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POLÍTICA AMBIENTAL

Bolsonaro é ‘vilão’ e ‘ameça à Amazônia’ na imprensa internacional

Atenção dos principais veículos de mídia do mundo se volta para a Amazônia; jornais estrangeiros sugerem boicote a produtos vinculados ao desmatamento

Bolsonaro é ‘vilão’ e ‘ameça à Amazônia’ na imprensa internacional
As críticas, contudo, não parecem incomodar o presidente – ao contrário, ele parece procurar por elas (Foto: Flickr/Ibama)

A guerra declarada de Jair Bolsonaro (PSL) às estatísticas que atestam o aumento desenfreado do desmatamento na floresta amazônica e sua sanha em permitir a exploração de terras indígenas e reservas ambientais por mineradoras, madeireiras e pela indústria agropecuária têm ganhado destaque na imprensa estrangeira.

Veículos como o The Guardian, principal jornal britânico, a The Economist, “bíblia” do liberalismo político e econômico, o El País espanhol e o The New York Times trataram da política ambiental do governo brasileiro em editoriais e reportagens de capa. E se o presidente e seus apoiadores acham que a mídia brasileira tem sido dura com a nova gestão, a leitura do que têm sido publicado nestes jornais tampouco os agradará.

Para o The New York Times, Bolsonaro, “um líder populista nos moldes do presidente Trump”, representa “a maior ameaça” à floresta amazônica desde a ditadura militar. Em editorial, o jornal credita o aumento do desmatamento às políticas do governo de “enfraquecer leis que protegem o meio ambiente, o direito do indígena à terra, as organizações não governamentais e basicamente qualquer um que não concorde com a exploração da floresta”.

Poucos dias depois, o mesmo jornal publicou novo editorial chamando a comunidade internacional à “salvar a Amazônia de Bolsonaro”, já que as consequências da destruição da floresta impactariam não só no Brasil, mas no clima de todo o planeta.

O chamamento para uma resposta dos atores globais à permissividade do governo brasileiro com o desmatamento, inclusive, tem sido recorrente em influentes publicações mundo afora.

A revista The Economist, em reportagem de capa, ressaltou que o processo de desertificação que atinge parte da Amazônia, fruto do desmatamento predatório, se aproxima de um ponto irreversível. E afirma: “O presidente brasileiro está apressando esse processo em nome do que ele afirma ser desenvolvimento”.

Conclui, então, convocando um boicote aos produtos importados brasileiros: “O mundo precisa deixar claro ao sr. Bolsonaro que seu vandalismo não será tolerado. A indústria alimentícia, pressionada por consumidores, deveria banir a carne produzida em terras amazônicas. Os parceiros do Brasil deveriam também condicionar os acordos comerciais ao respeito ao meio ambiente”.

As críticas, contudo, não parecem incomodar o presidente – ao contrário, ele parece mesmo disposto a procurar por elas.

Em um café com jornalistas de veículos estrangeiros, Bolsonaro ironizou perguntas relativas à sua política ambiental, afirmando que não aceitará “lições” dos  europeus. E afirmou que os jornalistas estavam “envenenados” por “notícias falsas” sobre o desmatamento.

Tais “notícias falsas”, atacou Bolsonaro, eram os dados oficiais coletados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), um dos principais órgãos científicos do governo e responsável por monitorar a região amazônica via satélite.

O presidente acusou “maus brasileiros” pela divulgação dos números que deixavam sua gestão “em saia justa”, e insinuou que Ricardo Galvão, um dos físicos mais respeitados do país e que chefiava o Inpe, atuava em favor de ONGs – dias depois, Galvão seria demitido.

A intervenção no Inpe não passou desapercebida na imprensa internacional.

“A intenção indisfarçada do governo é censurar o Inpe e criar um sistema de monitoramento afinado com o mundo ficcional bolsonarista”, criticou o espanhol El País, que completa: “mas os avanços na tecnologia de sensoriamento remoto praticamente condenaram o esforço do presidente, impondo um choque de realidade à ficção presidencial”.

O jornal chama a atenção para a reação de Galvão aos comentários do presidente – o ex-chefe do Inpe disse que Bolsonaro fora “covarde” e que tratava de um assunto científico “como se estivesse no botequim”.

O caso também ganhou as páginas da imprensa alemã. O jornal Die Zeit informou que o desmatamento na floresta amazônica cresceu quatro vezes no atual governo em relação aos últimos anos. Já o Der Tagesspiegel lamentou a demissão de “um dos cientistas mais renomados do Brasil” por divulgar verdades “que não agradam os extremistas de direita”.

