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Pão e Circo

A salvação pelas chuteiras

Seria melhor dependermos de medidas corretas do governo para reaquecer a economia do que do balançar das redes de futebol

A salvação pelas chuteiras
Alguns acreditam que a Copa do Mundo pode estimular exportações, o turismo externo e, consequentemente, reaquecer a economia (Reprodução/Internet)

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No ranking mundial da Fifa de maio de 2013, a seleção de futebol do Brasil aparece em 19º lugar entre os 30 países, posição que já foi mais favorável ao pentacampeão. Já no ranking da competitividade global elaborado pelo suíço IMD – International Institute for Management Development em maio a classificação do Brasil escorregou da 38ª para a 51ª posição entre 2010 e 2013. O agravante é que o levantamento se faz somente entre 60 países, havendo pouco espaço para piora.

O IMD nota que decisões governamentais até são tomadas, mas nem sempre implementadas ou, quando são, há muito atraso. E, visto do exterior, não se sabe quais são as reais prioridades do governo brasileiro, se são em relação à inflação, crescimento, exportação, industrialização, redução das desigualdades. Ainda, o país é apontado como o campeão de protecionismo, de estar no topo no peso da burocracia, etc.

Poderíamos considerar a afirmação um exagero, não tivesse se constatado que somente na semana passada saiu o edital para privatização dos aeroportos do Galeão e Confins. Esta providência poderia ter sido tomada, coincidentemente, 10 anos atrás, no primeiro governo do ex-presidente, não fosse a ideologia predominante retrógrada e equivocadamente populista, ao nomear a privatização demoníaca. Imaginemos o que teríamos alcançado agora em termos de conforto e eficiência, não só para o dia-a-dia dos brasileiros, como estariam facilitados os eventos como a Copa do Mundo, Olimpíadas, chegada do Papa e outros. Sob uma ótica de esperteza é melhor deixar para a urgência, pois se justificam as dispensas de licitações e maiores custos para os contribuintes e faturamento ampliado para as empreiteiras, e um sem número de intermediários de última hora.

Maio negro

É claro que isto se reflete nos números divulgados neste maio negro. O crescimento de 0,6% do PIB (Produto Interno Bruto) no primeiro trimestre deste ano – melhor dizendo estabilidade – foi classificado como “muito ruim” pelo próprio governo. O maior temor no Planalto, agora, é o PIB crescer, neste ano, abaixo do registrado em 2011, primeiro ano do mandato da atual presidente, quando foi de 2,7%. No segundo ano, o crescimento ficou em 0,9%, e a preocupação é com a consequencia eleitoral, muito menos com o fato em si.

A inflação medida pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas em 12 meses, até maio, acumula alta de 6,22%, na faixa superior da meta do COPOM – Comitê de Política Monetária. Embora seja uma desaceleração do máximo de 8,30% em 12 meses findos em fevereiro, há uma sensação desagradável de que os itens alimentação, cuidados pessoais e remédios têm estourado o orçamento das famílias.

A divulgação da nova taxa básica de juros pelo COPOM, com aumento de 0,5%, elevando para 8,0% a taxa anual, surpreendeu os “desenvolvimentistas a qualquer custo”. Ora, para um investidor comum, que está na faixa abrangida pelas pesquisas de preços de até 40 salários mínimos de renda, o impacto do aumento da taxa de juros na decisão poupar-consumir é ínfimo, já que o rendimento da poupança e outras aplicações assim mesmo perdem da inflação, deduzido o inevitável imposto de renda. Acresce a este fato que a média salarial das regiões metropolitanas é de R$ 1.862,00, pouco acima de duas vezes o salário mínimo, pouco propensa a poupar, por falta de sobras de caixa, a qualquer taxa de juros da poupança.

Neste panorama não foram surpresas a queda do IBOVESPA e a alta da taxa de câmbio. Permanece intrigante, como peça fora deste cenário, a contínua baixa da taxa de desemprego nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE (em abril 2012 igual 6,0% e em abril 2013 igual 5,8%). Uma explicação possível é que a falta de capacitação técnica, que elevaria nossa baixa produtividade industrial, acaba sendo compensada com a contratação de mais pessoas e, também, o alto custo de demissão com a expectativa de alguma retomada, ainda encarecida com novos treinamentos.

Impunidade

No âmbito da impunidade, que não é um fato econômico, mas uma deficiência moral que contamina o ambiente de negócios, permanece sombrio o resultado da condenação do Supremo Tribunal Federal sobre a compra de votos de 2003 em diante, já que os condenados estão em plena campanha eleitoral, como se nada tivesse ocorrido.

Nossa opinião pública, de maioria silenciosa e alienada, é ainda adormecida pela fórmula pragmática de governar com o binômio Panis et Circences (pão e circo, o circo atualmente substituído pelo futebol, novela e samba). A preocupação do Planalto é que, com o baixo crescimento econômico e a inflação incômoda, a falta de pão pode ocorrer no dia da eleição, já que as diversões parecem garantidas.

Segundo o ex-diretor do Banco Central, Ilan Goldfajn, a chegada da Copa do Mundo pode trazer fluidos positivos ao colocar o Brasil na linha de frente dos noticiários fomentando exportações e o turismo externo, o que, se bem aproveitado, poderá reaquecer a economia. Não obstante, seria melhor dependermos de medidas corretas do governo no momento oportuno do que depender do balançar das redes de futebol.

 

 

 

Fontes:
Profit Projetos - A salvação pelas chuteiras

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