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DITADURA CHILENA

Após repercussão, Alesp veta homenagem a Pinochet

Cauê Macris (PSDB-SP), presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, informou que vai impedir a homenagem ao ditador, proposta por deputado do PSL

Após repercussão, Alesp veta homenagem a Pinochet
Mais de três mil pessoas morreram no Chile durante a ditadura de Pinochet (Foto: Biblioteca del Congreso Nacional de Chile)

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O presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), Cauê Macris (PSDB-SP), garantiu que a Casa não vai homenagear o ditador chileno Augusto Pinochet. A controversa solenidade havia sido proposta pelo deputado estadual Frederico D’Avila (PSL).

“Assino nesta quinta [21] um ato da Presidência impedindo que aconteça o evento em homenagem ao ditador Augusto Pinochet dentro da @AssembleiaSP. O ato será publicado no Diário Oficial do Estado na sexta-feira (22)”, escreveu Macris nas redes sociais.

Comentários na postagem do presidente da Alesp celebraram a decisão. A deputada estadual Beth Sahão (PT-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp, classificou a ação de Macris como “sensata”.

“Não permitiremos que a @AssembleiaSP faça qualquer tipo de homenagem a um ditador sanguinário como Pinochet, responsável por + de 3 mil mortes no Chile. Amanhã mesmo entraremos com representação na Procuradoria Federal e vamos até ao pres. @cauemacris para impedir essa insanidade”, escreveu a deputada antes do anúncio do presidente da Alesp.

A homenagem a Augusto Pinochet iria ocorrer no dia 10 de dezembro, data em que o ditador chileno morreu. O deputado estadual Frederico D’Avila classificou, pelas redes sociais, o ditador como um “grande patriota”.

“O Presidente Augusto Pinochet conduziu seu Governo de forma brilhante, impedindo que o cenário ditatorial e violador de direitos humanos Cubano e Soviético da época se instalasse no seio da sociedade chilena. […] A visão comunista desses fatos nunca entenderá o bem que ele fez àquele país e à América Latina. Acabou a era de exaltar terroristas como se heróis fossem. Pinochet, em 17 anos do seu governo, transformou o Chile na economia mais pujante da América Latina”, escreveu D’Avila.

Ao propor a homenagem, porém, o deputado estadual ignorou a ditadura chilena, considerada uma das mais sangrentas na América Latina, que causou a morte ou desaparecimento de mais de 3 mil pessoas. Ademais, a Comissão da Verdade do Chile também apontou que mais de 40 mil chilenos foram vítimas de alguma violação dos direitos humanos por parte da ditadura na época.

D’Avila também ignorou as suspeitas de envolvimento de Pinochet em ataques internacionais. Em 2015, o Departamento de Estado dos EUA divulgou evidências convincentes de que Pinochet foi o mandante de um ato de terrorismo em Washington. O parlamentar paulista também não levou em consideração as acusações de desvios de dinheiro contra o ditador chileno.

Em 2018, um tribunal do Chile ordenou a retenção de mais de US$ 17 milhões dos herdeiros de Pinochet. Isso porque, segundo investigações, o dinheiro seria fruto de prática de desvios de dinheiro.

Apesar de contar com alguns poucos admiradores no Chile, a ditadura de Pinochet é fortemente repudiada pela maior parte da população chilena, assim como por órgãos do Estado. Em 2018, o Exército chileno destituiu e transferiu à reserva dois altos militares por causa de uma homenagem ao brigadeiro Miguel Krassnoff Martchenko, que atuou sob o comando do ditador Augusto Pinochet.

Esse, porém, não foi o primeiro aceno de integrantes do PSL a Augusto Pinochet. No último mês de setembro, o presidente Jair Bolsonaro usou a ditadura chilena para atacar a ex-presidente e atual Alta Comissária de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), Michelle Bachelet, que havia na ocasião divulgado um relatório que alertava para o risco à democracia no Brasil.

“[Bachalet] Diz ainda que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai brigadeiro à época”, escreveu o presidente.

Na época do golpe militar, Alberto Bachelet era general de brigada da Força Aérea. Ele foi preso, torturado e morto pela ditadura de Pinochet em 1974, aos 50 anos.

