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A memória viva do Holocausto

Lembrar e nunca esquecer pode ser o maior desafio com um número cada vez menor de sobreviventes

A memória viva do Holocausto
Atualmente, Aleksander Henryk Laks, 88 anos, tem dois filhos e três netos (Mariana Mauro)

Após 70 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz, o desafio atual é como preservar a memória do genocídio. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto perseguiu e matou judeus, além de muitos outros grupos, como ciganos, homossexuais e Testemunhas de Jeová. Não se sabe ao certo quantos sobreviventes ainda estão vivos, mas a maioria já está em idade avançada, na faixa dos 80 e 90 anos, de modo que o desafio é manter a memória viva mesmo depois que não houver mais sobreviventes para contar esse capítulo da história.

Desde 2011, pela lei N.º 5.267, a rede municipal do Rio de Janeiro enfatiza o conteúdo sobre o Holocausto nazista como forma de educação, prevenção e combate a todas as formas de discriminação e intolerância. O historiador Márcio Sukman, diretor do Museu Judaico do Rio de Janeiro e sócio da Associação Israelita do Rio de Janeiro (ARI), falou sobre o desafio de explicar o genocídio para crianças em idade escolar. “O Holocausto é uma tragédia, mas ele não pode ser sacralizado. Tudo em história tem que ser submetido à crítica, ao debate. O desafio do ensino é conseguir respeitar a tragédia das pessoas, mas ao mesmo tempo submeter isso a críticas”, comenta. “O grande desafio do século XXI é trabalhar a questão da tolerância”.

O advogado Paulo Maltz, presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro (FIERJ), falou sobre a preservação da memória e sobre a intolerância. “Os museus do Holocausto em todo o mundo, inclusive em Curitiba, no Brasil, são elos de ligação entre o passado e o presente. A tradição oral é igualmente importante, pois foi esta tradição que manteve o povo judeu unido e fiel a seus princípios”, explicou. “Tudo que serve para divulgar a tentativa de extermínio de um povo é importante para que isso não se repita, quer com os judeus, quer com outro povo ou minoria qualquer”.

Memórias de um sobrevivente

Nascido na cidade de Lodz, na Polônia, Aleksander Henryk Laks escapou pelo menos 10 vezes da morte. Após enfrentar os horrores do Holocausto e perder a família, ele reconstruiu sua vida no Rio de Janeiro.  Além de ser presidente da Associação Brasileira dos Israelitas Sobreviventes da Perseguição Nazista, Sherit Hapleitá do Rio de Janeiro, escreveu junto com Tova Sender o livro “O Sobrevivente: memórias de um brasileiro que escapou de Auschwitz”.  Hoje, com dois filhos e três netos, ele, aos 88 anos, conta um pouco de sua história ao O&N.

gueto

Foto do quadro que mostra o núcleo de estudos do gueto de Lodz. Aleksander Laks foi o único sobrevivente desse grupo (Mariana Mauro)

O que representa hoje para o senhor o aniversário de 70 anos da libertação de Auschwitz, que aconteceu na última terça-feira, 27?

Bom, é muito importante ter um dia de lembrança universal. Mas para mim, como sobrevivente, essa data não representa nada, porque dia 27 de janeiro, eu e meu pai estávamos na “Marcha da Morte”. O Holocausto continuava. Os prisioneiros de Auschwitz estavam na “Marcha da Morte”, só ficaram muitas poucas pessoas. Alguns que não podiam andar e não foram fuzilados, esses  e algumas crianças sobreviveram em Auschwitz. Mas o grosso dos prisioneiros do nazismo estava na “Marcha da Morte”. E lá morreram 2 milhões de pessoas, especificamente judeus. Então essa data é importante para o mundo saber, principalmente, agora que têm alguns mentirosos, que sabem que estão mentindo, que dizem que não houve o Holocausto. Mas para um sobrevivente como eu, essa é uma data fictícia. O Holocausto acabou dia 8 de maio [de 1945]. Meu pai foi assassinado e eu pesava 28 kg. Mas a data é muito importante, claro.

As memórias do que viveu nos campos de concentração ainda são recorrentes?

