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a missão de Levy

Adão, Eva e o primeiro economista

Digamos que, logo depois de instalar Adão e Eva no Paraíso, Deus teria criado o Primeiro Economista. Este olhou em torno e viu que estava tudo por fazer

Adão, Eva e o primeiro economista
Joaquim Levy precisa respeitar a aritmética e orientar a presidente para o país voltar a crescer (Reprodução/Internet)

Alguns filósofos estabeleceram um princípio simples para entender a diferença entre o Bem e o Mal. “Fazer o bem” poderia ser definido pelos atos do indivíduo em ocupar-se com o outro, seu semelhante, e a coletividade, em sentido amplo. Já o Mal seria caracterizado por voltar-se exclusivamente a si próprio, desprezando o desejo do outro.

Desta forma, poderíamos apressadamente discriminar como diagrama paralelo as duas grandes divisões de pensamento político e econômico, aquela ligada ao Socialismo, que implicaria em fazer o Bem aos outros pela distribuição uniforme de riquezas, mas geralmente associado a um regime totalitário, sem liberdades individuais, e a Democracia combinada com a livre iniciativa pessoal e empresarial e de pensamento (ou regime capitalista, designação que já denota um juízo de valor). A definição quanto ao direito de propriedade dos bens de produção (terra, tecnologia, trabalho e capital) seria coletiva, no primeiro caso ou individual, na segunda opção.

O que têm a ver esses conceitos com a conjuntura política e econômica do Brasil? No momento em que o economista que assume o Ministério da Fazenda vem sendo parcialmente rejeitado pela opinião pública por ser ortodoxo, retorna-se à pergunta se a Aritmética pode ou não ter uma conotação ideológica. Os temas atuais são tão dramáticos, pela enorme desordem econômica e alvoroço pela corrupção sistêmica nas empresas estatais, que nos remetem a algumas imagens bíblicas.

Digamos que, logo depois de instalar Adão e Eva no Paraíso, Deus teria criado o Primeiro Economista. Este olhou em torno e viu que estava tudo por fazer, de modo que abrindo uma planilha Excel no seu notebook, começou a simular um sistema econômico que ordenasse a presente e futura administração dos bens e serviços públicos. Assim, tentou equacionar o que seriam as receitas e despesas da administração pública, e como observou que as necessidades de investimento e custeio eram maiores do que as receitas resolveu endividar-se, pensando que no futuro um acréscimo de receitas poderia pagar este endividamento.

Fazendo um fast forward para os princípios do sistema bancário inglês, os banqueiros denominam os financiamentos como adiantamentos (advances); “Mas adiantamentos de quê?” perguntaria o leitor que ainda está acordado. Seriam adiantamentos de receitas futuras, não há outra forma de imaginar a solução para o pagamento de um empréstimo.

Voltando ao tema bíblico, imaginem o que seria se este Economista chegasse ao cenário de Sodoma e Gomorra, terras arrasadas por incêndios, destruição, peste e outros tantos dramas, tal como se observa nos escombros que o governo passado (?) nos deixou. Este Economista, ao contrário da organização do Paraíso, teria que lidar com todos estes desequilíbrios que recebeu como herança, como déficit público, endividamento crescente, déficit na balança comercial, inflação elevada, taxas de câmbio desalinhadas e grande corrupção que está ligada aos problemas descritos, e não organizar do início uma economia ideal a partir do Paraíso.

Entender a tarefa do atual Ministro da Fazenda como ideológica é ignorar que: (1) não é possível gerar um déficit fiscal (receitas menores que despesas) crescente e com isso aumentar indefinidamente o endividamento; (2) a inflação precisa ser controlada, pois ninguém poupa e investe na incerteza e investimento é imprescindível para gerar renda e emprego; (3) o excesso de importações sobre as exportações pode estrangular nosso saldo de divisas e comprometer os pagamentos ao exterior que são necessários.

“Por que não?”, poderia perguntar um economista ingênuo, lembrando das lições da UNICAMP que o melhor é “ir para cima e depois as coisas se acertam sozinhas, o crescimento cuida de tudo”. Ocorre que todo devedor, por definição, precisa de um credor, como o governo endividado na moeda nacional ou em divisas, de modo que os dois não conseguem conviver se o credor duvidar da capacidade ou intenção de pagamento do devedor. Isso tudo infelizmente não é teoria, porém a mais comum experiência de tantos países que ficaram insolventes, como no presente a Argentina, Venezuela e Grécia e, no passado, tantos outros que não caberia citar no limite do presente artigo, inclusive nosso próprio país.

O Ministro da Fazenda, tal como o manobrista de carro, orienta nossa Motorista Maior com a expressão “vai bater” (omitindo a longa explicação de que “vai bater se a Motorista continuar sem mudança de curso”). Imaginar, portanto, que o novo Ministro da Fazenda teria alguma alternativa que não fosse respeitar a Aritmética é pensar que seja possível esperar por um novo milagre da multiplicação dos pães e peixes.

2 Opiniões

  1. Áureo Ramos de Souza disse:

    Eu acredito que Paulo Gurgel foi valente em suas escritas bem descritas e só parou pois acredito que que ele deve ter um espaço reservado para tanto parou e acredito que deve continuar. Espero a continuação Paulo

  2. Victor Ivens disse:

    Gostaria de parabenizar o autor do artigo. A leitura foi agradabilíssima. Espero poder ler mais artigos de vossa autoria aqui no opinião e notícia.

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