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AMEAÇAS E ACUSAÇÕES

A tensa relação de Bolsonaro com a imprensa

Ataques à ‘Folha’, planos de extinguir a TV Brasil, acusações contra o site Congresso em Foco. Bolsonarismo promete ser uma época difícil para o exercício do jornalismo

A tensa relação de Bolsonaro com a imprensa
Ataque à imprensa é uma prática recorrente entre líderes populistas (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Declarações dadas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro indicam que o próximo governo não será uma época fácil para a imprensa.

Na última segunda-feira, 29, um dia após ser eleito presidente da República, Bolsonaro concedeu sua primeira entrevista a uma emissora de televisão. A escolhida para a estreia foi a Record TV, emissora do bispo Edir Macedo, da Universal do Reino de Deus (IURD), que apoiou a candidatura de Bolsonaro.

A Record vem despontando como possível “canal oficial” de Bolsonaro. Prova disso foi o fato do canal ser escolhido para exibir uma entrevista de Bolsonaro no mesmo dia e horário de um debate presidencial, ao qual Bolsonaro não compareceu, e ter sido escolhido para sua primeira entrevista como presidente eleito.

Extinção da TV Brasil

Em sua entrevista à Record, que durou cerca de 30 minutos, Bolsonaro listou alguns planos de seu governo. Um dos projetos anunciados é extinguir ou privatizar a TV Brasil, emissora pública considerada o carro-chefe da Empresa Brasil Comunicação (EBC).

“Nós não queremos a nossa propaganda em nossa TV oficial. A ideia nossa é privatizar ou extinguir. Não podemos gastar mais de 1 bilhão por ano com uma empresa que tem traço de audiência. Nós preferimos confiar na mídia tradicional quando o governo quiser fazer os seus anúncios que tem que fazer. Há certos programas que só podemos atingir com o apoio da grande mídia”, disse Bolsonaro.

A fala de Bolsonaro, no entanto, apresenta um equívoco em relação ao papel da TV Brasil. Isso porque a emissora não foi criada para ser a TV oficial do governo, papel que fica a encargo da TV Nacional do Brasil (NBR).

Fundada em dezembro de 2007, a empresa tinha como missão ser uma “BBC brasileira”: uma empresa de comunicação pública, voltada à formação do pensamento crítico do telespectador, sem influência comercial ou política. Esse tipo de emissora existe em várias democracias do mundo. Nos EUA, há a PBS; no Reino Unido, a BBC; na França, a France Télévisions; na Alemanha, a Deutsche Welle.

Porém, como já apontou o Opinião e Notícia, a distinção entre público e estatal nunca foi muito clara no Brasil, o que torna difícil distinguir uma emissora pública de uma emissora estatal. Essa confusão reflete no recente desmonte da EBC iniciado após o governo de Michel Temer extinguir o conselho curador da empresa.

Em uma emissora pública, além do conselho administrativo, composto por membros nomeados pelo governo, há também o conselho curador, que é formado por representantes da sociedade civil e responsável por dar o caráter público da empresa. Em 2016, por meio de uma medida provisória, Temer extinguiu o conselho curador da EBC, mas manteve os princípios da empresa. No entanto, outras medidas propostas ainda ameaçam a emissora. Um delas propõe que ela apenas passe a noticiar atos oficiais do governo, excluindo a cobertura jornalística em relação à sociedade ou protestos contra o governo. Se Bolsonaro for além de Temer e concretizar a extinção da TV Brasil, o país perderá uma importante emissora pública.

Ataques à Folha de S. Paulo

A TV Brasil não é o único veículo de comunicação na mira de Bolsonaro. O jornal Folha de S. Paulo também é alvo do presidente eleito. Bolsonaro acusa o veículo de noticiar fake news por conta de reportagens sobre ele.

Na segunda-feira, em sua segunda entrevista como presidente eleito, dada ao Jornal Nacional, da Rede Globo, Bolsonaro acusou a Folha de se comportar de “maneira indigna” e disse que, em sua gestão, o jornal não receberá recursos de publicidade oficial do governo. Numa época em que assinaturas caíram em desuso, tais recursos compõem uma das principais fontes de renda de jornais.

“Não quero que [a Folha] acabe. Mas, no que depender de mim, imprensa que se comportar dessa maneira indigna não terá recursos do governo federal. Por si só esse jornal se acabou”, disse Bolsonaro.

Dentre as reportagens do jornal classificadas como fake news por Bolsonaro, está a que denunciou o uso de verba da Câmara para pagar Walderice dos Santos da Conceição, que prestava serviços particulares a Bolsonaro em Angra dos Reis (RJ), onde ele tem casa de veraneio.

