Início » Brasil » A Princesinha e os Regentes
Política

A Princesinha e os Regentes

Estamos mais para o mundo de faz de conta da nossa Pequena Princesa. Esperemos que essa nova Regência possa trazer algum alívio a nossas dores

A Princesinha e os Regentes
Ninguém duvida de que o Vice-Presidente Temer seja uma raposa política e conheça bem as entranhas do governo e os caminhos tortuosos das alianças no país não das mil e uma noites, mas dos mil e um partidos (Foto: Reprodução/Internet)

Às vezes me pergunto se, atualmente,  o exercício matinal de abrir a porta e pegar o jornal não equivale a uma boa sessão de levantamento de peso e ginástica aeróbica. O esforço de se abaixar para levantar o tijolo é quase uma preparação para as Olimpíadas, tal o peso das notícias, cada dia mais carregadas de lixo. E a leitura provoca uma aceleração cardíaca comparável a uma boa meia-hora de esteira a 10 km/h, por conta do susto e da indignação.

No último sábado, no entanto, senti um certo alívio ao ler o relato de que  a nossa Chefe Suprema decidiu delegar uma parte de seus poderes a pessoas que, presumo, julga mais competentes para conduzir o barco nacional por esse mar de lama e, com um mínimo integridade e muita sorte, levá-lo a um porto mais seguro.

Ao conferir autonomia ao Vice-Presidente Michel Temer para tratar da articulação política e ao Ministro Joaquim Levy, na área econômica, a Presidente, segundo a notícia, teria reservado para si a área social, pois jamais abriria mão dos programas que lhe são tão caros, como o “Bolsa-Família”, o “Minha Casa Minha Vida”, o “Mais Médicos”e do ambicioso lema que escolheu para sua gestão, o da “Pátria Educadora”.

Esse último, como todos viram, começou no pé errado, com um titular da pasta da Educação totalmente desprovido da própria. Convém agora dar  um crédito de confiança a seu substituto que parece saber distinguir os pés da cabeça, um começo alvissareiro, nos tempos confusos em que vivemos.

Ninguém duvida de que o Vice-Presidente Temer seja uma raposa política e conheça bem as entranhas do governo e os caminhos tortuosos  das alianças no país não das mil e uma noites, mas dos mil e um partidos e também, convém lembrar, dos 39 ministérios, criados justamente para satisfazer gregos e troianos.

Já o Ministro Levy, que vem de um mundo totalmente diferente, apesar de ter seguramente em mão a receita para curar a maioria dos males dos quais nossa economia padece,  não parece disfrutar de tanta autonomia assim, e tem tido que se desmentir várias vezes.

Ao ver o que sobrou para a Presidente, imaginei logo uma versão feminina do Little Lord Fauntleroy, aquele menino que saiu da pena da Frances Hodgson Burnett, autora também da Pequena Princesa, para transformar o avô, velho ogro rabujento e avarento, num grande benfeitor de seus colonos, soltando bolsas-famílias, casas e assistência médica a rodo. Só que o velho Fauntleroy usava para essas benesses o seu próprio capital, antes simplesmente amontoado em seus cofres.

Ninguém sonha em negar a prioridade que deve ser dada à educação, à saúde, à alimentação e à moradia, os pilares da qualidade de vida de um povo. Muito pelo contrário. Mas a nossa Little Lady Fauntleroy , não é novidade,  está talvez, a esta altura, mais interessada no  Ibope que tais programas podem lhe proporcionar – só que agora ninguém mais está-se deixando enganar e o Ibope deu um mergulho abissal.

O estrago feito com a negligência das necessidades macroeconômicas do país e com a leniência e conivência com a corrupção é incomensurável. Difícil, nessas circunstâncias, imaginar como reparar os danos. Talvez um Temer-Batman e um Levy Homem-Aranha pudessem dar algum jeito. Infelizmente, não vivemos num mundo de super-heróis. Estamos mais para o mundo de faz de conta da nossa Pequena Princesa.  Esperemos que essa nova Regência possa trazer algum alívio a nossas dores.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *