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TIROS PELA CULATRA

Amadorismo, denúncias e disputa interna marcam atuação do PSL na Câmara

Com dirigentes denunciados por corrupção, deputados da legenda de Jair Bolsonaro penam para se ajustar à lógica de funcionamento da Câmara

Amadorismo, denúncias e disputa interna marcam atuação do PSL na Câmara
Em mais de uma oportunidade, os 'tiros' dos deputados do PSL saíram pela culatra (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Na quarta-feira, 12, dias depois das reportagens do portal Intercept Brasil mostrarem diálogos que apontam relação coordenada entre o Ministério Público e o então juiz Sérgio Moro, o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ), famoso por quebrar uma placa com o nome de Marielle Franco, propôs um requerimento para que Glenn Greenwald, autor das reportagens, prestasse esclarecimentos na Câmara. Sem se dar conta de que um depoimento do jornalista – que diz ter ainda muita informação comprometedora para divulgar –, poderia ser danoso para Moro, Dallagnol e inclusive para Bolsonaro, Silveira viu sua empreitada receber o apoio da oposição – PCdoB, PSOL e PT –, a quem interessa acuar o governo.

Percebendo tardiamente a trapalhada, o próprio PSL votou, entre risos de deputados de vários partidos, contra o requerimento, que foi, enfim, retirado por Silveira. O episódio é um retrato da atuação do PSL na Câmara em 2019.

Tendo alguns de seus principais dirigentes – o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro, que liderou o partido em Minas, e Luciano Bivar, presidente nacional da legenda – envolvidos em denúncias de corrupção por falsificação de notas fiscais, uso indevido do fundo eleitoral em candidaturas falsas e inclusive por ameaças de mortes, no caso batizado de “laranjal do PSL”, o partido tem penado para compreender a lógica do funcionamento da Câmara. Em mais de uma oportunidade, os “tiros” dos deputados saíram pela culatra, como no caso descrito acima.

O amadorismo – ao contrário das suspeitas de corrupção – foi explicado por  Bolsonaro em entrevista à Veja. O partido se preparou para as eleições de 2018 “pegando qualquer um” que se dispusesse a apoiá-lo, admitiu o presidente.

Assim constituído, o PSL tornou-se o partido com o maior número de filiados na Câmara, empatado com o PT, com 54 deputados.

Alçado do “baixo clero” do Congresso para a presidência da República, o partido convive ainda com uma crise pública entre seus membros recordistas de voto – Joice Hasselmann, Alexandre Frota, Janaina Paschoal e Eduardo Bolsonaro, ente outros –, o que tem causado mais problemas ao governo do que a própria oposição de esquerda, como insinuou, em entrevista, o senador Major Olímpio (PSL).

Nesse cenário, o PSL tem à frente duas missões: defender o governo em uma provável Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre os diálogos de Moro e Dallagnol – já apelidados “Vaza Jato” – e apoiar a aprovação da reforma da Previdência.

Disputas pelo poder e defesa do governo

A filiação de Jair Bolsonaro, no primeiro semestre de 2018, marcou o primeiro racha no partido. A chegada do candidato presidencial, que aceitou o convite de Luciano Bivar com a condição de ter carta branca para reorganizar a legenda e trazer novos membros, desagradou o grupo “Livres”, ala de tendência liberal do PSL liderada por Sérgio Bivar, filho do presidente do partido, que acabou se desfiliando da legenda.

Antes de Bolsonaro, a legenda era “nanica” na Câmara, com três deputados. Conservadora e irrelevante – a bancada votou pela abertura do impeachment de Dilma Rousseff e contra as denúncias criminais que implicavam Michel Temer –, o principal nome do PSL era justamente Luciano Bivar, não tanto por sua atuação política.

Em 2013, ele, que era presidente do Sport Club Recife, afirmou ter pago propina à CBF em 2001 para que um jogador do time fosse convocado para a Copa das Confederações. Bivar acabou suspenso de suas funções pela Justiça Desportiva.

Após a posse de Bolsonaro, novos capítulos da crise se abriram. Gustavo Bebbiano, então responsável pela articulação política do Planalto, foi demitido pelas mesmas suspeitas de corrupção que cercam Bivar e Marcelo Álvaro – pesou na decisão um desentendimento do ex-ministro com um dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro. Álvaro e Bivar, por sua vez, seguem próximos do presidente.