São, 24 horas por dia. Principalmente, quando sento para comer. A quantidade de calorias que eu comi em um almoço, eu não comi lá durante uma semana. Ganhávamos só 200g de pão e não era esse pão que comemos… Era pão preto, dizem que misturado com serragem, uma sopa que serviam de legumes com casca de batata e uma água preta, que diziam que era café. É provado que com essa dieta uma pessoa consegue viver, no máximo, até oito meses. Eu vivi cinco anos e meio com essa dieta. Como sobrevivi? Eu não sei. Eu sei para que sobrevivi. Eu sobrevivi para testemunhar e para avisar as pessoas que isso nunca mais pode acontecer com ninguém.

O senhor já retornou a algum dos campos que esteve preso? Qual foi a sensação?

Sim. De início, se a terra me engolisse, eu ia ficar muito satisfeito. Em Auschwitz, eu entrava e saia, saia e entrava. O pessoal ficou me olhando, “parece maluco”, diziam. O pessoal me perguntou “por que você faz isso?”, e eu disse: “eu estou entrando porque eu quero,  e eu saio, porque eu quero, eu achei que nunca fosse sair daqui. Mas eu entro por minha própria vontade e saio, porque quero sair”. Isso foi uma satisfação para mim. Isso foi no final, porque no início foi muito choro e muita dor.

O senhor foi o único sobrevivente na Europa de uma família de 60 pessoas. Em algum momento pensou em desistir?

Desistir? Não. Eu não pensava nunca em desistir. Mas eu estava desistindo, porque, no final, depois do campo de Flossenbürg, eu fui levado para ser afogado no lago Constanz. O trem foi bombardeado e foi libertado na cidade de Tuttlingen [na Alemanha]. E lá, nós entramos num trem de passageiros. Só que minhas pernas estavam muito inchadas, então, sentei no chão e sabia que estava morrendo. Eu estava em paz comigo, estava em paz mesmo. Não tinha frio, não tinha fome, não tinha sede e, principalmente, não tinha medo. Estava em paz comigo como se estivesse na minha casa. Aí, nessa hora, hoje, posso dizer que estava desistindo. Isso foi no final, depois de cinco anos e meio, mas eu não desisti.

Conseguiu manter contato com algum sobrevivente?

Agora sim. Todo ano, em Flossenbürg, onde mataram meu pai, tem encontro de ex-prisioneiros. E eu todo ano sou convidado a ir lá. Em Flossenbürg, que eu soube a data que meu pai nasceu e a data de quando o mataram, além do número que eu e meu pai tinhámos. Porque nós tínhamos números, não éramos pessoas, éramos números. E lá, em conversa, encontrei pessoas, que eu não conhecia, que estavam junto comigo no gueto, na “Marcha da Morte” – poucos, porque poucos sobreviveram – e também em Flossenbürg. Eu conto no livro, que na “Marcha da Morte”, meu pai disse que ia sentar, porque não conseguia andar mais. E tinha um homem, que não estava melhor do que eu, que disse para encostar meu pai nele, mas ele arrastava meu pai com muito custo. Passamos e chegamos a Flossenbürg. Esse homem, eu não sabia quem era, vai lá sempre e ele fez um desenho para mandar para o Museu do Holocausto, não sei de que lugar, carregando meu pai.

O senhor costuma dar palestras e seminários sobre sua experiência durante a Segunda Guerra Mundial. Qual a importância desse diálogo, principalmente, em escolas?

Tudo que eu falo é sofrimento e tudo isso, claro… Mas eu não faço palestra, eu trago meu testemunho. Todos ficam muito sensibilizados e choram, até crianças… Choram com lágrimas mesmo. Eu faço isso não para dizer “coitadinho de mim”, “eu sou tão infeliz”, não para dizer que comi o pão que o diabo amassou… Não tinha pão, eu não posso dizer isso, porque não tinha pão que o diabo amassasse. Mas o que eu faço é um alerta para saberem que isso nunca mais pode acontecer com ninguém. Eu bato muito nessa tecla e digo muito isso. Eles entendem, os jovens têm muito mais receptividade do que os adultos. E muitos, eu sei pelos e-mails e cartas que me mandam, dizem que eu mudei o pensamento e a vida deles.

Todo o ano milhões de pessoas visitam antigos campos de concentração. Um fenômeno que ficou conhecido como “turismo da dor”. O senhor acha que essas visitas são importantes para a preservação da memória?

