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A luta contra epidemia da Aids está à beira de um retrocesso?

Segundo um recente relatório da Unaids, se o mundo não intensificar o combate ao HIV, corre o risco de uma retomada da epidemia. Como reverter esse cenário?

A luta contra epidemia da Aids está à beira de um retrocesso?
No Brasil, cerca de 734 mil pessoas vivem com o vírus HIV (Foto: Flickr)

Nos próximos cinco anos, a comunidade internacional deve acelerar drasticamente seus esforços de combate à Aids para impedir uma nova retomada de crescimento da epidemia. É o que concluiu um relatório divulgado em junho deste ano pela Unaids, em parceria com a empresa de pesquisa britânica Lancet Commission.

Segundo o documento, o número de novos casos de HIV no mundo não está caindo como deveria, enquanto a população de alguns dos países mais afetados pelo vírus está crescendo rapidamente, o que gera o risco de um aumento significativo de infecções. De fato, essa retomada da epidemia não seria tão drástica quanto a que ocorreu no final da década de 1980, mas pode significar o início de um retrocesso mundial no combate à doença.

No Brasil, cerca de 734 mil pessoas vivem com o vírus HIV. Os dados são do último boletim epidemiológico HIV-Aids, publicado no ano passado pelo Ministério da Saúde. Segundo o documento, o estado com a maior taxa de mortalidade pela doença é Rio Grande do Sul, seguido do Rio de Janeiro e do Amazonas.

Em entrevista ao Opinião e Notícia, George Gouveia, psicanalista e presidente do Grupo Pela Vidda, o primeiro do Brasil destinado ao apoio de soropositivos, explicou que, apesar dos avanços, o Brasil ainda registra cerca de 40 mil novos casos de HIV por ano. “Só no Rio de Janeiro, são cerca de 150 óbitos por Aids por mês. No Brasil temos cerca de 40 mil novas infecções por ano. É inadmissível, e as pessoas observam isso como um fenômeno natural contra o qual não se pode fazer nada, como se fosse um tufão. Não é o caso”, explica Gouveia.

Entre os jovens, a situação é ainda mais crítica. Uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde mostrou que o número de casos de Aids entre jovens de 15 a 24 anos subiu de 3.453 em 2004, para 4.414 em 2013. O levantamento também mostra que embora 94% da população saiba que o preservativo é a melhor forma de evitar a Aids, apenas 45% da população sexualmente ativa afirmou ter usado preservativo em todas as relações sexuais.

Para Gouveia, esses dados refletem a falta de conscientização sobre a doença. “No Brasil, só se fala de Aids no Carnaval e no Dia Mundial de Combate à Aids. Tem-se uma ideia de que a epidemia da Aids está resolvida, e não está. Ainda é uma doença que mata. A mídia não cobre o assunto como deveria. É diferente dos anos 1990, quando se cobria a morte de ídolos como Cazuza e Fred Mercury. As pessoas sabiam do que eles tinham morrido e sabiam do perigo da Aids.

Nesse contexto, o acesso à informação, especialmente entre os jovens, seria a maior arma para reverter a situação. “É preciso falar sobre o assunto, e falar muito. Temos que ter cartazes em locais públicos, com informações sobre a Aids. Deveria se falar sobre HIV nas escolas, para fazer com que os adolescentes absorvam a ideia da importância do uso do preservativo como algo que ele pode inserir dentro do desejo dele, não como uma obrigação. Seria muito mais eficaz do que dizer ‘Tem que usar’. Precisamos também reinventar o discurso do preservativo, porque quando se fala de sexo com ‘proteção’, subjetivamente e semanticamente estamos colocando empecilhos no ato sexual. É como se tivéssemos de nos proteger do outro”.

Avanços contra a epidemia

O Brasil é signatário da meta 90/90/90. Criada pela ONU, ela determina que até 2020, 90% das pessoas que vivem com o HIV tenham conhecimento de sua situação; 90% dos diagnosticados com o vírus recebam tratamento antirretroviral; e 90% dos que receberam o tratamento possuam carga viral indetectável, impedindo assim a transmissão do vírus. A meta foi criada como parte dos esforços da organização para pôr fim à epidemia da Aids até 2030.

Para Gouveia, apesar dos problemas, também há boas notícias e iniciativas que mostram o comprometimento do Brasil com a meta. “Não se pode deixar de dar crédito às boas iniciativas e decisões do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais. Nós temos notícias boas como o remédio 2 em 1, que reúne duas substâncias em uma só pílula, o remédio 3 em 1, que é indicado para o início do tratamento. Hoje, uma pessoa que se descobre soropositiva vai se tratar tomando uma pílula por dia. Há 25 anos, eram de 20 a 30 comprimidos diários. Isso é um avanço incrível. Claro que existem os efeitos colaterais, mas eles são mais gerenciáveis do que há duas décadas. Temos também a Profilaxia Pós-Exposição, um kit com medicação para tomar durante 30 dias, em casos de risco de infecção, como quando o preservativo rasga”.

Além do tratamento, a necessidade e apoio psicológico também é indispensável. “No Grupo Pela Vidda oferecemos o acolhimento e o aconselhamento. Fazemos reuniões onde as pessoas diagnosticadas com o vírus externam seus medos e suas angústias. Depois, partimos para o aconselhamento, explicando como é viver com HIV hoje. Mostramos que é possível conviver com a doença, trabalhar, estudar, fazer planos e ter filhos sem transmitir o vírus para o bebê. Esse trabalho faz toda a diferença, porque naquele momento inicial é possível fazer com que o indivíduo mude todas as suas crenças negativas ao se descobrir soropositivo, e ao fazer isso ele passa a ver o HIV de outro modo. Óbvio que não de uma forma positiva, mas como algo que pode ser gerenciado, monitorado, controlado”, explica Gouveia.

 

Caro leitor,

Na sua avaliação, que medidas deveriam ser tomadas para intensificar o combate à Aids?

 

2 Opiniões

  1. Braziliano disse:

    Vamos a uma provocação:
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    Há mais ou menos 60 anos, começamos a semear “Sexo, Drogas e Rock N’ Roll”, acrescidos de sensualismo, materialismo, imediatismo, hedonismo, etc. enfim o paraíso sonhado e ansiado pelos “gurus” materialistas do século 20.
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    Obviamente estamos colhendo hoje o que semeamos. Querer convencer um jovem a abdicar dos conceitos de prazeres “carnais” elencados acima!? Quanta ingenuidade!
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    Com a “fedentina” resultante, para “solucionar” os problemas, aparecem aqueles mantras ou “elixires milagrosos” tipo: educação sexual, responsabilidade social, coletivo disso e daquilo, e por aí vai.
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    Sinto dizer mas a perspectiva que nos aguarda é a pior possível.

  2. Jorge Hidalgo disse:

    Educação, educação e educação…e isso envolve falar de coisas ainda “proibidas” como sexo, desejo, etc…. ah ainda bem que ninguém ainda andou falando que a religião x ou y, ou a igreja tal “curou” tal doença….é mais fácil falar da cura gay…..kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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