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Abolição da escravidão

A luta do Instituto Pretos Novos pela memória do período escravista do Brasil

Criado para preservar a memória de um antigo cemitério de escravos, o IPN se tornou uma força de resistência da cultura africana e afrodescendente

A luta do Instituto Pretos Novos pela memória do período escravista do Brasil
No IPN são feitas palestras e exposições sobre a história da escravidão no Brasil (Divulgação/Porto Maravilha)

No dia 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, que abolia de vez a escravidão no Brasil. Em homenagem à data, o Opinião e Notícia foi conhecer o trabalho do Instituto de Pesquisa e Memória dos Pretos Novos (IPN), organização que luta pela preservação da memória do período escravista brasileiro e da cultura africana e afrodescendente no Brasil.

Localizado na rua Pedro Ernesto, 36, na Gamboa, zona portuária do Rio de Janeiro, o IPN foi fundado em 13 de maio de 2005. Este ano, ele completa uma década, mas sua história começa bem antes, em janeiro de 1996. Naquele ano, Merced Guimarães iniciou uma obra em casa que acabou revelando a existência de um cemitério de escravos bem abaixo de sua residência. Após algumas pesquisas, ela descobriu que o cemitério foi criado em 1769 e lá eram enterrados os pretos novos (escravos recém-chegados), que não resistiam à viagem da África até o Brasil.

“A gente estima que mais de 50 mil estejam enterrados aqui, sendo a maioria das ossadas de criança. E não havia nenhuma decência no modo como eram enterrados. Em certo momento não havia mais espaço, então os corpos eram socados com pedaços de madeira. Por isso, os ossos encontrados estão aos pedaços”, diz Merced.

Merced revela que o local também era usado como lixão pela população da época. “Descobrimos restos de materiais que eram descartados aqui. Na época, pensavam que se aqui eram enterrados negros, então também podia se jogar lixo. Ou seja, essas pessoas não foram respeitadas em vida nem na morte. Foram raptadas, passaram meses no porão de um navio e os que não resistiram foram enterrados aqui, sem nenhuma dignidade. Nossa luta é para impedir que isso seja esquecido”.

Para isso, Merced e seu marido, Petrucio Guimarães, se juntaram a amigos e colaboradores para fundar o IPN. Dentre eles está Penha Santos, coordenadora do Núcleo de Cultura do instituto.

Penha explica que o papel do instituto é ser uma força de resistência diária. “O IPN é uma resistência enquanto resgate da nossa história. Uma que não está nos livros, mas deveria estar. Por incrível que pareça, existem professores negros que não conhecem essa história. Por isso, nós temos de ser uma resistência o tempo todo. Tem dia que não é fácil, mas a gente segue adiante. Porque se a gente deixar de falar, como fica? Quem vai contar?”.

No IPN são feitas palestras, exposições e oficinas sobre a história da escravidão no Brasil e a cultura africana e afrodescendente. Há também um passeio aula, chamado Caminhos da Escravidão, em que o professor e historiador Claudio Honorato percorre com visitantes os locais da região que mais marcaram a vida cotidiana da população escrava.

Entre os projetos futuros do instituto está a ampliação do local, criando mais duas salas, uma para biblioteca outra para acomodar as ossadas. “Estamos tentando ter um novo pavimento, onde ficaria uma sala para as ossadas. Não para exposição, mas para que repousem. Acho que é o mínimo de decência que podemos dar a eles a essa altura. Isso e a preservação da memória, contar quem eles eram, o que aconteceu com eles. Também planejamos montar uma biblioteca. Já temos os armários e um acervo de quase 2 mil livros”, diz Merced.

O IPN recebe um aporte anual de R$ 60 mil da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (Cdurp), mas o valor não é suficiente, por isso também são aceitas doações que podem ser feitas na sede do instituto.

Para conhecer mais sobre o trabalho do IPN basta comparecer à sede do local, acessar o site ou a página do instituto no Facebook.

1 Opinião

  1. Hugo Leonardo Filho disse:

    Devemos estudar a História de maneira cientifica e menos emocional. Embora os intelectuais e políticos ligados aos Movimentos Negros relutem em aceitar, a escravidão era um projeto africano.

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