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'INIMIGA DO BRASIL'

Bolsonaro copia Trump, Maduro e Duterte em ataques ao jornalismo

Ao igualar cobertura crítica do governo à oposição política, presidente ignora papel do jornalismo em regimes democráticos

Bolsonaro copia Trump, Maduro e Duterte em ataques ao jornalismo
Bolsonaro tem classificado a imprensa como ‘inimiga do Brasil’ (Foto: Alan Santos/PR)

Ataques a jornais e jornalistas tornaram-se uma prática diária do governo Bolsonaro. Seja em coletivas de imprensa ou em comentários em suas páginas nas redes sociais, o presidente elegeu a imprensa (ao lado de ambientalistas, professores, defensores dos direitos humanos etc.) como inimiga do governo – “inimiga do Brasil”, diz, intencionalmente confundindo os interesses de sua gestão, os seus próprios e os de seus familiares, com os do país.

O método é simplório. A parcela da imprensa que mantém uma cobertura minimamente crítica e independente dos atos do governo – Folha, Estado de S.Paulo, a Rede Globo, entre outros – é desqualificada como “esquerdista”, tendo alguns de seus jornalistas, em uma atitude que anos atrás seria impensável vinda do governante de um país democrático, publicamente caluniados pelo presidente.

O caso mais conhecido é o de Miriam Leitão, comentarista de economia da GloboNews – área em que Bolsonaro muito prometeu durante a campanha eleitoral, mas, até então, pouco entregou em resultados concretos para a maioria da população.

Ao comentar as ameaças de morte que Miriam vem sofrendo por parte de bolsonaristas na internet, Bolsonaro atiçou seus apoiadores. Afirmou que a jornalista, presa e torturada durante a ditadura militar de que ele é saudoso, mentiu sobre essas ocorrências. Miriam tinha, na época, 19 anos, e estava grávida. Os crimes da ditadura foram reconhecidos pela Comissão da Verdade, constituída pelo governo, e que o presidente também acusa de mentirosa.

Por outro lado, os veículos de mídia que abraçaram as causas do governo – SBT, Record e Band – são tratadas como amigas do presidente. Ao pequeno grupo de jornalistas e apresentadores alinhados à sua ideologia – Datena, Ratinho, Sílvio Santos, Alexandre Garcia – Bolsonaro e seus filhos concedem entrevistas exclusivas e intimistas, sem as perguntas incômodas que jornalistas sérios poderiam fazer.

Se a estratégia do presidente é preocupante e, em casos como o de Miriam Leitão, causa asco, no entanto, ela não é original. Nicolás Maduro, na Venezuela, Rodrigo Duterte, nas Filipinas, e Donald Trump, nos EUA, fazem o mesmo. Em comum, estes governantes deliberadamente buscam jogar a população contra os jornalistas, classificando de “oposição” aquilo que é parte do papel destes profissionais: questionar e investigar o que fazem os poderosos.

Jim Acosta, repórter da CNN, rede de televisão acusada por Trump de ser “inimiga do povo”, avalia, em entrevista à Folha, que tal estratégia é uma tentativa de neutralizar críticas justas ao governo.

“A imprensa não é oposição, a imprensa existe para fazer um trabalho. Estamos aqui para mantê-los sob pressão, para responsabilizá-los, para obrigá-los a dizer a verdade. Fica claro da minha parte que o presidente Trump não gosta de ser questionado, não gosta de ser chamado de um líder desonesto, que engana o público”.

E Trump vem fazendo escola: um levantamento recente do jornal New York Times aponta que, nos últimos anos, mais de 50 primeiros-ministros e presidentes em todo o mundo utilizaram o termo “fake news” para tratar de notícias negativas para seus governos.

A. G. Zulzeberger, editor-chefe do jornal, dá exemplos desse uso estratégico por líderes políticos:

“O termo [fake news] foi usado pelo primeiro-ministro Viktor Orban, da Hungria, e pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, que aplicaram multas maciças para forçar organizações de notícias independentes a atender aos fiéis ao governo. Tem sido usada pelo presidente Nicolás Maduro na Venezuela e pelo presidente Rodrigo Duterte nas Filipinas, que atacaram a imprensa enquanto lideravam repressões sangrentas a protestos contra o governo”.

E prossegue: “Em Mianmar, a frase é usada para negar a existência de um povo inteiro que é alvo sistematicamente de violência para forçá-lo a sair de seu país. ‘Não existe essa coisa de rohingya’, disse um líder em Mianmar ao New York Times. ‘São notícias falsas.’
A frase foi usada para prender jornalistas nos Camarões, para suprimir histórias sobre corrupção no Malawi, para justificar um apagão das redes sociais no Chade, para impedir que organizações de notícias estrangeiras operem no Burundi”.

Trump e Bolsonaro, ao contrário de Maduro, Erdogan e Duterte, têm mantido, por enquanto, a tensão com a imprensa apenas pela via retórica, atacando verbalmente jornalistas e publicações – o que, contudo, inflama seus apoiadores a irem além, como as ameaças de morte à Miriam Leitão comprovam.

O perigo embrionário dessa estratégia foi lembrado, curiosamente, por um senador republicano, do partido de Donald Trump, e ex-candidato à presidência dos EUA, John McCain: “Quando você examina a história, a primeira coisa que os ditadores fazem é fechar a imprensa”.

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