Desde 2003, Wal, como era chamada, figurava como funcionária do gabinete de Bolsonaro – então deputado federal – com um salário de R$ 1,3 mil. No entanto, ela não trabalhava em Brasília, nem no gabinete de Bolsonaro. Ela vendia açaí em uma barraca localizada ao lado da residência de Bolsonaro, no distrito de Mambucaba, em Angra. O marido de Wal, Edenilson, presta serviços de caseiro ao presidenciável. Após a reportagem, Wal pediu demissão do gabinete de Bolsonaro.

Outra reportagem da Folha atacada por Bolsonaro foi a que denunciou a compra de pacotes de envio de mensagens em massa por parte de empresários apoiadores de sua campanha presidencial. Segundo revelou o jornal, tais empresas desembolsaram milhões de reais com a compra dos pacotes para divulgar conteúdos contra seu adversário no pleito, Fernando Haddad (PT). A reportagem culminou na abertura de uma investigação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), uma vez que o pagamento de empresas por ações que beneficiem um candidato é proibido pela lei eleitoral.

Em entrevista ao Jornal Nacional, Bolsonaro desacreditou a reportagem. “Uma grande mentira, mais um fake news do jornal Folha de S. Paulo, lamentavelmente”, disse o presidente eleito.

Além da Folha e da TV Brasil, outro veículo atacado foi o site Congresso em Foco, este pelo filho de Bolsonaro, o deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ). Flávio acusou o site de receber verba do governo “para fazer militância política esquerdopata”. A acusação foi uma reação ao editorial “Bolsonaro é o pior que nos pode acontecer”, publicado pelo site em 26 de outubro. Na segunda-feira, o site decidiu abrir o sigilo comercial para provar que a acusação era falsa.

Prática comum entre populistas

Os ataques à imprensa e o corte de verba do governo a meios de comunicação são práticas recorrentes entre líderes populistas. Donald Trump não poupa ataques à imprensa americana e fez do Twitter seu principal canal de comunicação. A ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner vivia em pé de guerra com a imprensa, em especial com o Grupo Clarín.

Na Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan trava uma batalha contra imprensa que já resultou no fechamento de mais de 100 veículos de comunicação, na prisão de mais de 100 jornalistas, acusados de terrorismo ou de planejar golpe de Estado, e na proibição de coberturas sobre a guerra na Síria.

Na Venezuela, Nicolás Maduro fechou quase 70 veículos de comunicação somente em 2017, ano que também contou com 498 atos contra a liberdade de expressão e 66 detenções de jornalistas. Naquele ano, o presidente venezuelano também retirou do ar na Venezuela o sinal da emissora colombiana Caracol, acusada por ele de fazer uma “campanha terrível” contra seu governo.

Outro alvo de Maduro no ano passado foi a rede americana CNN, que teve o sinal retirado do ar na Venezuela, após uma reportagem que denunciou um esquema de passaportes falsos que envolvia membros do governo Maduro. “Alguns meios de comunicação como a CNN manipulam [notícias sobre o país]. CNN, não meta seu nariz na Venezuela. Quero a CNN bem longe daqui”, disse Maduro na época.

 

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9 Opiniões

  1. Bergson Melo disse:

    Vocês não conseguem decifrar a própria ignomínia. Fizeram de tudo para tirar o rapaz da disputa eleitoral. Há um bom tempo vocês deixaram de ser uma imprensa informativa para ser opinativa e criadora de perfis (fabricação de dossiês). Em nenhum momento vocês se identificaram com os interesses da população e do País. Diante de alguma possibilidade contrária, atacam um legítimo escolhido do povo, cujo missão delegada é passar a limpo o País e a imprensa não está de fora. Sabe-se que os senhores se protegem nos diversos órgãos representativos da classe, os quais se utilizam dos meios de comunicação para dizer que estão sendo atacados etc. Não são capazes de sentar à mesa com o novo presidente e buscar um entendimento. Não, pois o entendimento não serve pois não geram tantas notícias ruins, as quais são munições para outros e assim fazem opção pela anarquia. Nenhuma nação tem paz com uma imprensa desse tipo. O poder continua vindo povo e este sinalizou pra vocês o que quer. Vocês, ao que parece, não respeitarão o povo.

