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Até que ponto o padrão de beleza influencia os jovens?

O O&N conversa com Talita Baldin, psicóloga que sofreu com transtornos alimentares desde pequena

Até que ponto o padrão de beleza influencia os jovens?
Transtornos alimentares como anorexia e bulimia costumam assombrar não só o mundo da moda, mas também as pessoas que querem se encaixar numa forma que nem sempre é condizente com a realidade física delas (Reprodução/Flickr/Benjamin Watson)

Um projeto de lei na França tem levantado um debate sobre a magreza extrema no mundo da moda. A medida, que vai agora para o Senado, visa proibir agências de modelos de contratar pessoas com baixo índice de massa corpórea (IMC), além de avisar claramente quais fotografias comerciais foram retocadas digitalmente, com o objetivo de tornar a figura da modelo mais magra ou mais gorda. A proposta é válida? Até que ponto o padrão de beleza influencia os jovens?

Uma proposta parecida com a francesa também ocorreu aqui no Brasil. Em 2007, o senador Gerson Camata propôs um projeto de lei que impedisse modelos com menos de 18 de IMC de trabalhar na profissão. No entanto, em 2014, o processo foi arquivado. Transtornos alimentares como anorexia e bulimia costumam assombrar não só o mundo da moda, mas também as pessoas que querem se encaixar numa forma que nem sempre é condizente com a realidade física delas. Vestir um tamanho 38, 36 e até mesmo 34 pode virar um dilema, que envolve deixar de comer, no caso da anorexia, e forçar vômitos, no caso da bulimia.

Depoimento de uma sobrevivente

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Atualmente, Talita Baldin tem 62 kg e 1,72m (Foto: arquivo pessoal)

Este é o caso de Talita Baldin, 23, que mora em Niterói. A psicóloga, que hoje pesa 62 kg e tem 1,72 m de altura enfrentou transtornos alimentares desde pequena, por volta dos sete anos. Nesta idade, ela começou a restringir sua alimentação. Ela parou de comer carne, o que não come até hoje, e outros alimentos “calóricos”. Na época, ela não entendia isso como um transtorno alimentar, mas apenas como uma “dieta”.

“Eu fui uma criança gordinha, embora tenha praticado sempre muita atividade física. Minha perda de peso mesmo veio na adolescência, por volta dos 12 anos, quando a bulimia começou a me fazer companhia, mantendo-se até a idade adulta. Apenas reconheci que eu tinha anorexia aos 21 anos.”

Talita chegou a perder 20 kg em três meses. Oito só no primeiro. Naquela época, ela tinha 50 kg e 1,72 m. “Queria pesar menos, minha meta era sempre ir para baixo, independente de com quanto estava.” Talita conta que recebeu apoio, mas que também ganhou elogios pela magreza. Ela diz que nunca soube se seus pais sabiam realmente o que estava acontecendo com ela.

“Como o transtorno alimentar começou com a bulimia, eu conseguia esconder, já que é um transtorno mais velado, não tão visível. Quando eu deixei de comer de verdade, as primeiras pessoas a falarem comigo foram professores e amigos próximos, pois eu morava fora de casa, com amigas. As reações eram variadas, muita gente, que não sabia pelo que eu estava passando, elogiava e isso é o pior de tudo: eu estava morrendo, mas tudo bem, desde que eu estivesse magra. Mas eu tive sorte, tive muito apoio, pessoas que tentavam me compreender, mesmo sem entender muito bem o que se passava: ‘como assim, não quer comer?!’. Parece tão simples, não é? Mas para mim era muito difícil. Inúmeras vezes eu sentava na mesa da cozinha, diante de um prato de comida e chorava, eu não conseguia suportar.”

A psicóloga diz que procurar ajuda foi um processo complicado.“Foi muito difícil, eu queria acreditar que tinha controle sobre as coisas, mas a doença tomou conta da minha vida, eu virei a bulimia e a anorexia, não era mais a Talita que estava ali”.

Quando ameaçou ter paradas cardíacas constantemente, ela procurou um médico, depois recorreu à terapia e à psicoterapia atrelada a uma nutricionista. “Há dois anos, quando cheguei no momento mais crítico, eu tive consciência de que como estava não podia continuar, ou eu mudava, ou morreria. Depois disto comecei a me reerguer.”

Ela conta que a recuperação é um desafio diário cheio de altos e baixos. “Tem dias em que estou péssima, mas tenho que dizer a mim mesma ‘ei, eu posso acordar e erguer a cabeça e viver esse dia, eu posso fazer isto!’, mas nunca é simples. É muito desejo de viver, isso sim.” Ela conta que sempre se coloca a disposição para falar sobre o assunto, porque isso dá forças ao seu esforço, já que mostra onde ela já chegou e para onde ela não quer voltar, e porque sabe que ler sobre histórias de outras pessoas e se sentir compreendida é importante para a recuperação. “Para lutar com isso tudo, mantenho sempre firme uma certeza: eu sou linda, mesmo que o espelho não me diga isto hoje.”

Segundo Talita, a proposta francesa precisa ser pensada. “A princípio, a ideia parece ótima! Mas temos que olhar pelo outro lado também. Parece que a proposta vem no sentido de incentivar as pessoas a aceitarem seus corpos como são, de uma forma saudável, ou seja, sob índices mínimos de gordura. No entanto, com isso nós tentamos normalizar outro tipo de corpo, esquecendo que há muitas outras pessoas que são muito magras, sem necessariamente serem doentes ou obcecadas pela magreza. Essa proposta é ambígua, merece olhar cuidadoso.”

No entanto, ela fala que a mídia, “a nossa maior formadora de opinião”,  supervaloriza os corpos magros e os rostos que respondem a um “padrão de beleza no ocidente”. “É só ligar a televisão em qualquer canal: as apresentadoras, as novelas, as cantoras de sucesso… São mulheres magras. Para ver uma pessoa gorda na televisão, só em personagem que sofre bullying ou é a ‘coitadinha que dá a volta por cima e consegue emagrecer’. Atentando que me refiro às mulheres, que são as maiores vítimas de transtornos alimentares, mas que os homens também não fogem disto. A mídia pode ser cruel”.

Caro leitor,

O que acha sobre a proposta francesa? Até que ponto o padrão de beleza pode influenciar a população? Transtornos alimentares ainda são um tabu?

 

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