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EM BUSCA DE UM NOME

A seis meses para eleições, esquerda ainda busca consenso

Com Lula virtualmente fora do jogo, a esquerda está, por ora, sem um nome consensual para disputar a presidência nas eleições

A seis meses para eleições, esquerda ainda busca consenso
Oficialmente, o PT não aponta novos postulantes ao Planalto (Foto: Wikimedia)

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Há quem entenda que no dia 7 de abril, quando foi preso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, encerrou-se um ciclo histórico na política brasileira.

O retirante nordestino, líder do movimento operário que fez acuar a ditadura, fundador do maior partido do país e presidente que deixou o cargo com o melhor índice de aprovação já visto está virtualmente fora do jogo. A não ser que aconteça uma nova reviravolta – o que não pode ser descartado –, a esquerda está, por ora, sem um nome consensual para disputar a presidência da República nas eleições de outubro.

Desde a redemocratização, o campo progressista contou com ao menos um terço dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais. É exatamente o que Lula tem apresentado nas pesquisas eleitorais mais recentes, em que figura como líder isolado.

Sem o seu nome na urna, o número de votos brancos e nulos atinge patamares recordes, e o eleitor, órfão, ainda não definiu para onde rumar. Mais do que prejudicial apenas à esquerda, a ausência de Lula arrisca retirar parte da legitimidade de todo o processo eleitoral e, por consequência, do pacto democrático.

Mas, apesar das recentes e diversas derrotas – o impeachment de Dilma Rousseff e a própria prisão do líder petista -, o cenário eleitoral não é de todo desalentador para os partidos ditos progressistas.

Isso porque o governo Temer segue rejeitado pela maioria da população, e a direita está também dividida sobre quem será seu representante no pleito. Com a pulverização de candidaturas presidenciais, que já somam mais de uma dezena, persiste a dúvida sobre quem estará realmente no páreo da disputa.

O que parece certo no momento é que o deputado Jair Bolsonaro (PSL) não é apenas uma piada de mau gosto e deve se manter forte na corrida pelo 2º turno.

Frente à chance real de um segundo turno entre o representante da extrema-direita e algum nome agradável ao governismo – Alckmin, por exemplo -, quais possibilidades a esquerda apresenta para enfrentar tal cenário?

O nome de Lula na urna

Embora condenado em 2ª instância, podendo ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa e ter sua candidatura barrada pela Justiça, há ainda caminhos jurídicos que podem viabilizar o nome de Lula nas urnas.

Se parece insensatez a estratégia petista de manter o apoio ao seu principal líder, perdendo tempo na construção de outra candidatura, por outro lado a ideia se explica. Jogar a toalha poderia soar, agora, como uma aceitação da condenação pela Lava Jato, que o partido e seus simpatizantes consideram injusta.

Além disso, o ex-presidente alcançou, mesmo preso, 31% das intenções de voto na última pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha, número nada desprezível se considerarmos que o segundo lugar no levantamento – Jair Bolsonaro -, atingiu apenas 15% na preferência do eleitorado.

Michael Mohallem, professor de Direito da Fundação Getúlio Vargas, explicou em artigo publicado na revista Piauí em quais hipóteses a candidatura de Lula pode vingar na Justiça:

“Primeiro, a Justiça Eleitoral poderá aceitar o registro da candidatura de Lula e não aplicar a Lei da Ficha Limpa. Em segundo lugar, na Justiça comum, que julga os casos criminais, pode haver o acolhimento da exceção de inelegibilidade pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça. Por fim, na esfera constitucional, o Supremo poderá reverter a tese que permite a prisão após a segunda instância”.

Assim, se o caminho de Lula para ver seu nome nas urnas pela 6ª vez é tortuoso, não é impossível. Lideranças do PT insistem que o partido não tem plano B para outubro e deve bancar Lula até o último momento.

PT aposta em candidato próprio

Oficialmente, o PT não aponta novos postulantes ao Planalto, mas a chefia do partido já discute o que fazer caso a Justiça barre a candidatura de Lula. Em um cenário em que o Tribunal Superior Eleitoral impugne a candidatura, o PT poderá indicar outro candidato até um mês antes das eleições.

O nome mais cotado é o de Fernando Haddad, que foi ministro nas gestões petistas e prefeito de São Paulo. Contudo, ele enfrenta resistência dentro do próprio PT, onde há quem o considere inapto para negociações – um dos muitos fatores que levou, por exemplo, Dilma à derrocada. Por outro lado, vertentes do partido o veem com bons olhos por seu trânsito pacífico com políticos da centro-direita, como Fernando Henrique Cardoso e Alckmin. De toda forma, a possibilidade Haddad ainda não decolou, pontuando magros 2% na última pesquisa realizada pelo Datafolha.

Outro cogitado é Jacques Wagner. Ex-governador da Bahia e também ex-ministro de Lula e Dilma, Wagner conhece bem a máquina partidária e é renomado no Nordeste, dois de seus ativos na disputa. Contudo, as investigações da Lava Jato o têm implicado nos últimos meses e, tal qual Haddad, seu nome ainda não anima o eleitor: nada mais que 2% nas pesquisas mais recentes.

Celso Amorim, ex-chanceler de Lula, e Patrus Ananias, que foi prefeito de BH, também foram cotados como possibilidades, mas sequer tiveram seus nomes testados em pesquisas.

Mas seja quem for o candidato petista – se é que haverá algum -, será um candidato forte. O PT contará com R$ 200 milhões do fundo partidário, muito tempo nas propagandas eleitorais na TV e, apontam as pesquisas, o candidato ungido por Lula poderá herdar até 46% da fatia do eleitorado que pretende votar no ex-presidente.