  2. Chuck Bartolovski disse:

    Tempos difíceis para o jornalismo = acabou a mamata estatal, só com qualidade sobreviverão.
    TV Brasil = menos de 0,5% de audiência, ralo de dinheiro público, inaugurada para empregar amigos dos governos anteriores. Será uma economia para o pivô brasileiro.
    A Folha nunca deixou de expressar seu apoio à esquerda. E se precisa de verbas estatais para sobreviver, não é um jornal e sim uma extensão da comunicação governamental.
    Bye bye para quem vai precisar suar para se sustentar, a teta acabou para quem se acomodou no jornalismo para agradar os patrocinadores

  3. Fernando Romeiro disse:

    A matéria é parcialmente correta. Concordo com a mesma quando relata que o presidente eleito desconhece a Constituição Federal (sobretudo no que tange o Capítulo V, sobre a Comunicação Social). De fato há uma diferenciação entre as comunicações pública, governamental e comercial. A fala de Bolsonaro é equivocada em relação à EBC, porque a mesma trata-se de uma empresa de comunicação pública. Esta, por sua vez, possui a função de trazer informação e entretenimento de maneira independente. Pautando-se essencialmente nos interesses da sociedade, além de ser um contraponto comunicacional em relação aos veículos governamentais e comerciais de comunicação. Bolsonaro, por desconhecimento, não percebe que pode fomentar uma estrutura de comunicação pública independente que pode vir, inclusive pautar questões relacionadas com a sua gestão. Dando assim publicidade aos seus atos governamentais.

    Outro fato que a matéria deveria relatar é a infiltração de partidários de esquerda na EBC, o que tornou a empresa durante boa parte dos governos Lula e Dilma um órgão voltado para temáticas absolutamente voltadas para as ações do governo. Nesse aspecto, o futuro presidente está correto.

    Sobre a questão do erro relacionado com a declaração de Bolsonaro, vocês (enquanto veículo de comunicação) precisam contestá-lo baseado no seu próprio discurso. Ou seja, o mesmo declara-se um constitucionalista. Desconstruir a estrutura da Comunicação Pública no país não seria um afronta à base constitucional? Não percebi em nenhum momento esse questionamento na matéria em questão.

    O matéria perde-se quando afirma que a gestão do presidente eleito promete ser difícil com a mídia. Baseado em quê? Na abertura dada pela rede Record? Nesse aspectos posso até concordar, que declarou-se favorável a sua candidatura? Mas relação à Folha de São Paulo não. Porque este veículo portou-se irresponsavelmente ao publicar matéria trazendo “supostas” provas. Um leitor, minimamente crítico, perceberia o erro de construção da argumentação central da matéria. O que caracteriza irresponsabilidade jornalística. Para não se adjetivar de outra maneira.

    A matéria é de uma parcialidade bastante visível, porque vai em defesa de um veículo que cometeu erros lamentáveis e desinformou em vez de fazer o contrário. Reclama em relação ao fato do presidente eleito dizer que irá cortar verbas governamentais relacionadas com publicidade governamental, o que não me parece nada irresponsável, considerando o fato dessa prática iniciar-se com o PT em disponibilizar altas quantias para veículos de comunicação em troca da defesa das gestões. A matéria deveria esclarecer esta questão. Já que entrou na temática de publicidade paga.

    Por fim, você traçam relações diretas entre Bolsonaro e governos (segundo a matéria “populistas”) de Cristina Kirchner, Maduro, Recep Tayyip Erdogan e Donald Trump como se fizessem parte de governos populistas?!? Creio ser mais uma desinformação trazida pela matéria.

    O jornalismo, neste país, está contaminado pelo deletério pensamento marxista. É preciso fazer uma autocrítica (por parte de boa parte da classe jornalística).

  4. jayme endebo disse:

    Ataque à Folha? e os ataques que a Folha fez? plantando noticias mentirosas para desmoralizar ele na disputa, isso é legal? é moral? esse papo de liberdade de expressão só funciona para jornalista irresponsáveis e fanáticos? o Bolsonaro tem legitimidade de milhões de brasileiros para quebrar e destruir essa mídia corrupta e desonesta, apoiamos isso, gostem ou não. Toda ação tem a sua reação e se a imprensa quer liberdade que seja responsável, ela não tem direito de destruir a vida das pessoas. Alguns anos atrás conseguiram destruir a vida de um casal que tinha uma escola (Escola Base) e nada foi provado mas esse casal perdeu a escola, muito dinheiro e ficaram doentes e o que a imprensa fez? sequer pediu desculpa ou indenizou esse casal.Agora que a eleição acabou por que a Folha não pediu desculpa ao Bolsonaro pela noticia mentirosa e sem provas? Está na hora de se mudar tudo isso.

