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Arte e Educação

As cores de Juliana, Rafael, Bianca, José, Aline, Arthur…

Alunos da rede municipal de ensino, artistas e membros da comunidade ajudam a colorir o pequeno município de Itatiaia, na região das Agulhas Negras, sul do estado do Rio de Janeiro

As cores de Juliana, Rafael, Bianca, José, Aline, Arthur…
Ralph pintando a Mantiqueira no muro de uma escola em Itatiaia (Fonte: Opinião e Notícia)

Passava do meio da manhã do último domingo de agosto, um lindo domingo de céu azul invernal na região das Agulhas Negras, sul do estado do Rio de Janeiro, quando o Ralph começou a rabiscar num pedaço do grande muro da escola municipal Dom Ottorino Zanon a silhueta de como se vê, àquela distância, o maciço do Itatiaia, palavra que na língua tupi significa “pedra cheia de pontas”, erguendo-se bruscamente do Vale do Paraíba para anunciar a quem segue de carro pela via Dutra do Rio para São Paulo que a partir dali a serra da Mantiqueira vai acompanhar a viagem do lado direito da estrada.

O artista plástico Rafael Fioratto, idealizador do projeto 'A Cor de Juliana' (Fonte: Opinião e Notícia)

O artista plástico Rafael Fioratto, idealizador do projeto ‘A Cor de Juliana’ (Fonte: Opinião e Notícia)

Muitos outros artistas da pequena cidade que leva o nome do maciço, bem como de cidades do entorno, como Resende, atenderam à convocatória para ajudar a colorir, junto com alunos da rede municipal de ensino, os 192 metros do muramento externo da escola, que fica na entrada do bairro Penedo, em um misto de curso livre, mutirão e domingo no parque (Penedo é um parque turístico-ecológico afastado do centro administrativo do município) que no intervalo de um dia de sol transformou em uma imensa galeria de arte a céu aberto o que até há pouco era um grande e feio muro abandonado, como o são os muros de tantas outras escolas públicas de todo o país castigadas pela falta de verbas e de tudo.

Esta foi a proposta, e este foi o resultado da segunda edição do projeto “A Cor de Juliana”, iniciativa chancelada pela Secretaria de Educação de Itatiaia e financiada pelo governo federal por meio do Programa Mais Cultura nas Escolas, e que neste segundo ano consecutivo de realização teve a participação da União dos Escoteiros do Brasil, cujos jovens integrantes prepararam o muro para a jornada de pintura, transformando-o em uma imensa tela em branco. O tema foi justamente ela, a serra da Mantiqueira. Além do Ralph, outros artistas — profissionais ou amadores, experientes ou de primeiras pinceladas, mestres ou aprendizes — preencheram o muro da Ottorino Zanon com lindas pinturas dos mais diferentes traços, mas todas remetendo à serra e toda sua exuberância, suas cores, vidas e histórias.

Paisagem do campo 'assinada' por Arthur, de apenas dois anos de idade, e seus pais (Fonte: Opinião e Notícia)

Paisagem do campo ‘assinada’ por Arthur, de apenas dois anos de idade, e seus pais (Fonte: Opinião e Notícia)

Assim, surgiram no muro da escola, além da serra do Ralph, o jardim de flores da Ana; o amanhecer na montanha da Cintia e da Helen; a cachoeira da Marcelle brilhando sob o céu estrelado do interior; o bosque do Jadeson, do Lucas e da Samira; o grande esquilo do Hebert; o vulcão do Giovani e de seus colegas de turma (o maciço do Itatiaia é remanescente de um enorme vulcão que cuspia pedras e lava por estas bandas pelos idos de 70 milhões de anos atrás); o lobo-guará e o montanhista flagrado pelo smartphone pintado no reboco pelo Vuitir e seus auxiliares mirins; a linda paisagem do campo “assinada” pelo Arthur, de apenas dois anos de idade, e seus “auxiliares” papai e mamãe.

Agora o muro da Ottorino Zanon tem também um painel da artista local Bianca Lima mostrando a casa grande da antiga fazenda de café que no início do século XX virou colônia de imigrantes finlandeses, depois virou bairro, e que hoje é um dos maiores destinos turísticos da região Sudeste. Na pintura da Bianca, o velho casarão aparece sob o pico do Penedo, que deu nome à fazenda, à colônia finlandesa, ao bairro e ao atual centro de gastronomia, viagem e lazer. De quebra, a escola ganhou ainda de presente dois painéis do professor Rafael Fioratto, que é um dos mais importantes artistas plásticos da região das Agulhas Negras e idealizador do projeto “A cor de Juliana”.

Alunos ajudam artista a concluir a obra (Fonte: Opinião e Notícia)

Alunos ajudam artista a concluir um dos trabalhos (Fonte: Opinião e Notícia)

A secretária de Educação de Itatiaia, Elenir Laurindo, chegou cedo para acompanhar aquele domingo de atividades extraclasse dos alunos da rede. Ao Opinião e Notícia, ela ressaltou que o notório embelezamento, então em curso, da fachada da escola Ottorino Zanon era apenas um dos objetivos almejados pelo projeto. Outro, mais importante, é ajudar a aproximar os jovens estudantes e a comunidade em geral da arte. A educação, diz Elenir, “possibilita atividades diversas para que os alunos também se percebam, para que tenham o poder de descobrir”, visão compartilhada por Rafael: “o nosso principal objetivo é integrar nossos alunos ao fazer artístico e proporcionar a eles essa vivência em arte”.

Montanhista flagrado pelo smartphone pintado no muro da Ottorino Zanon (Fonte: Opinião e Notícia)

Montanhista flagrado pelo smartphone pintado no muro da Ottorino Zanon (Fonte: Opinião e Notícia)

Em suma, antes de ter um propósito decorativo, por assim dizer, “A cor de Juliana” tem um caráter eminentemente pedagógico. “Eu, por exemplo — diz Rafael — aproveito para mostrar misturas de cores, combinações e composição. Os alunos me ajudam a pintar partes do desenho e eu faço os detalhes e acabamentos”. Alunos como a Aline, que tem 12 anos de idade e cursa o sétimo ano do ensino fundamental, e que foi a Penedo participar do projeto simplesmente porque o acha “inspirador”. “A Cor de Juliana”, diz ela, “mostra que a gente pode fazer as coisas acontecerem, mesmo quando a gente pensa que não pode”.

Mas, afinal, por que “Juliana”? Juliana Campos Neves é o nome da rua que corta de uma ponta à outra o bairro itatiaiense Vila Esperança, de onde se tem uma bela vista para o pico das Agulhas Negras, mas onde falta tudo, ou quase tudo — como em muitas escolas públicas brasileiras. Esta rua foi escolhida para receber a primeira edição da iniciativa, realizada em 2014, e o projeto acabou sendo batizado com o nome próprio do seu primeiro endereço. A secretária Elenir conta que em um primeiro momento os moradores reagiram com certa desconfiança à ideia de disponibilizarem as fachadas e muros de suas casas para receberem pinturas dos participantes de “A cor de Juliana”, mas que as poucos isso mudou, e por fim, acrescenta Rafael, a comunidade literalmente abriu as portas para o projeto.

“Quando os artistas e os alunos começaram os trabalhos, percebi que algo grande começava ali. Moradores começaram a varrer suas calçadas, outros tiraram entulhos, e a transformação começou. Diante das cores do projeto, não cabia mais lixo e sujeira”, lembra ainda o artista plástico.

Muro da escola Ottorino Zanon com duas obras (à direita) do artista Rafael Fioratto (Fonte: Opinião e Notícia)

Muro da escola Ottorino Zanon com dois painéis (à direita) do artista Rafael Fioratto (Fonte: Opinião e Notícia)

Qual não foi a grata surpresa quando Rafael descobriu que o nome da rua era uma homenagem a uma moradora do bairro muito ativa na luta justamente pelos direitos das classes populares; por água, luz e melhorias para a vila que afinal se chama Esperança, com “e” maiúsculo. Como se sabe, nomes de pessoas atribuídos a ruas são homenagens póstumas. Juliana morreu atropelada na via Dutra há alguns anos, em um desses sortilégios do destino que nem o mais vivo azul será capaz de algum dia tornar menos cinza. Mas eis que agora a sua cor, a de Juliana, vira instrumento de edificação daquilo que parece ter sido o que ela sempre buscou: viver com dignidade.

2 Opiniões

  1. Elisabeth disse:

    Belo texto! Assim como a iniciativa daquelas pessoas!

  2. Arthur Octavio Kós disse:

    LINDO, EMOCIONANTE…

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