois dígitos.
    Os economistas europeus dizem que 7% é inviável a longo prazo(Espanha, Itália, Grecia). Tem um economista nosso que diz que nosso juro deveria ser de 12%a.a”
    Recursos bons são sugados para financiar o consumo no setor público.” e….pagar juros, muito juro.
    E… porque o Brasil produz energia a custos proibitivos? Terceiro mais elevado do mundo. (lógico tem imposto para pagar aqueles juros acima) É o custo Brasil nas alturas inviabilizando o investimento industrial. Ao menos neste governo estamos enfrentando estes dois problemas, é torcer para tudo dar certo.

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