  5. ACM disse:

    Nao e’ de hoje q a Folha e’ dominada pelo PT.
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    Eu era assinante da Folha, junto com o Estadao e o Valor, para poder comparar as noticias. Sempre notei um desvio `a esquerda e truncamento de noticias na Folha, pois sempre pude comparar as noticias, incluindo Reuters.com e Le Monde (a fonte de muitas noticias por aqui), como faço ate hoje.
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    A gota d’agua se deu quando Collor foi eleito. Numa 2a feira, logo apos a eleicao que o elegeu, a Folha publicou em manchete “Lula eleito presidente”, uma famosa “barriga” (fake news). Nessa semana, cancelei de vez a assinatura da Folha.
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    Posteriormente, a Folha me ligou varias vezes para que eu refizesse a assinatura. Eu disse que nao, mas ela procurou me convencer, dizendo: “Vc cancelou so por causa de um erro?”, ao q eu respondi “Nao se trata de um erro, mas de uma filosofia do jornal”. De fato, uma tese de doutoramento de Gisela Taschner, da FGV, sobre a Folha, tinha por titulo “Folhas ao Vento” (1992).
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    Mas o Estadao tb forneceu uma “fake news” num sabado (ou domingo), logo antes da eleicao de Trump. Como (quase) toda a imprensa mundial ja estava noticiando, o Estadao tb publicou em manchete “Hillary tem 90% de chance de ser eleita”. Mas eu ja sabia q isso era uma fake news, haja vista as newsletters q recebo diariamente da MoneyMorning.com, q ja dizia q os investidores sabiam q Trump seria eleito.
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    Afinal, os investidores, por dever de oficio, sao a classe mais bem informada que existe. Nao e’ sem razao q o Hedge Fund BlackRock administra mais de US$ 6 Trilhoes e, com isso, tanto pode fazer um pais avancar, como retroceder (como a falida Venezuela socialista, q hoje a Russia tenta salvar). O PIB do Brasil e’ um terço desse valor, e seu PIB per capita, de 1900 a 2010, sempre foi o ultimo do continente americano, exceto no periodo 1970-1990, quando passou para o penultimo lugar).
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    Hoje continuo com as fontes citadas (exceto Folha), alem de Veja, Scientific American, The Economist e O&N. E tb noto a diferenca entre o jornalismo de primeiro e terceiro mundo.
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    Bolsonaro e Trump tem toda a razao ao desconfiar da midia mainstream e usar o Twitter.
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  6. Luís Inocêncio disse:

    Se isso não é ditadura eu não sei mais o que é. Combate fantasmas que só existem em suas cabeças, distorcem os fatos, recusam verdades e agora reprimem veículos de informação. Quando começarem a sumir jornalistas e estudantes ainda vai ter gente falando que só parece ditadura, mas é pro nosso bem. Estão todos cegos enquanto quem ri da nossa cara é o palhaço das redes sociais.

  7. carlos alberto martins disse:

    estamos saindo de uma ditadura-democrática-socialista,cujos membros palacianos pensaram ser deuses.temos um lider que conquistou o Brasil com a força do povo que trabalha e éra roubado.a Bolsonaro:os cães podem latir,mais a caravana vai passar e,se Deus nos ajudar teremos um futuro brilhante.aos fanáticos opositores,vale lembrar que a verdade sempre triunfará.

  8. Almanakut Brasil disse:

    A imprensa pilantra, mau-caráter e parasita já foi detectada pelo povo que paga a conta da ladroagem e da mamata e aos poucos será extinta!

    E quem patrocina também irá privada abaixo!

  9. Gerhard Erich Bœhme disse:

    Bolsonaro acerta. Com a esquerda no poder só não foi criado o Ministério da Propaganda porque seria mais uma incrível semelhança entre os dois “partidos dos trabaladores”. Mas de fato isso foi feito. Os recursos públicos, ou melhor, do contribuinte, foram muito maiores que de muitos ministérios somados.

    O nosso principal problema não é debatido há mais de duas décadas. Trata-se da discriminação espacial, que são os múltiplos mecanismos com os quais parcelas cada vez maiores da população são empurradas para espaços segregados, onde se inclui inclusive os condomínios de luxo. A qualidade de vida em termos de habitação e “com-vivio” dos brasileiros É cada vez pior, sem contar que a discriminação espacial é a principal incubadora da violência. Aí eu me pergunto: qual a contribuição da mídia na mudança da sociedade para melhor?

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