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Autobiografia de escravo que viveu no Brasil é traduzida para o português

Nos anos 2000, os historiadores Paul Lovejoy e Robin Law republicaram o livro em inglês. Mas na época o Brasil não teve interesse em traduzi-lo

Autobiografia de escravo que viveu no Brasil é traduzida para o português
Baquaqua viveu em Nova York e publicou seu livro em Detroit em 1850 (Reprodução/Globo)

Mahommah Gardo Baquaqua nasceu no Norte da África e foi trazido como escravo para o Brasil no início do século XIX. Em 1847, ele conseguiu fugir para Nova York. Lá, participou de campanhas abolicionistas nos Estados Unidos e publicou sua autobiografia em 1854, escrita em inglês.

Trata-se da única biografia escrita por um ex-escravo que viveu no Brasil, e o professor pernambucano Bruno Véras acaba de traduzi-la para o português, com apoio do ministério da Cultura e do Consulado da Canadá. A primeira edição do livro em nosso idioma deve ser lançada até o fim de 2015.

Véras lamenta que a história de Baquaqua não esteja nos livros escolares brasileiros. Nos anos 2000, os historiadores Paul Lovejoy e Robin Law republicaram o livro em inglês, mas não houve interesse do Brasil em traduzi-lo.

A trajetória de Baquaqua começa em 1820. Ainda pequeno, ele estudou em uma escola islâmica em Djougou, no Benim. Lá ele teve acesso ao Corão e lições de matemática para ajudar o pai comerciante. Ele atuou em rotas comerciais africanas que ligavam o califado de Socoto (império islâmico localizado na região do Sudão Central), ao Império de Ashanti (que se estendia da atual Gana até o Togo e a Costa do Marfim).

Em uma das viagens comerciais ele foi preso no Império de Ashanti, quando vendia grãos na região. Seu irmão chegou a comprá-lo e libertá-lo. Mas, após roubar bebida alcoólica em sua cidade, um crime grave para o Islã, Baquaqua foi preso novamente e feito de escravo.

“Quando estávamos prontos para embarcar para as Américas, fomos acorrentados uns aos outros e amarrados com cordas pelo pescoço e, assim, arrastados para a beira-mar. Uma espécie de festa foi realizada em terra firme naquele dia. Não estava ciente de que essa seria minha última festa na África. Feliz de mim que não sabia”, diz Baquaqua no livro.

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Rota de Baquaqua (reprodução / Editora de Arte)

O destino de Baquaqua era Pernambuco, onde conheceu a tirania da escravidão. Tentou ser um servo bom, mas depois se entregou à bebida e fazia o serviço com preguiça, como ele mesmo descreve. Por isso, foi vendido para um comerciante no Rio de Janeiro. Por suas habilidades em matemática, trabalhou em um navio especializado em comércio entre o Rio Grande do Sul e a Corte.

Em uma dessas viagens, quando levava uma encomenda de café para Nova York, Baquaqua soube que os estados do norte dos EUA haviam abolido a escravidão. Foi então que ele decidiu fugir do navio. “A primeira palavra que meus dois companheiros e eu aprendemos em inglês foi F-R-E-E (L-I-V-R-E). Ela nos foi ensinada por um inglês a bordo e, oh!, quantas e quantas vezes eu a repeti”, diz o autor.

Ao fugir do navio foi preso, mas abolicionistas o ajudaram a sair da prisão e ele se refugiou no Haiti. Lá se converteu ao cristianismo e pela Igreja Batista Abolicionista e voltou para os Estados Unidos. A partir de 1850, liberto, Baquaqua frequentou aulas de inglês por três anos em Nova York e publicou sua biografia em Detroit para arrecadar fundos para a campanha abolicionista.

Em 2012, pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco produziram um documentário sobre a história de Baquaqua. Confira abaixo:

 

Fontes:
O Globo - Historiadores traduzem única autobiografia escrita por ex-escravo que viveu no Brasil

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