Na época, o aceno de Bolsonaro à ditadura de Pinochet incomodou o presidente do Chile, Sebastián Piñera. Apesar do irmão de Piñera, José Piñera, ter sido nome importante na ditadura chilena, o atual presidente chileno criticou as palavras proferidas por Bolsonaro.

“É de público conhecimento meu compromisso com a democracia, a liberdade e o respeito aos direitos humanos em todos os tempos, lugares e circunstâncias. Sem prejuízo dos diferentes olhares que podem existir em relação aos governos que tivemos nas décadas de 1970 e 1980, sempre estas visões devem se expressar com respeito pelas pessoas. Em consequência, não compartilho em absoluto a alusão feita pelo presidente Bolsonaro em relação a uma ex-presidente do Chile, e especialmente em um tema tão doloroso como a morte de seu pai”, declarou Piñera, em um pronunciamento direto do Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, na capital Santiago.

Repúdio geral

Além de parlamentares, estaduais e federais, da oposição, deputados mais alinhados aos posicionamentos de centro-direita também repudiaram a tentativa de homenagear ao ditador chileno. O deputado Arthur do Val, que foi recentemente expulso do DEM e está sem partido, criticou a ação de D’Avila.

“Com todo respeito ao colega, não há ordem, não há respeito, não há humanidade sem democracia. É absurdo enaltecer ditador, ainda mais com estrutura e dinheiro público”, escreveu o deputado, que é integrante do Movimento Brasil Livre (MBL).

Já o deputado estadual Heni Ozi Cukier, líder da bancada do Novo na Alesp, também destacou que o “dinheiro público não deve ser usado pra celebrar ditadores”. Em seguida, relembrou que a ação é “comum em nosso país”, destacando homenagens antigas do Psol e do PCdoB a nomes como Che Guevara, Fidel Castro e à Revolução Russa.

Quem é Frederico D’Avila

Nascido em 1977, Frederico D’Avila foi eleito deputado estadual pelo PSL nas eleições de 2018. Já tendo atuado como assessor especial do governo de São Paulo, D’Avila é produtor rural, conselheiro e diretor da Sociedade Rural Brasileira.

Pelas redes sociais, o parlamentar diz ter sido eleito pela “força da agricultura”, do “homem do campo” e de “Jair Bolsonaro”, expressando ser um ávido apoiador do presidente. D’Avila, inclusive, já mostrou interesse em migrar para o partido Aliança pelo Brasil, partido que vai abrigar Bolsonaro e possíveis dissidentes do PSL.

Nos últimos dias, através do Twitter, o deputado acusou o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) de “perseguição religiosa por motivos políticos como acontecia na Alemanha Nazista”. D’Avila também se posicionou contrário à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre prisão após segunda instância, que colocou em liberdade o ex-presidente Lula.

“O STF derrubou a prisão de condenados em segunda instância. Significa que a decisão pode colocar na rua cerca de 5 mil criminosos, entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. […] A impunidade venceu desta vez. A última esperança é a modificação da Constituição, que diga-se de passagem, está totalmente desatualizada com as demandas da população brasileira. O mal não pode vencer!”, afirmou o parlamentar.

Já no último dia 15 de novembro, data que celebra a proclamação da República do Brasil, D’Avila expressou sua admiração pela monarquia. Com críticas ao STF e a políticos, o parlamentar afirmou que “a coroa é o antídoto contra a corrupção”.

“Se o Brasil ainda fosse uma monarquia, nunca teríamos uma suprema corte dominada por párias e a ameaça socialista estaria a léguas de distância. A coroa é um antídoto contra a corrupção. […] Se estivéssemos na monarquia, corruptos travestidos de políticos dificilmente teriam espaço na nação. 15 de novembro: nada a comemorar”, escreveu.

No último dia 17 de novembro, novamente pelas redes sociais, D’Avila ironizou as denúncias de trabalho escravo no setor da Agricultura brasileiro. Em um vídeo, o parlamentar mostra, ao fundo, um maquinário sendo operado por um trabalhador, afirmando, em tom irônico, que “os trabalhadores estão sendo abusados em sua condição humana ali com ar-condicionado, cabine fechada, pressão positiva na cabine”.

O parlamentar, porém, pareceu ignorar que, até outubro de 2018, apenas no ano passado, o extinto Ministério do Trabalho já tinha resgatado mais de 1,2 mil pessoas em condições análogas à escravidão.

Leia mais: O segundo desaparecimento dos desaparecidos políticos

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