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DIA MUNDIAL DO REFUGIADO

Acolhimento: uma questão de humanidade

Conheça o trabalho de quatro instituições que se dedicam a acolher e orientar refugiados que chegam ao Brasil fugindo de conflitos e perseguições

Acolhimento: uma questão de humanidade
Somente no ano passado, 65,6 milhões de pessoas foram forçadas deixar suas casas (Foto: Fran Oliveira)

Na última terça-feira, 20, celebrou-se o Dia Mundial do Refugiado. A data foi instituída em 2001, pela Organização das Nações Unidas (ONU), e tem como objetivo chamar atenção para o sofrimento de milhões de pessoas que foram forçadas a deixar seus países de origens por conta de conflitos, guerras e perseguições.

Segundo o mais recente relatório da ONU, divulgado na última segunda-feira, 19, somente no ano passado, 65,6 milhões de pessoas foram forçadas deixar suas casas por conta de conflitos e perseguições. Trata-se da maior crise humanitária enfrentada pelo mundo desde a fundação da ONU, em 1945.

Para chamar atenção para a questão, bem como prestar homenagem à força, coragem e capacidade de resistência dos refugiados, o Opinião e Notícia apresenta o trabalho de quatro organizações que se dedicam a apoiar refugiados e imigrantes que chegam ao Brasil, com serviços de acolhimento, orientação judicial e qualificação profissional.

Foto: Fran Oliveira

Foto: Fran Oliveira

Organização dos Haitianos que Vivem no Brasil

Após o terremoto de 2010, muitos haitianos começaram a migrar para o Brasil. Um deles foi Martineau Cherubin, no Brasil há quase quatro anos. Martineau conta que a escolha do Brasil, geralmente, se dá pela identificação que muitos sentem com a cultura brasileira e a paixão pelo futebol. “Alguns vêm por curiosidade, por causa da cultura de vocês. Todo mundo sabe que o Brasil tem uma cultura maravilhosa, especialmente na parte de futebol. Alguns haitianos vêm achando que vão ver o Pelé, o Ronaldinho. Na verdade, temos muitos pontos em comum. Por exemplo, o brasileiro é um povo acolhedor, muito alegre. Isso é algo que faz parte da nossa cultura também”.

Logo que chegou ao Brasil, Martineau percebeu a dificuldade seus conterrâneos em se inserir na sociedade. “Por causa do português, que não falam, e das leis trabalhistas, que eles não conhecem muito bem, eles têm muita dificuldade para retirar os documentos, especialmente aqueles que entram aqui ilegalmente”, diz Martineau.

Fran Oliveira

Foto: Fran Oliveira

Diante disso, ele resolveu agir e fundou a Organização dos Haitianos que Vivem no Brasil (OHVB), uma Ong com sede na cidade de Santos, em São Paulo, que se mantém por doações e trabalho voluntário e presta serviços de assistência jurídica, social e educacional. “Eu vi que alguém precisava dar um apoio a eles, para explicar os direitos que eles têm e para que eles saibam onde começam os seus direitos e também seus deveres”.

A OHVB também se dedica a impedir que haitianos que chegam ao país sejam explorados. Martineau alerta que tal prática se tornou comum por parte de algumas empresas que exploram imigrantes e refugiados como mão de obra barata. “Há algumas empresas que estão explorando eles por não saberem as leis trabalhistas. Eles contratam o haitiano por quê? Porque ele vai trabalhar mais, não vai reclamar de nada, não tem problema em trabalhar 10 horas por dia, receber menos de um salário mínimo. Porque sabem que eles estão em estado de necessidade”, diz Martineau.

Tal situação foi relatada foi relatada à OHVB por muitos haitianos, o que levou a organização a solicitar uma reunião com o Secretaria de Direitos Humanos de São Paulo para relatar o problema. “Na reunião, a gente combinou que seria montada uma comissão para estudar uma estratégia e descobrir as empresas que estão fazendo isso. Infelizmente, não tenho continuação desse projeto, mas o secretário falou para encaminhar para eles qualquer um imigrante que informe nossa Ong ter passado por isso. Já houve mais ou menos dez encaminhados”.

