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TÁTICA DE GOVERNO

Bolsonaro aposta na polarização da sociedade para governar

Promessa de 'unir o Brasil' era retórica eleitoral; especialistas veem risco de radicalização política

Bolsonaro aposta na polarização da sociedade para governar
Presidente investe em ‘guerras culturais’ que opõem setores da sociedade (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Movimentos captados na opinião pública pelas pesquisas mais recentes divulgadas pelo instituto Datafolha e pelo Ibope atestam que o apoio popular a Bolsonaro se viu reduzido, em seis meses, a cerca de um terço dos eleitores.            

Parcela igual da população rejeita as ações do governo, e o terço restante avalia a gestão do PSL como regular.

Estes mesmos institutos estimavam, na época da posse do presidente, que 65% das pessoas estavam otimistas, esperando que o novo governo fosse bom ou ótimo.

O choque de expectativas com um novo governante é comum, considerando as emoções – esperança, medo, etc – mobilizadas durante o período eleitoral. Mas nenhum presidente “derreteu” tão rapidamente perante a opinião pública quanto  Bolsonaro, que já ocupa o posto de chefe de Estado mais mal avaliado, em seus primeiros seis meses, desde a redemocratização. Antes, o recorde negativo era de Fernando Collor, que renunciaria em 1992.

O presidente, embora enquanto deputado nunca tenha se comportado como um conciliador, comprometeu-se durante as eleições a concentrar esforços para “unir o Brasil”, que vinha fortemente polarizado desde as eleições de 2014.

Não é o que Bolsonaro tem feito desde janeiro: pelo contrário, ele parece apostar suas fichas no aprofundamento da polarização da sociedade, investindo nas “guerras culturais” que opõem progressistas e conservadores, esquerda e direita, evangélicos e defensores do estado laico.

Para cientistas políticos como Marcos Nobre, André Singer e Rosana Pinheiro-Machado, o presidente, ante uma economia que patina e sem condições de formar maioria no Congresso, pretende, assim, fidelizar seu eleitorado, apresentando-se como “defensor da família” contra ameaças difusas representadas, segundo ele quer fazer acreditar, pelos direitos humanos, pelos LGBTs, feministas, ambientalistas, pelos professores e pela esquerda em geral.

Tal estratégia, bem sucedida para alçá-lo ao Planalto, contudo, pode não dar certo, caso persista a percepção de piora dos serviços públicos de saúde e educação e os altos índices de desemprego, endividamento e queda na renda da população.

Apoio popular, radicalização e risco à democracia

Os acenos de Bolsonaro a seu eleitorado mais convicto e ideologizado foram muitos, e têm aumentado à medida que as pesquisas de opinião apontam para o que pode ser um início de isolamento do presidente.

Listamos alguns: em um café com jornalistas, general Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da presidência, esmurrou a mesa e pediu prisão perpétua de Lula; o mesmo general comparou Sergio Moro ao super-herói Batman, em uma tentativa de defendê-lo das acusações de parcialidade na condução de processos da Lava Jato; Bolsonaro, que em abril ordenou que as Forças Armadas realizassem “comemorações devidas” do golpe militar de 1964, prometeu indicar para o STF um ministro “terrivelmente evangélico”; e também o presidente, e seus três filhos com cargos políticos, convocaram manifestações em defesa do governo e contra o STF e o Congresso Nacional.          

Para o cientista político Marcos Nobre, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), tais movimentos do governo são planejados e formam parte de uma estratégia do presidente para acuar tanto a esquerda quanto a direita moderada.

“Bolsonaro não tem a pretensão de governar para a maioria. Ele tem a pretensão de governar para o bastião que permanece fiel a ele”, avaliou, em entrevista ao portal UoL. “Ele usa essa mobilização de redes sociais e o que ele chama de nova política para chantagear a direita e dizer: ou vocês se integram nesse projeto ou vão ficar no deserto eleitoral e institucional. Por isso o bate e assopra. Ele bate e assopra o tempo inteiro, principalmente com a figura do presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ)”, diz.

Apesar de ser muitas vezes acusado de inepto e mesmo de burro, a estratégia bolsonarista parte de uma percepção certeira do atual estado das coisas: instituições como o Congresso, a Justiça, os partidos políticos e a imprensa estão também em declínio junto à opinião pública. Enquanto ataca estas instituições, que integram, enfim, o próprio sistema democrático, Bolsonaro deixa para seus opositores a inglória tarefa de defendê-las, e quando o fazem o presidente os acusa, nas redes sociais, de defender “o sistema”.

Não por menos, pesquisa recente divulgada pelo site jurídico “Jota” constatou que 34% dos brasileiros aceitariam, “em algumas situações”, fechar o Congresso; 32% seriam favoráveis, “em alguns casos”, ao fechamento do STF, e 23% opinam que “em algumas circunstâncias, um governo autoritário pode ser melhor”.

Estes grupos, como se vê, são contudo minoritários. E a aposta de Bolsonaro por seu eleitorado mais radical pode já estar esbarrando na realidade brasileira. De fato, entre as classes mais pobres, já se observa o “bolsonarismo arrependido”, como constata a pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado em artigo publicado no site “Intercept”.

“Há uma significativa desilusão bolsonarista – representada no declínio de 18% de aprovação entre as últimas duas pesquisas Ibope justamente entre os estratos sociais que ganham de 2 a 5 salários mínimos. Este grupo não viu ainda a situação de emprego melhorar e tampouco sentiu os efeitos práticos nem do decreto presidencial de facilitação da posse armas, nem no preço de uma Taurus. Acima de tudo, o trabalhador precarizado quer segurança e renda”, analisa.

Já entre a parte mais rica do eleitorado, a paciência com o governo é maior: 45% aprova Bolsonaro e suas atitudes no cargo. As primeiras vaias na final da Copa América, em um Maracanã lotado e com ingressos ao preço mínimo de R$ 200, apontam, entretanto, para uma possível mudança de ventos inclusive nesse grupo. Nesse caso, Bolsonaro talvez se veja obrigado a readequar a sua estratégia, sob o risco de, como aconteceu com Aécio Neves (PSDB) e Michel Temer (MDB), desaparecer ante a opinião pública.

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