Início » Brasil » A oposição e o ajuste fiscal
Jogo político

A oposição e o ajuste fiscal

Não esperem que a oposição seja governo

A oposição e o ajuste fiscal
O PT impossibilita qualquer acordo multipartidário 'a favor' do Brasil (Foto: Agência Brasil)

Recebo vários e-mails de amigos meus questionando porque a oposição não sai em defesa do pacote de ajuste fiscal. Alguns desses meus amigos têm um discurso muito duro e separam as coisas entre o que é bom e o que é ruim para o Brasil, como se o debate sobre os rumos de um país fosse meramente um debate técnico no qual os economias sabem exatamente o que seria bom e ruim.

Se a oposição fosse seguir à risca a sugestão de alguns dos meus amigos, excelentes economistas que se preocupam com o futuro do Brasil, talvez fosse melhor a oposição se coligar ao PT e ajudar, com muita paciência, os políticos do PT entenderem o que é responsabilidade fiscal.  Claro que uma parte da oposição teria que deixar a política porque o governo talvez não queira na sua base aqueles com discurso mais liberal.

Estabelecer que aqueles que votam contra ou a favor do pacote de ajuste fiscal é o mesmo que votar “contra” ou a “favor” do Brasil é de um simplicidade espetacular e fere o cálculo político de deputados e senadores de oposição. O PT com a sua política de confronto e com o seu discurso dúbio em relação ao pacote de reformas, a insistência que a crise é fruto de problemas externos e não de erros de política econômica, e ainda um Ministro da Casa Civil que é tido pelos seus ex-colegas do Senado como excessivamente arrogante impossibilita, pelo que observo nas minha andanças no Senado, qualquer acordo multipartidário “a favor” do Brasil.

As pessoas, em especial vários dos meus amigos economistas, deveriam cobrar da base do governo a fidelidade necessária e a convicção para aprovação das reformas. Querer jogar a defesa dessas medidas do que é “certo” e “errado” para oposição, dado o jogo político atual, não faz o mínimo sentido. Como corretamente fala o ex-ministro Delfim Neto no final do seu artigo no Valor Econômico desta terça-feira, 26:

“A necessária ‘ordem’ fiscal que precisamos apressar é apenas o primeiro passo. O PT não tem ajudado. É bom lembrar que foi ele quem deu aval e beneficiou-se eleitoralmente do ‘desastre fiscal’ apontado acima. Agora, com outro movimento oportunista, tenta beneficiar-se, de novo, da desinformação dos cidadãos, esperando que as ‘maldades’ corretivas sejam aprovadas pelo ‘patriotismo’ dos outros. Pode parecer esperto, mas tem uma dificuldade. Supõe que os ‘outros’ sejam idiotas…”.

O PT contra o ajuste

A crise atual decorre de irresponsabilidades do governo nos últimos anos, de sua política econômica desastrada, além do uso político das estatais. O PT deveria estar em uma cruzada para dar apoio ao ajuste fiscal e convencer  oposição de ajudá-lo no que “é melhor para o Brasil”. Sem uma atuação mais firme do PT e da presidente da República na defesa do ajuste fiscal, acho que muitos dos senadores da oposição votarão contra as medidas que serão apreciadas no Senado esta semana (MP 664 e MP 665) e outras medidas que estão por vir, em especial, as medidas de aumento de carga tributária, que é a preferência do PT, como falam os jornais.

Se há uma coisa que aprendi conversando com políticos é que eles são muito inteligentes. Nós economistas, muitas vezes, queremos colocar tudo no preto e no branco, quando, em geral, as coisas não são tão simples assim a começar pelas declarações de nossos pares que, certas vezes, utilizando da reputação que traz um titulo de professor titular de uma universidade, falam coisas que assustam estudantes do primeiro semestre da graduação de economia e todos nós ficamos calados.

Uma vez escutei de um professor titular de economia que se auto-intitulava de “jurássico keynesiano” que todas as vezes que o governo aumenta a carga tributária e transfere de volta para a sociedade por meio de gastos com previdência, LOAS, abono salarial, etc, isso não seria problema. Ou seja, se o governo aumentar a carga tributária em 10 pontos do PIB na próxima década e transferir de volta para sociedade com despesa da previdência não seria problema porque a renda “ficaria” na economia. Pasmem, mas tem economista professor titular que pensa assim.

Em resumo, em um momento que alguns senadores do PT começam uma cruzada aberta contra o ajuste e o ministro da Fazenda, não esperem que o socorro venha da oposição, a mesma que, por tantas vezes, defendeu o governo de 2003 a 2005.

Para terminar, apenas para mostrar a que ponto chegamos, recebi na semana passada um relatório de um amigo de um banco no exterior muito otimista sobre as mudanças da lei do pré sal e de revisão do conteúdo nacional. Achei esquisito porque há duas semanas a presidente Dilma negou essas mudanças. Telefonei para ele para entender o relatório e escutei: “Sim, a presidente falou mas não acreditamos na presidente”. Ou seja, chegamos em um ponto no qual para ser otimista alguns se negam a acreditar na presidente e esperam que o PT critique as medidas de ajuste publicamente mas volte ao governo.

E tem gente que quer ver a oposição defendendo as medidas do governo, pensando no futuro do Brasil? Por favor, há situações que um pouco mais de crise, algo muito ruim no curto prazo, pode ter um efeito benéfico tanto institucional quando de longo prazo. É claro que se as coisas piorarem todos os partidos precisão sentar à mesa para negociar, mas ainda estamos longe desse ponto, como alertou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em palestra que escutei dele em fevereiro.

Cabe ao governo liderar o esforço do ajuste fiscal e abrir canal de comunicação com a oposição, como fez de 2003 a 2005. Não esperem que a oposição seja governo.

Fontes:
Blog do Mansueto - A oposição e o ajuste

2 Opiniões

  1. anon disse:

    Boa Dabés

  2. Beraldo Dabés Filho disse:

    Seria ótimo ver o “Capo” FHC falar da extinção do “fator previdenciário”, criado por ele em 1999, roubando entre 30 e 50% das aposentadorias por tempo de serviço dos empregados celetistas (35 anos de contribuição=420 meses). Na época, ante manifestações contrárias dos aposentados, simplesmente os chamou de VAGABUNDOS, em rede nacional de TV. Vá plantar batatas seu safado, Capo da Propinoprivataria, que vendeu uma Vale de R$ 92 bilhões por R$ 3 bilhões. Ateu pilantra, vá para a Europa se juntar a sua filha bastarda, fruto da sua traição à Dona Rute.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *