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As ruínas da cidade fantasia de Henry Ford

Industrial americano tentou criar uma cidade americana em meio à Amazônia para suprir sua demanda de borracha

As ruínas da cidade fantasia de Henry Ford
O plano audacioso, entretanto, não levou em conta diversos fatores (Foto: Wikimedia)

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Às margens do Rio Tapajós, no Pará, há uma cidade em ruínas que um dia foi a utopia de um dos homens mais ricos do mundo. A Fordlândia foi fundada em 1928 pelo empresário Henry Ford. Ele tentou transformar a floresta brasileira numa terra da fantasia, mas o final da história foi bem diferente do planejado.

Atualmente, há cerca de 2 mil habitantes na cidade. Alguns ainda vivem nas estruturas de quase um século atrás. O plano de Ford era construir uma cidade que produzisse a borracha necessária na produção dos carros de sua companhia.

O plano audacioso, entretanto, não levou em conta diversos fatores. Primeiramente, o auge da borracha no Brasil ocorreu entre 1879 e 1912, período em que a América do Norte e a Europa alimentaram a demanda pela matéria-prima.

Mas o botânico britânico Henry Wickham levou as sementes de Santarém, no Pará, e proporcionou a plantação nas colônias britânicas, francesas e holandesas na Ásia. Isto destruiu a economia brasileira da borracha. Ford não se importou com isso e, para a alegria dos líderes brasileiros, adquiriu um grande terreno na Amazônia.

O empresário também não quis ouvir conselhos de especialistas sobre a  agricultura tropical, seus homens plantaram as sementes e simplesmente deixaram uma praga acabar com a plantação.

Para piorar, Ford construiu uma cidade no estilo americano. Mas quem viveria lá seriam os brasileiros. Ele queria impor costumes, valores e até dieta no padrão americano. Os brasileiros, por sua vez, não aprovaram. O consumo de álcool era proibido em Fordlândia. Os trabalhadores brasileiros, então, entravam em barcos para a chamada Ilha da Inocência, onde havia bares e bordéis. Em 1930, os funcionários não aguentaram a dieta americana e chegaram até a se revoltar contra os patrões.

No final da Segunda Guerra Mundial, estava claro que esta plantação no Brasil não seria lucrativa diante da competição da borracha sintética e das plantações na Ásia sob domínio japonês. Depois que Ford abandonou Fordlândia, em 1945, as autoridades brasileiras passaram a região de uma agência pública para outra. O resultado foi que a cidade entrou no que parece ser um perpétuo estado de declínio.

Fontes:
The New York Times-Deep in Brazil’s Amazon, Exploring the Ruins of Ford’s Fantasyland

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4 Opiniões

  1. Beraldo disse:

    Difícil encontrar um brasileiro que não saiba de tudo isto aí.

    É a mesma coisa de publicar que, na corte de Sua Alteza Michel Temer, foi descoberto mais um bandido.

    A descoberta de mais um bandido leva uma pequena vantagem, porque está começando a causar um grande medo.

  2. Lucinda Telles disse:

    Percebe-se que o fator determinante para o fracasso da Fordlândia foi o povo. E assim é até hoje: não adianta o projeto ser futurista se o povo vive no paleolítico.

  3. Luiz Alberto Franco disse:

    Parece que a Sra. Lucinda não leu o texto. Dizer que o “fator determinante foi o povo” revela um viés típico de algumas camadas da sociedade brasileira. Parece-me inútil dizer a essa senhora que o problema foi de gestão – estratégica, mercadológica, de pessoas etc. – no sentido mais amplo. Eu poderia enumerar vários exemplos de fábricas brasileiras, bem geridas, que têm indicadores de desempenho melhores do que congêneres no exterior, apesar de serem operadas por esse “povo” que ela julga culpado do fracasso fordiano.

  4. Carlos U Pozzobon disse:

    Esta reportagem é um monte de baboseiras. O fetiche da borracha domina o mundo e não dá tréguas à ignorantzia nacional. A tal de borracha sintética não substituiu a natural. O problema inglês não se resume ao contrabando de sementes e cultivo na Malásia. Ocorre que na Malásia não havia a praga (desconhecida até os anos 30) de cultivo da seringueira como se faz com o eucalipto hoje, isto é, plantação contínua. Quando Henry Ford criou a Fordlândia, seu projeto foi por água abaixo por causa do vírus que liquidou com as árvores plantadas uma ao lado da outra, como na Malásia. A seringueira não se prestava ao cultivo estilo agronegócio até meados dos anos 70 quando a Embrapa descobriu o combate a este vírus. Mas desde então, o Brasil já importava borracha para seu mercado interno, chegando a 13 mil toneladas em 2013 por absoluta inépcia do governo federal (como em tudo o mais) para esboçar um plano de desenvolvimento com foco na agricultura. Dois fatores contribuíram para o colapso da produção nacional na borracha em 1908 que — atenção — não são citados nos livros de história por falta de pesquisa dos nossos historiadores. 1) Os financistas ingleses não queriam mais botar dinheiro nos projetos brasileiros de exploração de terras na Amazônia para produção da borracha. Mesmo ganhando juros de 6,5% ao ano (um exorbitância para cem anos atrás) eles preferiam ganhar 3,5% na Malásia. Por que? Veja no link abaixo. Quem não for até lá adianto: o descontentamento com nosso sistema anticapitalista de tirar o máximo proveito com lucros exorbitantes e depois dar no pé, como se formou desde a colonização 2) A borracha do Acre era a de melhor qualidade no mundo por suas propriedades físicas, tais como elasticidade, etc. Mesmo assim, havia sérios problemas em aceitá-la em detrimento da borracha da Malásia. O trabalho de extração era baseado na exploração servil dos trabalhadores, enganados por promessas de fazerem fortuna que na realidade se tratava de trabalho escravo: eles produziam borracha mas eram obrigados a comprar os meios de subsistência do dono da “sesmaria” em que trabalhavam (ver a literatura sobre o assunto genialmente descrita em: 1)Carlos de Vasconcelos, Os Deserdados; 2)Alberto Rangel: Inferno Verde; 3)Ferreira de Castro, A Selva). Escravizados, os cearenses que foram para a Alta Amazônia compensavam a dívida estratosférica se vingando dos patrões e colocando pedras no meio das bolas de borracha. Estas pedras ficavam bem escondidas, e quando na Inglaterra eram lançadas nas máquinas, acabavam rebentando os equipamentos. Por isso a rejeição do produto brasileiro em favor do malaio, uma coisa que não se fala no Brasil porque nosso sistema esconde tudo aquilo que lhe envergonha. Leia o livro de Carlos Vasconcelos que recuperei das trevas de nossa ciência histórico-social: https://www.amazon.com/Pro-Patria-Portuguese-Carlos-Vasconcelos/dp/1495904229

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