Sem uma liderança nacional respeitada, uma vez que Bivar está fragilizado pelas acusações que responde na Justiça, membros dos diretórios estaduais acirram a disputa pelo poder dentro do partido.

O caso mais visível acontece no estado de São Paulo, onde Eduardo Bolsonaro foi empossado presidente do PSL em uma cerimônia em que estiveram ausentes os principais nomes do partido no estado: Joice Hassalmenn, Janaina Paschoal e Alexandre Frota.

O ex-ator da Globo, inclusive, embora não tenha comparecido, ironizou, no Twitter, o discurso do filho do presidente. Frota escreveu que iria se “controlar para não rir” da declaração do dirigente sobre construir um partido “forte” e “limpo”.

Dias depois, o próprio Frota seria atacado na internet por eleitores do PSL, ao ser acusado por um ex-funcionário seu de o ter usado como laranja em um de seus empreendimentos.

Sob essas condições, o partido tem falhado na defesa do governo na Câmara. Jogando muitas vezes para a plateia da internet, a bancada do PSL coleciona tantos equívocos que teve a atenção chamada por Bivar, que pediu que os deputados não fiquem “reféns” das redes sociais.

Um exemplo notável é o comportamento do PSL quanto à reforma da Previdência, pauta prioritária da equipe econômica do governo. Por se tratar do partido com o maior número de militares filiados, os deputados do PSL querem impor mudanças no texto que suavizem as regras da aposentadoria para policiais civis, militares e membros das guardas municipais, inviabilizando a economia prevista por Paulo Guedes.

A resistência de parte do partido à reforma é tanta que o ministro da Economia lamentou, em entrevista, que muitas vezes “o próprio opositor do governo é ele mesmo”.

Os deputados do partido, por sua vez, mesmo repetindo o bordão segundo o qual são “bolsonaristas desde criancinha”, rebatem as críticas acusando aliados do governo.

Líder do partido na Câmara, o deputado Delegado Waldir (PSL) credita à Onyx Lorenzoni o baixo desempenho das propostas do Executivo no Congresso.“O PSL tem feito sua parte, mas não tem culpa se o Onyx não criou a base, venho falando há tempos que o governo não tem base no Congresso”.

Chamados por Olavo de Carvalho, guru do presidente, de “caipiras” e “idiotas”, outros membros da sigla voltaram também contra ele suas críticas. Para o senador Major Olímpio, Olavo não passa de um “futurólogo louco” interessado em discutir “o sexo dos anjos”.

Tendo como aliado o PSL, o ministro Sérgio Moro talvez não possa contar com muito auxílio caso uma CPI contra si seja instaurada. Questionado pelo jornal Estado de S.Paulo se o partido se moverá para defender o ex-juiz, Bivar foi claro: “O Moro nem é filiado ao PSL, tá certo?”.     

Mas como o partido conta não com um, mas vários líderes isolados entre si, a preocupação talvez deva recair também sobre Bolsonaro caso o governo abandone Moro em seu momento mais frágil. Em entrevista ao jornal Globo, Delegado Waldir já avisou: “Moro tem mais credibilidade que nosso presidente”.

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3 Opiniões

  1. Beraldo disse:

    Cadê o Queiroz?

    Cadê o Capitão Adriano, Chefe do Escritório do Crime das Milícias do Wilson Witzel?

    Não tem nada “de se ajustar à lógica de funcionamento da Câmara.

    Tem é de provar que é honesto, como babujou durante a campanha, mandando o Moreco (Juizeco Moro) acionar a PF para desnudar o Flávio Bolsonaro, até as últimas consequências.

    É ou não é senhor editorialista?

    Lógica de funcionamento da Câmara!!! Vá se catar!!!

  2. Rogerio de Oliveira Faria disse:

    Esse partideco vai se afogar em suco de laranja…

  3. Rogério Freitas disse:

    Há um ditado que diz:”mentira tem pernas curtas”, ou seja: não demora e a verdade vem à tona. Eu digo que, tendo ela pernas compridas tropeçará em si mesma e a verdade demorará um pouco mais a ser conhecida, mas será conhecida.

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