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Sociedade

Bibliotecas Parque: a leitura em zonas sensíveis

Conjuntos de bibliotecas da SEC em comunidades do Rio de Janeiro são reflexo de um Estado chegando onde sempre foi ausente

Bibliotecas Parque: a leitura em zonas sensíveis
Fachada da Biblioteca Parque da Rocinha: um sonho da comunidade

Chegar onde o livro e o conhecimento são raros. As zonas sensíveis do Rio de Janeiro começam a construir uma nova história com a rede de Bibliotecas-Parque da SEC. Até o momento, os complexos já chegaram a Niterói, Manguinhos, e Rocinha, com a recém-inaugurada Biblioteca-Parque da Rocinha. Mais tarde, ainda serão construídas unidades no Complexo do Alemão, em Paraty, Paracambi, Teresópolis, Cidade de Deus e São Gonçalo.

As bibliotecas-parque são amplas instalações, espaços lúdicos de lazer e aprendizado, com livros, computadores, auditório e ludoteca. Sua presença é um reflexo do Estado oficial alcançando aos poucos um espaço onde sempre esteve ausente.

“O livro é o primeiro acesso de conhecimento da humanidade”, diz Vera Saboya, Superintendente da Leitura e do Conhecimento. “A presença destes espaços em zonas de complexidade social se faz ainda mais importante e necessária à sociedade brasileira, para estimular a reflexão humana em torno da vida e formar um senso crítico. Nestes espaços, existe a questão da violência física, mas também a violência do silencio, da falta de voz das pessoas. Imaginamos criar em todas as regiões do estado pelo menos uma biblioteca desse tipo. Todas interligadas, cada uma funcionando como cabeça de rede das bibliotecas municipais, escolares, comunitárias, de todos os projetos de leitura e educação. Seriam as condutoras, a referência de um modelo novo de se discutir a questão do conhecimento, da formação, da educação”.

O mais novo complexo, a Biblioteca Parque da Rocinha, é um prédio de cinco andares e 1600 metros quadrados. Construída como parte do PAC, a estrutura impressiona: DVDteca, cineteatro, sala multiuso para cursos, estúdios de gravação e edição audiovisual, setor de leitura e internet comunitária, cozinha-escola e café literário. A estética se livra completamente de qualquer peso institucional. Trata-se de uma estrutura lúdica e atraente, onde pessoas de todas as idades podem passar o dia todo e se sentir à vontade.

“Este tipo de espaço antigamente era o retrato de uma vida muito institucional, com uma cara de governo. Pensamos que era necessário que o espaço fosse muito atraente, fosse bonito esteticamente, para que as pessoas entrassem e se interessassem pelos livros e pelos filmes”, explica Saboya.

Interior da Biblioteca Parque da Rocinha

Um dos objetivos das bibliotecas é integrar a comunidade com a cultura local, a cultura contemporânea e a clássica. No caso específico da Rocinha, a pronta integração com os moradores está na origem do projeto, já que a biblioteca nasceu de um sonho da própria comunidade. Há tempos que fervia uma cena cultural na Rocinha, e seus agentes têm finalmente espaço para desenvolvê-la. Escritores locais lançam seus livros e promovem oficinas. Há também espaço para exposições, shows e peças de artistas da comunidade. Recentemente, o auditório lotado viu o primeiro sarau da biblioteca, que contou com a presença do poeta local Joílson Pinheiro e do compositor Jorge Mautner. Jovens de 7 a 13 anos leram versos (alguns escritos por eles mesmos) e o evento terminou com o show da cantora da Escola de Samba Ingrid Braga.

“A Rocinha é uma comunidade repleta de artistas, agentes e mediadores culturais”, diz Saboya. “Ela tem uma vocação cultural muito grande. O modelo da Biblioteca Parque é de um espaço múltiplo que trabalha todas as artes: música, cinema, teatro, literatura, gastronomia…”

A maior parte dos funcionários da biblioteca é formada por moradores da comunidade. Formados em história, literatura e biblioteconomia, já tinham experiência como mediadores. Já os programas de educação das bibliotecas ficam a cargo de especialistas em suas áreas: recentemente, o Núcleo de Informação Tecnológica (NIT) deu um curso de iniciativa digital, enquanto a editora Anna Dantes ministrou um curso de laboratório editorial.

Na Rocinha, cerca de 70 por cento dos visitantes tem entre sete anos e 14 anos. Já em Manguinhos o público é mais equilibrado: 40 por cento são crianças, 30 por cento jovens e outros 30 por cento terceira idade. Em um ano de funcionamento, Manguinhos recebeu 130 mil usuários, teve 62 mil consultas ao acervo e 37 mil empréstimos domiciliares, e emitiu 9 mil carteirinhas. Por sua vez, ao longo de seis meses de funcionamento a Biblioteca Pública de Niterói – a segunda da rede de bibliotecas-parque, re-inaugurada em julho de 2011 após cuidadoso restauro e completa modernização – recebeu 48.800 usuários, teve 52 mil consultas, emprestou 25 mil livros e emitiu 5.300 carteirinhas.

“Muita gente vai lá passar o dia lá, ver um filme, ver arte”, conta Saboya. “É importante dizer que essas bibliotecas não têm só acervos de literatura, também há livros de arquitetura, guias de arte. Imagine um obreiro de construção civil em Manguinhos. Em algum momento da folga, ele pode ir à biblioteca e se deparar com livros sobre Niemeyer, Le Corbusier. Isso pode acrescentar muito ao trabalho e à vida dele”.

2 Opiniões

  1. Dorival Silva disse:

    Formidável — estão de parabéns Vera Saboya e todos os seus colaboradores!

  2. lucila Malcher disse:

    Esse projeto é muito bom, bem estratégico, poderia ser estendido a todas as cidades brasileiras, onde o número de bares e casas noturnas aumentam, nada contra, mas pouco se vê iniciativas públicas neste sentido, o pouco que se vê são ong´s que a muito custo vêem desenvolvendo projetos relacionados a leitura. São iniciativas dessas que podem alanvacar a educação da nossa população.

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