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Araújo reforça visão de ‘nazismo de esquerda’, defendida por Olavo de Carvalho

Em entrevista, ministro das Relações Exteriores tornou a declarar o nazismo como movimento de esquerda. Historiadores consideram a afirmação desonesta

Araújo reforça visão de ‘nazismo de esquerda’, defendida por Olavo de Carvalho
Discussão já havia ganhado os holofotes em 2018 (Foto: Alan Santos/PR)

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, voltou a chamar a atenção quando, em entrevista ao canal de YouTube Brasil Paralelo, declarou que o nazismo, assim como o fascismo, são “fenômenos de esquerda”. A tese é defendida por Olavo de Carvalho e rebatida nos meios acadêmicos internacionais.

“Uma coisa que eu falo muito é dessa tendência da esquerda de pegar uma coisa boa, sequestrar, perverter e transformar numa coisa ruim. É mais ou menos o que aconteceu sempre com esses regimes totalitários. Isso tem a ver com o que eu digo que fascismo e nazismo são fenômenos de esquerda”, afirmou o ministro. A entrevista foi divulgada no último dia 17 de março.

Em 2018, quando a discussão ganhou os holofotes pela primeira vez nos últimos anos, o embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, classificou a afirmação sobre o nazismo ser de esquerda como “desonesta”. Na época, o embaixador já havia destacado que a discussão tinha interesse de “reinterpretar o nazismo para encaixá-lo de acordo com seus objetivos imediatos”.

O nazismo deixou a sua marca em boa parte da Europa no século XX, levando milhões de pessoas à morte, fosse pela Segunda Guerra Mundial ou pelos horrores do Holocausto. A discussão sobre a ideologia do nazismo em 2018 foi tão intensa que a embaixada da Alemanha no Brasil divulgou um vídeo nas redes sociais, rejeitando a retórica olavista e repudiando o nazismo.

“Devemos nos opor aos extremistas de direita, não devemos ignorar, temos que mostrar nossa cara contra neonazistas e antissemitas”, afirmou o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Mass, também destacando que o nazismo era um movimento de extrema-direita.

Acredita-se que a principal confusão ao conectar o nazismo como um movimento de esquerda é devido ao nome do partido de Adolf Hitler. A agremiação chamava-se Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP). No entanto, historiadores relembram que o “socialismo” do nome do partido nunca saiu da teoria, apontando que foi uma estratégia para atrair a classe trabalhadora.

“Na prática, isso não teve significado algum. O partido nazista se associou rapidamente e de maneira efetiva com as forças de direita da República de Weimar e, depois da tomada do poder, se juntou com as forças de direita da sociedade. Hitler nunca seguiu uma política socialista”, explicou o historiador Wulf Kansteiner, da Universidade de Aarhus, a segunda maior da Dinamarca.

Nos anos 1960, após o fim do nazismo, houve pesquisas e debates, em diferentes países, que tentaram classificar o nazismo como um movimento de esquerda. No entanto, a discussão ficou no passado, pois os acadêmicos concluíram que o nazismo era de extrema-direita.

O historiador aponta ainda um episódio que ficou conhecido como Noite das Facas Longas, ocorrido em junho de 1934. Na época, após Hitler já ter expulsado os partidos de esquerda e comunista da Alemanha, o nazista eliminou os políticos da ala mais à esquerda do NSDAP. De acordo com Kansteiner, os nazistas que chegaram ao poder nunca seguiram nenhuma política de esquerda.

“Ao contrário, propagavam valores da extrema direita, um extremo nacionalismo, um extremo antissemitismo e um extremo racismo. Nenhum especialista sério considera hoje o nazismo de alguma forma um fenômeno de esquerda. Por isso, da perspectiva acadêmica histórica, essa declaração é uma asneira”, afirmou em entrevista à rede Deustche Welle.

Já Stefanie Schüler-Springorum, diretora do Centro para Pesquisa sobre Antissemitismo da Universidade Técnica de Berlim, demonstrou uma preocupação em termos de políticas internacionais. Isso porque Ernesto Araújo é o ministro das Relações Exteriores do Brasil. Para Schüler-Springorum, a afirmação de Araújo é “ altamente problemática diplomaticamente e um absurdo cientificamente”.

“Na política e ciência, porém, está mais do que consolidado que o nazismo é um movimento de extrema direita, porque rejeita a democracia e os direitos humanos, além de dividir pessoas em grupos e hierarquizá-las”, destacou o historiador.

Fontes:
DW-"Nazismo de esquerda": o absurdo virou discurso oficial em Brasília
Estadão-Ernesto Araújo afirma que nazismo ‘é de esquerda’

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1 Opinião

  1. ACM disse:

    Diz a historiadora que “e’ um movimento de extrema direita porque rejeita a democracia e os direitos humanos, alem de dividir pessoas em grupos e hierarquiza-las”.
    .
    Ora, se assim e’, entao o comunismo (extrema esquerda) tb se enquadra nessa definicao, pois:
    — rejeitou a democracia, instituindo o partido unico;
    — rejeitou os direitos humanos, criando campos de concentracao para os dissidentes, como o Gulag na URSS, os campos de trabalhos forçados da Coreia no Norte (estes bem explicados no livro de Blaine Harden, “A fuga do campo 14” de 2012) e as execucoes, torturas e prisoes cubanas;
    — dividiu em hierarquias: com duas classes na URSS, as massas e a Nomenklatura (esta elite tinha todo o poder nas maos), o mesmo ocorrendo nos demais regimes comunistas;
    — um item nao citado, o exterminio em massa da populacao, tb se aplica a ambos os regimes: no nazismo, o exterminio de milhoes de judeus, ciganos, deficientes, comunistas e testemunhas de Jeova’, e no comunismo, o exterminio de milhoes de russos e ukranianos (Stalin) e chineses (Mao), q nao aceitavam o regime de Lenin e Mao.
    .
    O q a historiadora nao percebeu e’ q esses comportamentos barbaros nao sao frutos de regimes politicos, mas sim caracteristicas das chamadas “pessoas civilizadas”. Como dizia Abraham Lincoln (1809-1865), “Se quiseres conhecer o caracter de uma pessoa, de^-lhe poder”. E a Historia Humana esta’ cheia de exemplos desse tipo, qualquer q seja a epoca ou o sistema politico vigente.

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