Início » Brasil » A guerra de todos nós
Caos no Rio

A guerra de todos nós

O erro de todos é a utilização da força. Por Leandro Mazzini

A guerra de todos nós
O Rio não precisa de mais policiais. Necessita de policiais mais honestos (Fonte: A Bola)

O secretário nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri, disponibilizou, na quarta-feira, 1°, 500 soldados da Força Nacional de Segurança (FNS) para o Rio de Janeiro. Basta um pedido oficial do governador Sergio Cabral, que não surgiu ainda. É um problema. Não a Força em si, mas a maneira de utilização da força policial. O Rio não precisa de mais policiais. Necessita de policiais mais honestos. O Rio não precisa eliminar traficantes. O desafio é convertê-los em cidadãos.

O erro de todos, nessa guerra de todos nós, é a utilização da força. Inevitável porque deixamos a situação chegar a este ponto, o da complacência com o crime — nós, porque não cobramos os governantes, e estes, porque não gostam de ser cobrados. A sociedade fecha os olhos para o problema debaixo de sua janela, e tranca-se em sua casa, e pobre de quem estiver na rua à revelia da ausência de segurança. O fato é que o crime está subindo as paredes, as escadas, o elevador, e chegou à sua casa, num assalto, numa bala perdida — ou direcionada — num estupro, num assalto, num sequestro-relâmpago. Ficou tão evidente e intrínseco: o crime somos nós.

Nas décadas de 70, 80 e início da de 90, o jogo do bicho e o tráfico de drogas estavam ligados diretamente. Ao passo que os “bicheiros” descobriram no setor do samba e entretenimento a forma ideal de lavagem de dinheiro, e no jogo de azar eletrônico e bingos, a chave do cofre. O tráfico ficou órfão de seus mentores, passou a ser mais combatido e suas organizações caíram nas mãos de crianças, adolescentes e jovens que não chegam aos 25 ou 30 anos sem uma bala no baço ou na cabeça que os envie para uma cova.

Em entrevista esta semana, o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso falou uma verdade desse mundo. Os traficantes são pés-de-chinelo que financiam seus chefões, que não ficam em favelas. Não existe crime organizado nesse submundo. Há aventura, drogas, consumo desenfreado dos traficantes e dos viciados, e muito dinheiro que vai e volta. É um jogo diário e frenético que vitima toda uma cidade, e que a sociedade, ao apoiar as incursões policiais, mostrou que não aguenta mais.

A esta fase que chegamos, o que não é o ideal fica realmente inevitável — o confronto direto e armado. Mas o estado demorou. Governadores de décadas fecharam os olhos para o problema. O atual governador, Sergio Cabral, prometeu em 2006, na campanha, que contrataria 10 mil policiais no primeiro ano (2007) e tiraria muitos de funções burocráticas. Demagogia eleitoral. Não conseguiu esse número, apesar dos avanços. E como criou as UPPs — Unidades de Polícia Pacificadora, um programa de sucesso, demonstrou que pelo menos tomou a iniciativa e que governo e sociedade enfim entenderam o problema. O grande desafio é a ocupação social, não a militar.

Resta saber quanto tempo as armas virarão flores nestes morros. Nestas ruas. Em nossas casas.

Nota do colunista

Em 2002, durante a campanha eleitoral, este repórter e um fotógrafo foram cercados pelo tráfico no Borel, o mais violento morro da Tijuca no Rio, à época. “Caímos” incidentalmente na “boca de fumo” da favela ao descermos sozinhos pelas vielas entrelaçadas. Cercados por dois traficantes armados e encapuzados, fomos ameaçados de morte. Preparavam-se para o nosso sequestro num cativeiro, num barraco, quando um líder comunitário apareceu esbaforido e nos salvou. A candidata ao governo do Rio – que veio a vencer as eleições – passou pelo local e fez vista grossa para a dupla armada à sua frente. O Borel só foi ocupado e o tráfico expulso no início deste 2010. Mas não me esqueço, apesar de longe, daqueles dois pares de olhos raivozos que articulavam o crime. E daquele par de olhos políticos que se fecharam para o problema.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

2 Opiniões

  1. Augusto R.C. D'Oliveira disse:

    Este problema não é só no Rio de Janeiro, é nacional. O que você, cidadão, está fazendo para melhorar a sua comunidade, bairro, predio, etc. em que mora?

  2. EDVALDO TAVARES disse:

    O PROBLEMA ESTÁ NA RAIZ – FORMAÇÃO DA NAÇÃO BRASILEIRA

    Um estudo histórico traduz tudo.

    Em 1808, recebemos uma corte fugida de Portugal – Napoleão forçou a fuga – que transladou tudo, de bom e de ruim, e influenciou a formação do povo brasileiro.

    A ocorência foi há duzentos anos atrás e, até antes, em Portugal, isso não é novidade, no Brasil atual, é herança cultural, que recebeu e cultuou tudo de mal de Portugal, a corrupção e a criminalidade.

    Napoleão – há uma dúvida se é herói brasileiro ou vilão brasileiro -, merece estátua no Praça dos Três Poderes em Brasília/DF(?), por expulsar e desencadear a fugidia ação que levou, o príncipe regente e afins, Dom João VI e sua corte, a aportar na Bahia, em 1808.

    De concreto existe, o Príncipe Regente, Dom João VI, aportou no Rio de Janeiro, uma semana após, temporária parada na Bahia, Salvador, e hoje vivemos todas as consequências dessa hospedagem da família real portuguesa no Brasil.

    Aviso aos historiadores, curiosos e, palpiteiros brasileiros e portugueses, se puderem, apresentem contrargumentação.

    BRASIL ACIMA DE TUDO. SELVA!

    EDVALDO TAVARES, MÉDICO, DIRETOR EXECUTIVO DO SISTEMA RAIZ DA VIDA, BRASÍLIA/DF http://www.raizdavida.com.br

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *