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ELEIÇÕES 2018

Vem aí a ‘bancada da Lava Jato’ no Congresso Nacional?

Serão candidatos agentes, escrivães e papiloscopistas da Polícia Federal, além de pelo menos 11 delegados

Vem aí a ‘bancada da Lava Jato’ no Congresso Nacional?
Pelo menos 11 delegados federais vão tentar a sorte nas eleições de outubro (Foto: Wikimedia)

Nesse domingo, 17 de junho, a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, foi toda dedicada a impressões, relatos, amargores e confidências de Newton Ishii, o famoso “Japonês da Federal”, “carcereiro da Lava Jato”, tão “mitológico” que o ex-presidente Lula, quando foi alvo em 2016 de condução coercitiva ordenada por Sérgio Moro, teria perguntado aos agentes da PF quando bateram à sua porta em São Bernardo do Campo:

“Ué, mas cadê o japonês?”.

Newton Ishii disse assim à Folha:

“Um dia o pessoal [réus da Lava Jato] começou a me perguntar se eu não me lançaria candidato. Eles falaram: ‘o Pedro Corrêa [ex-deputado federal] tá aqui, ele te ensina’. [Corrêa] se vira para mim e diz: ‘se eu te ensinar, daqui a um tempo o senhor tá aqui com a gente, viu?’”, conta o ex-agente, rindo.

E a Folha disse assim do “japonês”:

“Ishii se aposentou em fevereiro deste ano e atualmente é o presidente do Partido Patriota do Paraná. ‘Não vou ser candidato. Mas tenho dado palestras para pré-candidatos. Falo sobre a importância do voto. Vamos analisar: Newton, famoso, Japonês da Federal. E o meu voto vale tanto quanto o do pedinte’”.

Não se sabe ao certo quantos pedintes que se acumulam e se avolumam no Brasil estão com o título eleitoral em dia, quantos dormem sob marquises, pontes, nas calçadas, sobre folhas de papelão, mal aquecidos por cobertores ordinários, mas contanto que em logradouros de seu “domicílio eleitoral”. Newton Ishii, por outro lado, se já dá palestras a pré-candidatos, deve saber que, sim, há votos que valem mais, se não o do Newton, por certo o do Japonês, a exemplo de outro nome de peso duvidoso — mas de peso, nesses tempos penosos – filiado ao Patriota: Alexandre Frota.

Se não como candidatos, tanto Newton Ishii quanto Alexandre Frota serão na campanha que se avizinha cabos eleitorais empenhados na formatação de uma espécie de “bancada da Lava Jato” na próxima legislatura do Congresso Nacional. Seus pré-candidatos vão disputar cadeiras, por exemplo, com 91% dos deputados alvos da própria Lava Jato – um tributo ao cenário brasileiro atual, onde os nexos da política foram reduzidos à lógica binária das séries de polícia e ladrão.

O poder que emana da estupidez

Uma eventual bancada cujos pré-candidatos já estão na praça e não são propriamente ex-carcereiros que viraram amigos de Marcelo Odebrecht, ou um ex-ator pornô cujo nome foi motivo de clamores, da parte de fãs que ele tem em comum com a operação, para voltar à ativa, em um último papel, o do juiz Moro na série “O Mecanismo”.

Mas são, por exemplo, os 26 pré-candidatos que no fim de maio lançaram em Brasília uma frente eleitoral oficialmente batizada de Frente de Agentes da Polícia Federal – extraoficialmente batizada de “Frente da Lava Jato” – que tentarão uma vaga no Congresso Nacional surfando os 84% de brasileiros que fazem gosto à operação. São agentes, escrivães e papiloscopistas, entre eles o agente federal Danilo Balas. Esse, particularmente, tentando surfar a fama conquistada após publicar numa rede social uma imagem de Dilma Rousseff crivada de… balas. Também faz parte da frente o agente Rafael Ranalli, pré-candidato a deputado federal em Mato Grosso pelo Patriota de Ishii e Frota, para quem “bandido bom é bandido morto e, de preferência, de pé para não ocupar espaço”.

Além desses, pelo menos 11 delegados federais vão tentar a sorte nas eleições de outubro, postulantes a cargos como os de deputado federal e senador da República, e com senso de oportunidade semelhante, mas não tão “a jato”, ao da policial militar Kátia Sastre, que recentemente matou um assaltante com dois balaços à queima roupa na frente da escola de sua filha, e que logo depois anunciou uma possível candidatura a deputada federal, “pela honra de Deus” – talvez também do coronel Brilhante Ustra, tendo em vista que a cabo Sastre, também ela, é admiradora de Jair Bolsonaro.

Foi por querer inscrever na Constituição “Todo Poder Emana de Deus”, no lugar de “do povo”, que outro cabo, o Daciolo, já deputado, foi expulso do PSOL. Entre tantos cabos reveladores do Brasil atual – Ishii, Frota, Kátia, Daciolo – um quinto, também de peso, acaba de sair de cena: a condução coercitiva, que acaba de ser proibida pelo Supremo Tribunal Federal por apertados seis votos a cinco. Onze, ao todo, que também valem mais, muito mais que o de qualquer desalentado com a democracia brasileira, mesmo aqueles, ou sobretudo aqueles, com o título em dia.

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