Início » Brasil » Acre lidera novo boom da borracha
Seringais da Amazônia

Acre lidera novo boom da borracha

O estado do Acre é pioneiro em uma abordagem de desenvolvimento que busca tirar o máximo proveito da floresta sem destruí-la

Acre lidera novo boom da borracha
Famílias que extraem e curam o látex das seringueiras no Acre lideram um novo boom da borracha (Reprodução/Internet)

O primeiro boom da borracha no Brasil, desencadeado pela invenção do carro, terminou abruptamente com o bem-sucedido cultivo de seringais na Ásia. O segundo, como fornecedor de borracha para os aliados da Segunda Guerra Mundial depois que o Japão cortou as suas fontes de borracha, mal durou até o fim da guerra. Ambas as ocasiões enriqueceram os proprietários dos seringais na Amazônia, às custas do trabalho escravo de famílias de seringueiros que curavam o látex. Agora, em regiões mais remotas da Amazônia, a borracha está ensaiando um tênue retorno. E desta vez, são os seringueiros que estão tentando escrever o roteiro.

O assassinato de Chico Mendes em 1988, o homem que liderou a luta dos seringueiros contra os madeireiros e pecuaristas na região, selou uma aliança entre seringueiros e ambientalistas. A morte de Mendes nas mãos de fazendeiros também plantou as sementes de mudança no Acre, estado natal de Mendes, governado desde 1999 pelo autoproclamado “governo da floresta”, como é conhecida a administração estadual. O governo do estado ajudou extrativistas a formar cooperativas e diversificar as culturas tradicionais da borracha e da castanha em busca de novos mercados.

O objetivo, segundo Tião Viana, governador do estado, é fazer com que a floresta seja mais valiosa do que a exploração madeireira e pecuária, de modo que o Acre possa proteger árvores sem sacrificar o desenvolvimento. Desde 1999, o estado foi mapeado e zoneado, com grande parte de sua floresta protegida em parques ou reservas indígenas e extrativistas. Alguns, principalmente os pequenos agricultores, ainda desmatam ilegalmente. Mas as regras, de um modo geral, têm sido respeitadas. Algumas áreas desmatadas serão replantadas, outras podem ser utilizadas para a agricultura de baixo impacto, e outras ainda serão exploradas por indústrias sustentáveis que comercializam produtos florestais. “Nós não precisamos desmatar mais”, declara Viana. “Mas não precisamos ter medo de usar o que já foi liberado para o desenvolvimento”.

Desenvolvimento e a sustentabilidade de mãos dadas

Em Xapuri, cidade natal de Mendes, uma fábrica que leva seu nome comercializa nozes selvagens. Ela é dirigida pela cooperativa Cooperacre, com mais de 2 mil pequenos produtores. Perto dali, a Natex, a única fábrica de preservativos do mundo que utiliza látex de seringais selvagens, compra sua matéria-prima de 700 famílias de seringueiros. A Natex paga um pouco mais do que o valor de mercado, e o governo do estado acrescenta um subsídio em reconhecimento do papel destas famílias na proteção da floresta. O governo federal compra toda a produção da fábrica de 100 milhões de preservativos por ano como parte de seu programa nacional de combate à Aids.

O Seringal Veneza, uma reserva de seringeiros perto de Feijó, na região central do Acre, é muito distante da Natex para servir como seu fornecedor. Mas um grupo de 32 famílias que moram ali está usando técnicas desenvolvidas na Universidade de Brasília para processar o latex in loco. As folhas de borracha resultantes são mais fáceis de armazenar e transportar, e podem ser vendidas por um preço muito mais alto. A Veja, uma empresa de calçados francesa, é uma de suas clientes, e Flávia Amadeu, uma designer do Rio de Janeiro, está ensinando os seringueiros a tingir e dar textura às folhas para que sejam transformadas em joias.

