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Gastronomia

Alex Atala – o super chef

Não se deixe enganar. Alex Atala é muito mais que a soma das partes que estampam as capas de revista

Alex Atala – o super chef
Este ano, o D.O.M de Atala recebeu duas estrelas do Guia Michelin (Reprodução/AFP/Getty Images)

Alex Atala é uma das estrelas mais brilhantes do mundo da gastronomia.  Isso já não é uma novidade.  Seu D.O.M. (Deo Optimus Maximus), recente ganhador de duas estrelas Michelin,  integra há quase uma década a cobiçada lista The World’s 50 Best Restaurants publicada pela revista Restaurant, com ápice em 2012, quando alcançou a quarta posição. Ano passado, recebeu o Chefs’ Choice Award (pela mesma revista): eleito por colegas de profissão melhor chef do ano .  O que diz muito.  O cozinheiro-empresário-restauranteur-escritor-apresentador é garoto propaganda, capa de revista, formador de opinião, produtor de arroz, palestrante itinerante,  co-curador do MAD symposium (conferência anual que reúne chefs, fornecedores e intelectuais para discutir  o futuro da comida), e fundador do Instituto Atá (em síntese, projeto que busca a exploração saudavél e sustentável de ingredientes 100% brasileiros e expõe o vínculo entre  o ingrediente, a terra e a cultura).

Vou ser sincera: tinha um certo preconceito contra Alex Atala.  As dezenas de fotos do peito nu, das tatuagens talismãs que se espalham pelo seu corpo de maneira estranhamente simétrica.  A vaidade crua e sem vergonha que atrai e repulsa.  A atitude de punk atrevido quase anacrônica.  O ar de viking desbravador, bandeirante ocultista que beira o caricato.  Tudo isso me desnorteava.

Sou teimosa.  Formo opiniões absolutas com facilidade.  Mas reconheço meus equívocos, me arrependo, volto atrás, peço desculpas.

Ciente das limitações geradas pelos meus preconceitos, e disposta a reagir, resolvi ler  Escoffianas Brasileiras, o terceiro livro de Atala.  Havia resistido à leitura durante alguns anos porque achava o título pretencioso demais.  Superada esta primeira barreira, imaginei que o livro, que é dividido em três partes, “Aprendizado”, “Sonho” e “Realidade”, me daria uma boa ideia de quem é Alex Atala.

Encontrei em Escoffianas a voz generosa, experiente, sincera, clara, importante, exigente e inspiradora de um mentor que ainda não tive o privilégio de encontrar na minha vida profissional.   Atala discute a natureza contínua e efêmera do trabalho de cozinha; a importância de educação, atitude, respeito, firmeza e  jogo de cintura,  da valorização do ingrediente e o domínio do seu preparo; a vantagem de uma base técnica sólida, o melhor trampolim para criatividade e inovação.  E as receitas?  As receitas merecem atenção à parte.

Elas estão espalhadas pelo livro de maneira bem calculada, posicionadas em meio a capítulos relevantes.  A fotografia é belíssima e captura bem a estética limpa e orgânica do chef.  As receitas não são só bem escritas e fáceis de seguir, como dentro do contexto do livro, elas transcendem a página, cheias de energia, e evocam sensações.   Algumas fizeram minha boca salivar.  Ao ler outras, engoli em seco.

Em seu livro “Nas Noites Arabes”,  o escritor inglês-afegão, Tahir Shah, escreve: ‘’meu pai costumava dizer que, para compreender um lugar, é preciso ver além do que os sentidos nos mostram.  Ele nos mandava enfiar algodão nas narinas, tapar os ouvidos e fechar os olhos.  Só assim, afirmava, poderíamos absorver a essência do lugar.”  Correndo o risco de expor um romantismo absurdo, confesso que imaginei uma degustação dos pratos que mais atiçaram minha curiosidade assim: com algodão nas narinas, ouvidos tapados e olhos fechados.  Porque existe uma essência a ser capturada.  As receitas são intelectuais e sintônicas, verdadeiras composições de sabores e sensações.  Perdão, Atala, pelo meu mau e desinformado juízo.  “Escoffianas Brasileiras” é um título perfeito.

Terminei o livro muito impressionada com Alex Atala, com a revelação do profissional sério, responsável, talentoso e capaz, do visionário apaixonado por esta terra e seus frutos de quem sabia tão pouco, afastada pelo desconcertante alter-ego narcisista, o desinibido mestre da autopromoção.  Procurei saber mais sobre as atividades do chef fora da cozinha.  Os projetos do Instituto ATÁ  são maravilhosos.  A campanha vínculada a eles “Eu Como Cultura”, também.  Acho interessante como a partir destes  movimentos modernos de consciência e sustentabilidade, renascem valores pagãos, em particular os relacionados à natureza, ao homem e ao sagrado.  Mas isso é assunto  para outro dia, outro artigo.  Por ora, basta.

 

6 Opiniões

  1. Marcos Leite disse:

    Com certeza, merece as três estrelas.

  2. P.F. disse:

    Um jantar no D.O.M. com a Bárbara Duarte seria uma boa :)

  3. P.F. disse:

    Quanto custa um almoço no D.O.M. ? Não tem preço popular?

  4. Carlos disse:

    Gostaria de experimentar essa culinária de duas estrelas Michelin. Que eu saiba o Brasil nunca teve um chef desse porte. Aqui no Rio, temos é uma overdose de Troigros. Nada contra, mas é praticamente um império (quatro ou mais restaurantes!) Um Alex Atala no Rio nos faria bem..

  5. Viviane disse:

    O cara é badalado, sem dúvida. Deu vontade de ler o livro e ver essas receitas que transcendem a página. Será? Ou melhor, ei, Opinião e Notícia, que tal sortear um jantar no DOM? Eu me candidato! :)

  6. Mary disse:

    Maravilhosa esta sua analise! Ja estou com agua na boca!!!

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