São, são muito importantes. Inclusive, tem na comunidade judaica, o que se chama de Marcha da Vida. Eu estava na “Marcha da Morte”, hoje tem uma Marcha da Vida. Escolas e também adultos fazem excursões para ir para a Polônia, visitar Auschwitz. E no dia seguinte, eles vão a Israel e fazem parte das comemorações da Independência de Israel. Chama-se Marcha da Vida. Raramente, tem uma cidade na Alemanha que não tem um campo de extermínio e de trabalho. E na Alemanha, eles fazem isso [de visitar campos]… Eu me sinto muito bem na Alemanha agora, por causa disso. Lá, eu faço palestras em escolas, universidades e também no Exército. Na Alemanha, é obrigatório saber o que foi o Holocausto. Levam todos, de criança ao Exército, para mostrar in loco o que aconteceu. Isso é muito louvável.

Com o recente ataque a um mercado de comidas judaicas na França, onde quatro judeus foram mortos, e com tantos outros casos de violência, muitos estão preocupados com a volta do antissemitismo. Como o senhor vê a situação atual?

Quando eu fui libertado, com 28 kg, eu pensei que ia ter um mundo novo, um mundo bom sem ódios, sem antissemitismo, principalmente. Eu pensei: acabaram com o nazismo, então ótimo, são todos bons, não vai acontecer mais nada. Grande engano meu. Hoje está se repetindo o que aconteceu nos anos 30.

Como o senhor encara a negação do Holocausto e de que forma essa postura, adotada no passado pelo ex-presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, por exemplo, é nociva para o mundo em geral?

Isto é preocupante. É muito preocupante para mim. E pode influenciar pessoas, que estão longe disso, que podem até acreditar… Pergunto a esses que dizem que não houve o Holocausto: quantos parentes eles têm? E quantos tenho eu? Eu sou o único sobrevivente de uma família de 60 pessoas. Ninguém sobreviveu. Onde estão? Secaram? Não, não secaram não. Foram todos exterminados com gás, queimados no crematório, e as cinzas jogadas para fertilizar a terra.

Apesar de todas as atrocidades que o senhor presenciou e viveu, consegue pensar em perdão?

Eu não posso perdoar quem fez, é impossível perdoar o que eu vi e vivi. Mas eu não tenho ódio, não tenho nada contra a nova geração dos alemães. Quando saí da Europa, eu jurei para mim que nunca mais ia pisar nem na Polônia nem na Alemanha. Hoje, eu já fui duas vezes à Polônia e todo ano eu vou a Flossenbürg [na Alemanha], no encontro de ex-prisioneiros, e para fazer palestras, em alemão. Eu não tenho nada, absolutamente nada contra os filhos, netos e bisnetos daqueles que fizeram. Aqueles que fizeram, esses eu não perdoo, mas eu não tenho raiva, nem nada contra a nova geração. É por isso que eu vivo. Eu tinha todo o direito de ser ranzinza, mal-humorado e agressivo. E eu acho que sou justamente o contrário, por isso tenho tantos amigos, e por isso que me convidam para tantos lugares para contar minha história.

Caro leitor,

Como impedir que um genocídio como o Holocausto aconteça novamente? Como enfrentar o desafio do tempo e deixar a memória viva?

 

1 Opinião

  1. Jorge Hidalgo disse:

    O Holocausto não deve jamais ser esquecido…é maravilhoso que esse ser humano, Senhor Aleksaander Henrick Laka esteja vivo e contando isso – não será esquecido, mesmo que o tempo passe, na medida em que as novas gerações não entrem no discurso simplório do Irã por exemplo, que nega a perseguição sistemática aos Judeus, Homossexuais, Ciganos, Comunistas, enfim, todos aqueles que foram nas palavras de Jesus, o “sal da Terra” – aqueles que ousaram dizer para aquele anticristo que o mal todo que ele e aqueles que estavam com ele praticaram tinha que acabar…
    Ainda mais no Brasil, um país tão injusto – temos ainda hoje no Brasil e no Mundo tantos “holocaustos” – basta você ser dissonante, pensar diferente, ter ou não ter algo, para sermos segregados, exterminados…destruídos – crimes que grassam nas ruas, violências mil, até mesmo no Trabalho, na Saúde, na Educação… temos sim que estar alerta – respeitar o próximo sempre mas jamais aceitar que grupos ou mesmo pessoas incentivem o ódio e a violência – não podemos ser lenientes – e estamos sendo… difícil a luta contra a ignorância, mas o testemunho desse Senhor Aleksaander e de tantos outros são a prova de que devemos acreditar e apoiar os que nos alertam: “cuidado…não deixe que pensem por você…”

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