Abertura para um novo nome

Outras possibilidades à esquerda têm surgido no cenário político. Entre aqueles que já anunciaram pré-candidatura, destacam-se Ciro Gomes (PDT), ex-ministro de Itamar e Lula, Manuela D´Ávila, deputada estadual pelo PCdoB, e Guilherme Boulos (PSOL), uma das lideranças do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

Os dois últimos participaram ativamente das manifestações contra o impeachment e são críticos ferrenhos da prisão de Lula. O ex-presidente, inclusive, conferiu protagonismo a eles no discurso em que realizou momentos antes de se entregar à Polícia Federal.

A possibilidade de um dos dois se firmar na disputa, no entanto, pelo menos por hora, parece remota. Isso porque, como destacou o professor da FGV Oliver Stuenkel, em entrevista ao periódico alemão Deutsche Welle, numa eleição majoritária em um país do porte do Brasil, duas coisas são fundamentais para quem quer brigar para vencer: forte estrutura partidária e muito, muito dinheiro.

E tanto o PCdoB de D´Ávila quanto o PSOL de Boulos contam com poucos deputados, apenas um governador e raros prefeitos. Sem palanque na maior parte das cidades brasileiras, saem atrás de candidatos com uma grande rede de apoiadores.

Quanto ao dinheiro, o PCdoB receberá R$ 30 milhões do fundo partidário, pouco se comparado às demais campanhas majoritárias. Já o PSOL será o destinatário de R$ 21 milhões. Assim, o vento só soprará a favor de um dos dois caso Lula resolva apoiá-los abertamente.

Outra possibilidade é o PT compor uma chapa com Ciro Gomes à frente. O pedetista é próximo de tucanos, petistas e tem um discurso econômico de oposição ao governo Temer. Ele também é bastante conhecido no nordeste e foi contra o impeachment.

Pesa contra Ciro, contudo, sua timidez ao criticar a prisão de Lula, criando resistência ao seu nome dentro do PT, e seu destempero em algumas falas públicas. Muitos eleitores de esquerda o tacham de machista e coronelista, por suas declarações em eleições passadas e pela tradição de poder de sua família no Ceará. A ver se um possível apoio de Lula será o bastante para convencer essa fatia do eleitorado.

Um outsider abre caminho

O desanimo geral dos eleitores com os políticos mais tradicionais tem deixado aberta uma via para que um “outsider” – alguém sem trajetória política prévia – se firme no cenário nacional. Personalidades à direita como Luciano Huck e João Doria foram testadas, mas não deram em nada. Agora, outro candidato se afigura: o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa.

Em sua primeira aparição na pesquisa da Datafolha após se filiar ao PSB – partido com grande capilaridade no Nordeste e que receberá R$ 118 milhões do fundo partidário – o ex-juiz surge já com quase 10% das intenções de voto. E nem em campanha ele está. Por enquanto.

A pesquisa também demonstra a tendência de Barbosa em “roubar” votos de Alckmin, Bolsonaro, Marina e Lula: ou seja, ele é chamativo para quase todas as parcelas do eleitorado. Fundindo a imagem do garoto negro e pobre que venceu na vida por mérito à imagem do juiz imbatível na luta contra a corrupção, Barbosa parece ter tudo para disputar, de fato, a cadeira presidencial.

Dentro do PSB, no entanto, muitos não sabem quais são as ideias do ex-ministro ou que postura ele adotaria se eleito. O PT, também, dificilmente o apoiará, dado seu papel fundamental na condenação de quadros do partido no julgamento do mensalão. Mas Marina Silva, líder da Rede, tem ensaiado uma aproximação com Barbosa, visando, talvez, uma composição de chapa. Embora o partido da ex-senadora seja pequeno, ela contou com 20 milhões de votos em 2014, um grande capital eleitoral.

Não se sabe, inclusive, se Joaquim Barbosa é candidato e, no caso de o ser, se é um candidato “de esquerda”. Mas, se alguém vencer as eleições de 2018 sem o apoio explícito do PT ou do PSDB, certamente um novo ciclo na política nacional terá início.

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5 Opiniões

  1. carlos alberto martins disse:

    o Brasil procura por um líder com postura firma de comando na autoridade que lhe é conferida,pelos poderes a si auferidos se eleito.terá a responsabilidade em domar um congresso corrupto e um senado idem, sem contar com a corrupção generalizada em todos os niveis funcionais do poder público.péço ao todo poderoso DEUS que lhe toda a coragem de tratar o Brasil com a dignidade que meréce.somos uma nação com grandes possibilidades de superação e sermos merecedores de maior amor a nóssa pátria.vamos lutar e torcer que tudo de cérto.

  2. Pedro Luiz Ramos de Oliveira disse:

    Este futuro Presidente {salvador da pátria} é ALVARO DIAS, seu Vice: Marco Feliciano.

  3. Pedro Luiz Ramos de Oliveira disse:

    Álvaro vai ao 2º Turno Presidencial pela competência e ser o mais limpo entre todos.

  4. Pedro Luiz Ramos de Oliveira disse:

    Álvaro acredita que partido de centro é melhor. E a nossa consciência também!

  5. Laércio disse:

    Melhor que procurar um nome para a esquerda deveriam todos eles mudarem-se para a Coréia do Norte, Cuba, ou quem sabe refundar a união soviética. Pessoalmente gostaria que Lula concorresse a eleição somente para ver a queda ser mais profunda.

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