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EFEITO ROBERTO ALVIM

Antes desprezada por Bolsonaro, cultura passa a atuar na ‘guerra ideológica’

Presidente diz que 'um tal de Roberto Alvim' tem carta branca para distribuir cargos no setor; astrólogo, monarquista e racista são nomeados para diretorias

Antes desprezada por Bolsonaro, cultura passa a atuar na ‘guerra ideológica’
Alvim tentou alçar sua esposa, Juliana Galdino, a cargo na Funarte sem licitação (Foto: Facebook/Roberto Alvim)

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No início de sua gestão, Bolsonaro parecia não ter outros planos para a área de cultura senão o de destruir as políticas de seus antecessores – aí incluídos não somente Dilma e Lula, mas FHC, Itamar Franco, Collor e José Sarney.

Logo de saída, anunciou que a pasta perderia o status de ministério, sendo transferida para a Cidadania, sob as ordens de Osmar Terra, cujos conhecimentos de cultura, conforme ele próprio admitiu, resumia-se em “tocar berimbau”.

A ignorância de Osmar, ironicamente, dificultou em alguma medida o desmonte das políticas culturais. Autoritariamente, o ministro tentou suspender editais de fomento às artes que contemplavam temas que desagradam seu chefe (direitos LGBTs, igualdade de gênero, democracia, humanismo…). Como consequência, o Ministério Público autuou Terra, chamando pelo nome – censura – as tentativas do ministro, que foi obrigado a recuar. Diversos editais, no entanto, foram judicializados, e aguardam decisões dos tribunais para seguir adiante.

Surgiu, então, Roberto Alvim. Ex-diretor teatral de carreira exitosa, Alvim e sua esposa, a atriz Juliana Galdino, caíram em desgraça junto à classe artística por apoiarem a candidatura de Bolsonaro. Perderam contratos, Chico Buarque proibiu que encenassem um de seus textos, atores famosos afastaram-se de suas montagens e tudo isso, ao que parece, fez crescer em Alvim o desejo de vingança.

Depois de meses defendendo o presidente em suas páginas nas redes sociais, Alvim conseguiu meios para tanto: foi nomeado diretor de artes cênicas da Funarte (Fundação Nacional de Artes). Em pouco tempo no cargo, credenciou-se junto a família presidencial ao oferecer um teatro no Rio de Janeiro para um grupo evangélico e, sobretudo, por ofender a atriz Fernanda Montenegro, a quem chamou de “sórdida”.

Osmar Terra não gostou do protagonismo que Alvim vinha tomando, e passou a criar dificuldades à sua atuação. Na mesma época, a imprensa teve acesso a um contrato que Alvim tentava viabilizar: a ideia era que Juliana Galdino atuasse na Funarte, sem passar por qualquer licitação, gerindo R$ 3,5 milhões de verba pública. A repercussão negativa fez com que os cônjuges desistissem do projeto.

As brigas do casal com a classe artística e a imprensa, no entanto, devem ter agradado Bolsonaro. O presidente decidiu remover a secretaria de Cultura da pasta de Cidadania, transferindo-a para o Turismo, do investigado, no caso dos laranjas do PSL, Marcelo Álvaro Antônio. Roberto Alvim foi promovido, tornando-se secretário de Cultura e substituindo José Paulo Martins, que ficou apenas dois meses no cargo.

Cultura entra na “guerra ideológica”

Os primeiros movimentos de Alvim na secretaria deixaram claro que a Cultura entra, de vez, na “guerra ideológica” que o governo vem travando desde o início do ano com a esquerda, o centro, a centro-direita e qualquer área ou instituição que lhe faça oposição.

Para a Fundação Palmares, órgão de promoção da cultura afro-brasileira, Alvim escolheu Sérgio Camargo, para quem “a negrada daqui é imbecil” e “desinformada pela esquerda”. A Justiça Federal suspendeu a nomeação, por considerar a fala, como diversas outras, racista.

Já na Funarte, o escolhido foi Dante Mantovani, youtuber e maestro que  afirmou, em seus vídeos, que os Beatles e Elvis fizeram parte de um complô soviético para implantar o comunismo no mundo, bem como seus supostos derivados – as drogas, o aborto e o satanismo.

A secretaria do Audiovisual, que vai já para seu quinto diretor em menos de um ano, foi para André Sturm. Mas Katiane Gouvêa, chefe anterior que empreendeu uma cruzada contra filmes que abordavam a temática LGBT, não aceitou passivamente sua remoção: seguranças do ministério tiveram de escoltá-la para fora do prédio. Já Sturm tem, em seu currículo, experiência com gestão de cinemas, além de ter sido gravado ameaçando “quebrar a cara” de um agente cultural de quem discordou na época em que foi secretário de Cultura de São Paulo, na gestão de João Doria (PSDB).

“Neste momento, homens e mulheres de ciência e experiência comprovadas, com décadas de dedicação a instituições sérias e apolíticas, estão sendo alijados de seus cargos e substituídos pelas mais chapadas nulidades”, lamentou, em sua coluna na Folha de S.Paulo, o escritor Ruy Castro. “É uma hemorragia que, por chamar tanto a atenção, pode ser uma manobra para encobrir ocupações em outros órgãos igualmente vitais para o destino do país na administração pública”, concluiu.

Nas páginas do Globo, também o dramaturgo Artur Xexéo criticou a nova gestão cultural bolsonarista. “Para quem se diz cristão, ‘o tal do Roberto Alvim’ causa espanto ao utilizar o ódio como arma nesta guerra nada santa. Mas talvez só lhe reste esta arma porque o ódio é a vingança do covarde contra quem o intimidou”.

As confusões na secretaria são tantas que até Regina Duarte, apoiadora de Bolsonaro, se disse “triste” com a situação. “Que coisa mais triste, a arte em toda a sua grandeza submetida aos ditames da política do ‘toma-lá-dá-cá’ ideológico que ameaça pairar acima da obra artística, aquela que deveria ser intocável….Não?!”, questionou, em sua página na internet.

Alvim, por sua vez, defendeu-se afirmando que “os ataques promovidos pela imprensa não me impedirão […] de promover o verdadeiro renascimento cultural no Brasil”. E afirmou que segue em busca de uma brecha na lei, valendo-se talvez dos recursos da Rouanet, para contratar sua esposa para auxiliá-lo na empreitada.

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3 Opiniões

  1. Almanakut Brasil disse:

    Cultura sempre foi a “teta” mais saborosa da máquina pública e o maior exemplo está no estado de São Paulo, onde a democradura tucana alimenta covis como a TV Cultura Herzog, desde 1994.

    E de uns tempos para cá, passou a utilizar as varadas culturais para alimentar a velha corja socialista da classe de parasitas que sugam os cofres públicos desde a Lei Sarney, que virou Lei Rouanet.

  2. Andrew Banana disse:

    Osmar Terra no berimbau e no pandeiro é o Renascimento cultural Brasileiro.
    🎵
    Da até música, um samba raiz, aqueles tristes.

  3. Roberto Eustáquio Neves disse:

    O comunicado do encerramento das publicações do opinião e notícias não me agradou em nada.

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