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Bolsonaro, da euforia do crescimento à estagnação econômica

Em seis meses de governo, economistas viram frustradas suas expectativas e já tratam 2019 como 'ano perdido'

Bolsonaro, da euforia do crescimento à estagnação econômica
Qualquer melhora, quando vier, será lenta, analisou o BC em comunicado à imprensa e investidores (Foto: EBC)

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Antes do segundo turno das eleições de 2018, economistas liberais, executivos de grandes empresas e operadores das bolsas de valores pareciam enxergar uma única diferença entre os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT): o primeiro seria um defensor das reformas fiscais na economia; o segundo, não. Daí que qualquer oscilação favorável ao petista nas pesquisas eleitorais redundava em quedas na bolsa e altas no dólar.

Eleição encerrada, “o mercado” animou-se: falava-se em crescimento de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, um verdadeiro salto para um país que, desde 2017, vinha em um processo de lenta recuperação. A aposta dos otimistas era a de que Bolsonaro confiaria a Paulo Guedes toda e qualquer decisão econômica, e que o Congresso, formado majoritariamente por deputados e senadores alinhados aos interesses dos grandes empresários, atuaria em sintonia com o novo presidente.

A incapacidade de Bolsonaro em negociar, seu histórico em votações anti-liberais e estatizantes enquanto deputado, seu desconhecimento proativo de economia, tudo foi posto de lado em nome desse otimismo que, vemos hoje, era injustificável.

Por dezessete semanas consecutivas – e contando -, as agências e instituições financeiras que estimam o crescimento da economia brasileira revisaram para baixo suas expectativas. Dos 2,5% de outubro, falam agora em uma alta de 0,8%. Outros são mais pessimistas (ou realistas) ante os resultados do primeiro trimestre: dados do Banco Central apontam que o PIB diminuiu 0,2% de janeiro a março, resultado que deve se repetir no segundo semestre, o que configuraria uma “recessão técnica”.

O que explica, então, esse desencontro entre as expectativas pós-eleições e os resultados efetivos da economia?

Antes da posse de Bolsonaro, o cientista político Carlos Melo, do Insper, já especulava, em entrevista ao jornal Globo, sobre o que hoje é óbvio. “Se o governo não mostrar força no Congresso, pode haver reversão forte nas expectativas, que estão positivas hoje com o novo governo. Isso pode frear investimentos, tirar valor do Brasil. Vai ser muito ruim para economia, um desastre. A futura equipe econômica tem clareza dos desafios da economia, mas os representantes políticos estão dando sinais dúbios”, avaliou.

Entre compor maioria com o Congresso eleito a acusá-lo de “velha política”, Bolsonaro preferiu a segunda opção. O resultado é o lento caminhar da reforma da Previdência, pauta prioritária da equipe econômica de Guedes, que também é culpada pela reversão nas expectativas de que fala Melo. Promessas irreais como zerar o déficit público em um ano ou arrecadar R$ 1 trilhão com privatizações – que também dependem do Congresso – são parte da explicação da transformação da euforia em decepção entre os liberais que embarcaram no projeto bolsonarista.

E a decepção é tanta que nomes do mercado como José Mendonça de Barros, fundador da MB Associados, já tratam 2019 como um “ano perdido”. Em entrevista à Exame, o economista credita o mau desempenho, também, à falta de comprometimento de Bolsonaro com a reforma da Previdência. “Primeiro, ele disse que preferia não fazer a reforma, agora, a regra para aposentadoria rural e o BPC [auxílio previdenciário aos mais pobres] já estão fora antes de começar a tramitação praticamente. Isso é um problema. Acaba com o discurso de que todo mundo vai ter sacrifício”, diz Barros.

O colunista José Casado, do Globo, é outro que enxerga na atuação do presidente parte na culpa pelo “derretimento” da economia nacional. “Bolsonaro se entretém na caça a fantasmas do sepultado comunismo, estimulando sectarismo e manifestações de apoio ao governo. Em seis meses, da sua caneta saiu apenas uma iniciativa para imediata criação de empregos — na produção de armas”, escreveu.

Alguns números dão a dimensão da recessão: os 12 milhões de desempregados em outubro do ano passado são, agora, 13,4 milhões, isto é, 12,5% da população economicamente ativa, aponta o IBGE; a inadimplência de micro e pequenas empresas bateu recorde em março, alcançando 5,38 milhões de estabelecimentos, de acordo com dados da Serasa, o que significa uma alta de 6,9% em comparação ao mesmo mês de 2018; e 72% dos setores industriais, de veículos a eletrônicos, alimentos e máquinas, apresenta queda na produção em dez dos 15 estados com base industrial, também segundo o IBGE.

“Os constrangimentos promovidos por membros do primeiro escalão do governo – e também pelo presidente Jair Bolsonaro – estão na raiz do desempenho pífio da economia”, afirma a repórter de economia da Folha de S.Paulo Raquel Landim, que prossegue: “os investimentos estão em queda. E por que os empresários não estão investindo? Simplesmente porque não confiam no governo”.

De fato, em maio deste ano o Brasil deixou de integrar rankings importantes de confiabilidade de investimentos, como o realizado pela consultoria A.T.Kearney, que lista os 25 melhores destinos para se investir. É a primeira vez desde 1998 que o país não é mencionado na lista.

Qualquer melhora, quando vier, será lenta, analisou o Banco Central em comunicado à imprensa e aos investidores. E pela dinâmica da economia, a retomada dos empregos deverá tomar ainda mais tempo, explicou, em entrevista ao jornal Estado de S.Paulo, José Claudio Securato, economista que comandou durante 15 anos as áreas de fusões e aquisições dos bancos Deutsche Bank e do BNP Paribas.

“O mercado de trabalho não melhorou e não vai melhorar ao longo de 2019. A explicação para isso se deve à maneira como cada variável do cenário macroeconômico se comporta. Quando a gente compara cada uma delas, em velocidades diferentes, a variável emprego é a última a se movimentar no cenário econômico, seja num cenário positivo ou negativo”.

Em meio ao desalento, não surpreende que o apoio ao governo tenha diminuído em todas as faixas sociais, como apontam pesquisas de opinião realizadas pelo Ibope e Datafolha. Com a produção industrial decaindo e o consumo das famílias em baixa, a equipe econômica já estuda lançar mão da medida já testada na gestão de Michel Temer: liberar o saque das contas inativas do FGTS para injetar dinheiro no país. Esse expediente, no entanto, é considerado paliativo, e não será o bastante para reavivar a economia brasileira.

Para Carlos Kawall, economista-chefe do banco Safra, a dinâmica política dos últimos anos é outra das explicações da decadência econômica. Isso porque o país, disse ele em entrevista à Folha, está há anos em uma dinâmica de “eventos binários”. “Vai ter impeachment ou não? Vai ganhar candidato reformista ou não? Vai aprovar a Previdência ou não? Estamos sempre no limite do abismo”, disse.

Questionado pela imprensa sobre a queda nas expectativas em torno do PIB, Bolsonaro se saiu com essa: “Já falei que não entendo de economia?”

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2 Opiniões

  1. Rogério Freitas disse:

    Quem acreditou nas promessas de campanha e elegeu Bolsonaro pode-se consolar participando das manifestaçoes que certamente serão mais frequentes. Muda Brasil!

  2. jayme endebo disse:

    O Brasil teve a maior recessão de sua história nos governos anteriores e os gênios querem que bolsonaro faça crescer a economia nos primeiros meses de governo.É muita desonestidade intelectual e mau caratismo.

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