Estradas de dois gumes

Novas estradas levam moradores rurais aos postos de saúde e escolas, além de produtos para o mercado extrativista. Mas elas também facilitam a chegada das motosserras. Viana está abrindo o último trecho da estrada que liga o Acre ao resto do Brasil, ao mesmo tempo que tenta limitar o seu impacto prejudicial sobre a floresta. Perto de Feijó, parcelas de terras cultivadas agem como uma barreira entre a estrada e terra virgem: em 2000, o estado concedeu 4,5 hectares de pastagens degradadas ao longo da estrada para agricultores familiares da região. Aqueles que as reflorestaram e evitaram o uso do fogo para desmatar receberam sementes, treinamento, ajuda para encontrar compradores e um subsídio de R$500 por ano.

Há mais de uma década, a taxa de crescimento econômico do Acre supera a média brasileira. As escolas e serviços de saúde do estado têm melhorado, e a pobreza e o analfabetismo caído muito mais rápido do que a media nacional também. Entretanto, intensificar e ampliar as políticas sob medida do estado para possibilitar o desenvolvimento sustentável de toda a região da Amazônia seria difícil, assim como custoso. O Acre é pequeno, representando apenas 3,5% da Amazônia (embora ainda seja maior que a Inglaterra). E apenas uma parte pequena do estado está dentro do “arco do desmatamento”:  a fronteira entre fazendas existentes e a floresta, onde a agricultura de corte-e-queima tende a ocorrer com mais frequência. Isso facilitou a resolução de disputas de terra no estado e o cumprimento de leis de zoneamento. Talvez a lição mais importante do Acre para outros estados da região seja simplesmente que as políticas ambientalistas podem ser desenvolvimentistas também.

 

Fontes:
The Economist - The New Rubber Boomlet

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

3 Opiniões

  1. Áureo Ramos de Souza disse:

    Com toda sinceridade fico com os olhos lacrimejando lendo uma reportagem desta; Lembro muito bem da luta de Chico Mendes e hoje ler que existe uma industria com seu nome é maravilhoso e espero que a citada não se esqueça dos familiares de Chico Mendes. Eu dei minha opinião esta semana digitando e referindo-me a uma musica que futucando devagar vamos chegar lá e tiraremos os corruptos e e nossas florestas e reservas florestais irão ser preservada, o que queremos é de brasileiros e homens honestos como é o caso destas industrias que ensinam aos seringueiros novas técnicas e o Senhor Tião Viana merece nossos aplusos

  2. Felix disse:

    Infelizmente, foi preciso Chico Mendes morrer para que sua mensagem fosse entendida! Imagine-mos como Chico Mendes estaria feliz, se estivesse vivo, vendo todos seus planos tornarem-se realidade! Talvez, as oligarquias, tenham preferido ter Chico morto, como padrinho desses ações hoje direcionadas às famílias residentes nas florestas acreanas, do que, tê -lo, vivo, cobrando, mais ações e mais políticas sociais em prol dessa gente! Triste, mais, ainda não o Brasil que queremos!

  3. Roberto Santiago disse:

    O Acre… ou “O Brasil que o Brasil não queria!”

    A rica história do Acre é uma ode ao heroísmo do “povo da floresta”, o povo amazônico! E o amor à Pátria Brasileira aflora magistralmente na alma do povo acreano.
    O Estado do Acre, um dos mais bonitos adornos da Amazônia, mesmo estigmatizado com o epíteto “O Brasil que o Brasil não queria” superou os obstáculos, venceu os invasores e se amalgamou como exemplo de amor à nossa soberania. Visitar o Acre é, sem dúvida, vivenciar essa história de glórias.

    O Acre teve um honroso passado e é berço de grandes expoentes de civismo, da cultura e das ciências médicas, e que hoje orgulham o nosso Brasil. Como exemplos, podem ser citados Jarbas Gonçalves Passarinho, “Chico” Mendes, Jorge Hadad, Adib Jatene, etc. Todos, coincidentemente, nascidos na cidade de Xapuri ( ou, “A Princesinha do Acre”).