O inglês The Guardian, por sua vez, tocou na inversão de prioridades do governo: “A floresta amazônica está sendo destruída em níveis alarmantes, mas Jair Bolsonaro prefere focar na reinterpretação das estatísticas em vez atacar suas causas”.

O Brasil como ameaça

Desde os anos 1990, o Brasil se firmou como uma importante voz no debate sobre o aquecimento global, intermediando acordos internacionais que visam a diminuição da emissão de gases que provocam o efeito estufa.

Em que pesem erros pontuais, as políticas ambientais de Itamar Franco, FHC, Lula e Dilma fizeram do país um exemplo na preservação de florestas, o que serviu de trunfo, também, em negociações diplomáticas e comerciais.

Desde a posse de Jair Bolsonaro, no entanto, o Brasil passou a ocupar outro lugar no imaginário internacional: o de ameaça.

O periódico estadunidense The New Republic é contundente ao tratar do tema: para o jornal, os EUA deveriam se preocupar mais com as consequências do desmatamento amazônico do que com os planos nucleares iranianos ou os projetos de poder da China.

Os chineses, maiores parceiros comerciais do Brasil, inclusive, também voltam seus olhos para a nova política ambiental de brasileira. Afirma o site China.org: “Desde que Jair Bolsonaro tomou posse, o lobby ambiental global vem emitindo repetidos sinais de emergência sobre perigos potencialmente graves para o futuro da Amazônia, como resultado das políticas de um presidente eleito em clara agenda anti-ambiental e anti-indígena”.

O já citado El País vai além: Bolsonaro, seguindo o exemplo de Trump, é o “novo vilão para o planeta”. Para respaldar a afirmação, o editorialista espanhol apresenta o espantoso número divulgado pelo Inpe: em julho deste ano, o desmatamento superou em 278% o de 2018.

Mesmo na Nasa, a agência aeroespacial estadunidense, há preocupação sobre a forma como o Brasil vem conduzindo o assunto. Em entrevista à rede britânica BBC, Douglas Morton, diretor do laboratório de ciências biosféricas da Nasa, classificou como “alarmante” a demissão de Ricardo Galvão do Inpe. E resumiu o sentimento internacional em torno do assunto: “Não acredito que o presidente Jair Bolsonaro duvide dos dados produzidos pelo Inpe, como diz. Na verdade, para ele, são inconvenientes. Os dados são inquestionáveis”.

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6 Opiniões

  1. Jairo Siqueira disse:

    As atitudes de Bolsonaro em relação ao desmatamento são tolas e incoerentes. Se ele pretende explorar as riquezas minerais da Amazônia, deveria passar uma mensagem de que se preocupa com o meio ambiente e se compromete com uma exploração sustentável e responsável, tanto com a preservação da floresta como a proteção das comunidades indígenas. Da forma como fala e age, acabará por afastar os investidores sérios, só restando garimpeiros e aventureiros irresponsáveis. De todo modo permanece a dúvida: Há uma estratégia nesta loucura, ou uma loucura nesta estratégia?

  2. Roberto Henry Ebelt disse:

    Se BOLSONARO desagrada THE GUARDIAN, NEW YORK TIMES, DIE ZEIT, THE ECONOMIST e outras publicações de esquerda, podem ter certeza que é coisa boa para nós, brasileiros.

  3. Jorge Cardillo disse:

    Concordo com o Roberto H. Ebelt.

    As ONGs interessadas na Amazônia estão difamando o Brasil com interesses escusos. Como o Bolsonaro disse, porque também não atuam no Nordeste ?

  4. Rogério Freitas disse:

    Mais uma questão para os desinformados: dados reais sobre o desmatamento e dados reais sobre os efeitos do desmatamento estão sendo desconsiderados em favor de um “desenvolvimento” que contibui para o fim do planeta terra.
    Os bem informados percebem um regresso, não um desenvolvimento.

  5. Leonora Hermes Luz disse:

    Roberto Henry Ebelt, as mídias acima não são de esquerda nem de direita, são mídias, ponto.
    As estatísticas das imagens feitas por satélites são claras quanto ao aumento brutal do desmatamento. A intenção igualmente clara e anunciada do governo é de desmatar de 15 a 30% da Amazônia em prol da mineração, gado e agronegócio, seja por empresas nacionais ou internacionais.
    O desmatamento não é benéfico em nenhum lugar do planeta a essas alturas do campeonato.
    Há alternativas para produção de energia e alimentos.
    Não se trata de ideologia política, mas da sobrevivência humana e do planeta que habitamos.

  6. Almanakut Brasil disse:

    Imprensa internacional canalha não é diferente da nacional.

    Por isso que esse comentário e a página toda foi fotografada, para posteriormente ser mostrada nas redes sociais.

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