O trabalho da OHVB não se limita aos haitianos. Hoje, a organização atende refugiados de todas as nacionalidades e também brasileiros em situação de rua ou moradores de comunidades carentes.

Satisfeito com o trabalho que desempenha, Martineau não pensa em deixar o Brasil. “Voltar para o Haiti só para passear. Eu gosto do Brasil, me sinto bem aqui. Tanto que minha família escolheu os EUA para viver, e eu escolhi o Brasil. Me senti acolhido no Brasil”.

Foto: adus.org

Foto: adus.org

Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado 

O Adus surgiu no começo de 2010, criado por três amigos: Marcelo Haydu, Victor Mellão e Andrea Piccini.

Em entrevista ao O&N, Marcelo conta que tudo começou quando ele cursava relações internacionais na faculdade, em 2005. Foi nessa época que ele teve contato com refugiados, especialmente angolanos, congoleses e colombianos. “Me envolvi com as pessoas, com a causa e comecei isoladamente a ajudar algumas pessoas a tentar conseguir emprego, ir a consultas médicas”, diz Marcelo.

Nos anos seguintes, o trabalho cresceu e ele convidou dois amigos, Victor e Andrea, para ajudar a dar conta da demanda. Victor era um colega seu de graduação, e  Andrea, um italiano que mora no Brasil há muitos anos e tem muita experiência com comunidades do Oriente Médio. “Eles toparam e de dezembro de 2009 a outubro de 2010 a gente se reuniu com outras organizações, com muitos refugiados, para ouvir deles o que eles achavam que uma instituição poderia fazer para mudar, mesmo que minimamente, a realidade deles aqui”.

Assim nasceu a Adus, nome que provém do latim e significa “afeto”, “caminho”, “entrada”. “A palavra sintetiza bem aquilo que a gente busca para essas pessoas”, diz Marcelo. O instituto tem sede na cidade de São Paulo.

O trabalho da Adus é feito com base no voluntariado, mas também recebe apoio de empresas. “Temos duas empresas que financiam dois projetos – o Instituto Samuel Klein, que são os donos das Casas Bahia; e o Instituto Cyrela, que é uma construtora”.

Foto: adus.org

Foto: adus.org

Hoje, a instituição presta aos refugiados serviços de integração e qualificação profissional, inserção no mercado de trabalho, apoio psicológico e ações culturais. Além de receber aulas de português, eles são qualificados para atuar como professores e dar aulas de seus idiomas nativos.

Há também um projeto chamado “Sabores e Lembranças”. “Começou com um workshop de gastronomia, com os refugiados ensinando pratos típicos de seus países a brasileiros. Agora, a gente está estendendo o projeto para o serviço de catering, onde os refugiados são contratados para ir às casas das pessoas para fazer um almoço, um jantar. Qualquer pessoa pode contratar e é uma forma de geração de renda tanto para os refugiados quanto para a instituição”, explica Marcelo.

Para Marcelo, o acolhimento do refugiado é uma obrigação legal e moral do Brasil. “O Brasil é signatário das principais convenções do mundo que lidam com a questão do refúgio. Além disso, é um país formado por imigrantes que chegaram em outros momentos. Não conheço nenhuma pessoa no país que não tenha em seu DNA raízes de algum país europeu, asiático, africano. E tem a questão de humanidade. São pessoas que estão vindo para cá para pouparem suas vidas, o refúgio é uma migração forçada. Essas pessoas não estão vindo aqui a passeio, não queriam estar no Brasil. Gostariam de estar em seus países de origem, de continuar sendo um médico na Síria, um administrador no Congo, um físico na Palestina. Mas, por conta do conflito, da guerra e da perseguição, essas pessoas tiveram que migrar”, diz Marcelo.

Foto: Divulgação Cáritas RJ

Foto: Divulgação Cáritas RJ

Cáritas-RJ

Referência carioca no acolhimento ao refugiado, a Cáritas-RJ desenvolve projetos em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) e o Ministério da Justiça. Segundo Débora Alves, coordenadora do serviço social da instituição, o trabalho se dá em três pilares.

“Há o acolhimento, que é identificar a principais necessidades dessas pessoas quando elas chegam e buscar respostas para essas necessidades; a proteção legal, que é acompanhar e orientar sobre o processo de solicitação de refúgios e obtenção de documentação; e, por fim, o processo de integração local, que é pensar e traçar junto com eles estratégias de integração, pensando, principalmente, no acesso deles aos direitos que têm como solicitantes de refúgio no Brasil. A gente tenta fazer essa mediação entre os refugiados e políticas públicas de educação, saúde, trabalho, moradia, assistência social”.

Foto: Divulgação Cáritas RJ

Projeto Refugiados nas Escolas (Foto: Divulgação Cáritas RJ)

Débora conta que o primeiro passo da instituição é sanar as necessidades mais urgentes do refugiado, como moradia e alimentação. Em seguida, vem o acesso ao mercado de trabalho. “É uma grande dificuldade porque, embora eles tenham direitos de acesso ao trabalho pela lei, existe o preconceito das empresas e das pessoas de modo geral sobre o refugiado. Muita gente acha que refugiado é foragido, que cometeu algum crime, que é terrorista”.

Para auxiliar o refugiado a se inserir na sociedade, a Cáritas oferece cursos de português, ministrados por professores voluntários. “Os professores são voluntários treinados pela Cáritas e usam material desenvolvido em parceria com a UERJ, que é específico para ensinar português para os refugiados. É uma didática bem prática”.

Uma vez inseridos na sociedade e com o domínio do idioma, muitos refugiados passam a contribuir para o trabalho da instituição. Alguns, ministrando palestras em escolas, na qual contam suas próprias experiências.

Débora ressalta que a inclusão do refugiado é benéfica para todos. “Basta pensar na troca de culturas, no enriquecimento cultural. O Brasil é composto por essa variedade cultural, nosso povo é constituído dessa mistura. Se pensarmos na experiência de pessoas que passaram por situações complicadas, têm um valor diferenciado da vida e recomeçaram do zero, realmente é enriquecedor não só para as empresas que contratam, mas para os colegas de trabalho e vizinhos do bairro”, explica Débora.

Foto: Divulgação Abraço Cultural

Foto: Divulgação Abraço Cultural

Abraço Cultural

A organização Abraço Cultural surgiu do projeto Atados, que em 2014 promoveu a Copa do Mundo dos Refugiados. Segundo Roberta Souza, coordenadora de comunicação da organização, o projeto despertou nos voluntários envolvidos o desejo de fazer algo duradouro, que pudesse ajudar os refugiados com o que eles mais precisam para se estabelecer dignamente no país: emprego e renda.

“Assim, em julho de 2015, aconteceram as turmas pilotos do Abraço Cultural, em São Paulo. Em março de 2016, o projeto se expandiu para o Rio de Janeiro. O Abraço se mantém financeiramente através dos nossos alunos. Oferecemos cursos de idioma ministrados por refugiados capacitados para dar aulas de línguas e cultura. Não recebemos nenhum tipo de apoio financeiro”, explica Roberta.

Foto: Divulgação Abraço Cultural

Foto: Divulgação Abraço Cultural

Além das aulas, os alunos participam mensalmente das chamadas das “Aulas Culturais”, que são aulas especiais dedicadas à cultura de uma região, país ou com tema específico. “Em cada aula cultural, abrimos espaço para refugiados que não ministram aulas no Abraço para venderem comidas, bebidas ou artesanato de seus países de origem. Além disso, também temos um projeto de promoção de workshops nos quais os refugiados ensinam pratos da culinária típica seu país, ensinam a pintar e desenhar”, diz Roberta.

Ao serem remunerados e valorizados, os refugiados podem colocar em prática seus projetos pessoais, como estudar, validar seus diplomas no Brasil e também trabalhar em outras áreas que têm interesse.

Segundo Roberta há muitos benefícios na inclusão dos refugiados. “Eles têm muito a oferecer, têm uma bagagem cultural riquíssima, propiciando um espaço para trocas e ajudando a quebrar barreiras culturais. São pessoas que vieram em busca de paz e para contribuir com o país, querem trabalhar e gerar renda também”.

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1 Opinião

  1. Josué Paçanha disse:

    Faltou falar do trabalho desenvolvido pelo IMDH nessa missão tão importante de acolher os imigrantes e refugiados.

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