    Durante os chamados “Ciclos da Borracha” o Acre atraiu muitos compatriotas, que arriscavam a própria vida na intenção de encontrar a riqueza fácil que os milhares de árvores da “hevea brasiliensis” (a seringueira) poderiam proporcionar, e das quais o Acre ainda continua rico. Perpetuaram-se na nossa história como os “Soldados da Borracha”, e deixaram plantada naquela terra, ao mesmo tempo hostil e dadivosa, a sua semente, os seus descendentes, os nossos heróicos irmãos acreanos. Só isto já faz do Acre um celeiro da história contemporânea do Brasil.

    A cidade de Rio Branco é a capital do Estado do Acre. Situa-se às margens do rio Acre e é a maior e mais populosa cidade do Estado. Rio Branco e Xapuri são as mais antigas cidades do Estado do Acre. Conta a história que, em 188, ao pé de uma já imponente árvore (e que ainda hoje existe), chamada “Gameleira”, o desbravador nordestino Neutel Maia construiu um acampamento e lá fundou o “Seringal Volta da Empreza”, que deu inicio a um povoado também chamado de “Volta da Empreza” ou de “Porto Acre”, o qual logo se tornou mais desenvolvido que os demais povoados, pois nele se construíram vários comércios e porto para atender o abastecimento das inúmeras embarcações a vapor que navegavam no rio Acre transportando o então chamado “ouro negro”, a borracha “in natura”.

    Hoje a secular “Gameleira” ainda está em pé, com mais de 2,5m de diâmetro no tronco e 30 m de altura. Esta árvore foi “testemunha” de duas batalhas da sangrenta “Revolução Acreana”, chefiada pelo gaúcho José Plácido de Castro.

    No povoado de “Porto Acre” travaram-se violentos combates entre o bem armado exército boliviano que invadiu e tentou expulsar os nossos compatriotas e apoderar-se da região à força e os heróicos revolucionários acreanos que, apenas com poucas espingardas de caça e facões, defenderam com bravura e inigualável patriotismo as terras brasileiras da região e assim venceram a mais numerosa tropa boliviana, tornando o Acre parte do Brasil com a assinatura do “Tratado de Petrópolis” pelo Barão do Rio Branco, criando o antigo “Território do Acre” (hoje Estado do Acre) e mudando a denominação do povoado de “Volta da Empreza” (ou “Porto Acre”) para “Villa Rio Branco” que, ao afirmar-se como o mais próspero centro urbano do chamado “Vale do ‘Acre’”, transformou-se na atual cidade de Rio Branco.

    A cidade de Rio Branco disputa em hospitalidade, beleza e simpatia dos seus habitantes com os demais municípios acreanos, principalmente com Xapurí, outra importante e histórica cidade acreana, distante 188 km de Rio Branco, e que também foi palco da sangrenta revolução que uniu o Acre ao resto do Brasil.

    Xapuri também vivenciou os mais recentes episódios da epopéia do seringueiro “Chico” Mendes, que foi assassinado em 1988, pela sua luta em prol da preservação da floresta contra os madeireiros que intentavam destruir a mata para retirada indiscriminada de madeiras nobres.

    Atualmente os valorosos acreanos buscam no acesso ao mercado internacional outras vertentes para o desenvolvimento do seu Estado. Não tenho dúvidas que conseguirão, e o turismo sustentado será uma delas. Neste enfoque o Acre também está bem servido, pois tem o que o turista busca encontrar em qualquer roteiro que faça: tem uma bela história épica associada à uma riquíssima cultura e à uma culinária exótica e excelente. Tem floresta quase intocada e também lindas praias de águas cristalinas, que retratam a natureza amazônica em todo o seu esplendor, e que podem abrigar o ecoturismo, hoje “em alta” no mundo.Também a exploração racional das nobres e abundantes madeiras da floresta acreana poderá ser viável. Outra poderá ser o gás e o petróleo leve, que repousa intocado no subsolo acreano esperando que o “companheiro” Evo Morales, que também sabe da sua existência, intente vir explorá-lo caso os brasileiros, de todos os Estados da Federação, “fechem os olhos” ao seu já comprovado atrevimento frente à “flacidez” dos nossos últimos governantes. Talvez a história se repita!!! Só depende do “companheiro” Evo!!!

    Acooordaaa Braaasiiilll!!!

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *