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MEIO AMBIENTE

Amazônia: ‘cidadãos de bem’ versus ‘consumidores conscientes’

Estão mesmo de pernas pro ar este planeta e este país onde os bosques têm mais vida

Amazônia: ‘cidadãos de bem’ versus ‘consumidores conscientes’
Há que se respeitar, também, as florestas, como diria o Boitatá (Foto: Euzivaldo Queiroz)

“Este livro é dedicado a todas as pessoas que trabalham dia após dia em defesa do nosso planeta”. É o que está escrito na primeira página de “Rã de três olhos”, livro infantil da jovem ilustradora espanhola Olga de Dios, editado no Brasil pela Boitatá, selo infantojuvenil da editora Boitempo. Trata-se de uma rã que, por causa da poluição do seu habitat, nasceu com a mutação indicada no título e precisa usar um maiô listrado para nadar. Rãs, embora tenham pulmões, respiram pela pele.

A história é basicamente a seguinte: a jovem rã ouve da avó que o mundo nem sempre foi um lugar como o que a Rã de Três Olhos encontrou logo após deixar de ser um girino. A rã, indignada, vai até a porta de uma fábrica que produz coisas novas sem parar, mesmo com as coisas seminovas sendo jogadas sem parar também no lago onde ela mora. A rã, vã, grita o mais alto que pode na porta da fábrica, pedindo para a fábrica parar. “Mas seu grito era muito baixo comparado ao ruído daquela fábrica enorme”. Rã de Três Olhos vai, então, buscar reforços. É quando ela e alguns amigos começam a carregar tudo quanto é produto de produção em série para amontoar na porta da fábrica. Se o grito de um não faz diferença, o de meia dúzia, quem sabe?

“Daquele dia em diante – conta Olga de Dios -, a fábrica começou a reutilizar as coisas que já existiam e, pouco a pouco, a lagoa foi melhorando. E a fábrica também ficou melhor”.

São fantásticos, os livros infantis de Olga de Dios. De modo que seria uma injustiça dizer, já dizendo, que a fábrica sorridente que encerra o livro “Rã de Três Olhos” deve fazer parte da American Progressive Bag Alliance, a APBA. Trata-se de um grupo de lobby dos EUA que atua contra as leis de restrição ao uso de plástico ao mesmo tempo em que patrocina concursos de decoração de caixas de reciclagem em escolas fundamentais, conforme contou há poucos dias o Intercept Brasil.

“E, com isso, uma minúscula fração de sua vasta riqueza, a indústria de plásticos aplicou um verniz verde à sua cada vez mais amarga e desesperada luta para continuar lucrando com um produto que está poluindo o mundo”, ponderou o Intercept.

E ainda:

“Estamos bem além do ponto em que os esforços sinceros de crianças em idade escolar ou de qualquer outra pessoa do lado do consumidor possam resolver o problema dos plásticos. Não importa mais o quanto nos preocupemos. Já existe plástico demais que não se decompõe e, finalmente, não tem para onde ir”.

De pernas pro ar

Ao contrário do “consumidor consciente”, consciente não apenas da questão ambiental, mas de todas as contradições mais gritantes do mundo ao seu redor – aquele que um dia, em vez de consumidor, já foi chamado de cidadão -, ao contrário dele, para a indústria não há códigos outros na vida para muito além dos rendimentos dos acionistas, o que, não obstante, inclui o zelo pelo bom nome, “em longo prazo”, garantido via concursos de decoração de caixas de reciclagem em escolas fundamentais.

Não é coisa da edição brasileira da Boitatá que o maiô da Rã de Três Olhos seja verde e amarelo. Há que se respeitar as ilustrações. Há que se respeitar, também, as florestas, como diria o Boitatá, personagem do folclore brasileiro que castiga quem judia das verdes matas. No Brasil onde, mais ao sul, restringe-se o uso de sacolas e canudos de plásticos, mais ao norte a devastação da floresta amazônica segue a todo vapor. Ali no meio do país, em Brasília, o presidente da República castiga quem faz saber os dados dessa devastação, porque “o governo mudou”. Quem repercute a verdade sobre o desmatamento, mesmo que cumprindo um dever republicano, esses são “maus brasileiros”.

Os bons, como se sabe, são os famosos e assim chamados “cidadãos de bem”, também conhecidos como base eleitoral da mudança do Brasil para um “novo Brasil”. Estão mesmo de pernas pro ar, este planeta e este país onde os bosques têm mais vida, ou pelo menos as categorias que até há pouco tínhamos às mãos para minimamente compreender o mundo: os cidadãos (“de bem”) são os que querem usar, abusar e destruir, e os consumidores (“conscientes”) são os que não querem ir assim com tanta sede ao pote.

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