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MEIO AMBIENTE

Bolsonaro questiona intenção em ajuda internacional à Amazônia

‘Será que alguém ajuda alguém, sem retorno?’ diz presidente em relação à ajuda oferecida por líderes do G7 para combater queimadas na Amazônia

Bolsonaro questiona intenção em ajuda internacional à Amazônia
G7 prometeu uma ajuda financeira de 20 milhões de euros para a região amazônica (Foto: Frederico Mellado/ARG)

O presidente Jair Bolsonaro questionou, na manhã desta segunda-feira, 26, as intenções por trás do oferecimento de ajuda internacional à região amazônica, que vem sendo castigada por queimadas.

A ajuda financeira internacional à qual Bolsonaro se refere é de US$ 20 milhões, prometida pelos líderes do G7, segundo à agência de notícias Reuters. O valor teria sido anunciado pelo presidente da França, Emmanuel Macron. A cifra seria providenciada pelos líderes do grupo.

“Macron promete ajuda de países ricos à Amazônia. Será que alguém ajuda alguém — a não ser uma pessoa pobre, né? — sem retorno? Quem é que está de olho na Amazônia? O que eles querem lá?”, questionou Bolsonaro a jornalistas. Sem responder às perguntas feitas por repórteres, o presidente voltou a destacar que não está preocupado com reeleição.

A ajuda internacional foi debatida durante a reunião do G7, ocorrida ao longo do último final de semana, na França. Na última semana, diferentes membros da comunidade internacional já haviam expressado preocupação com relação aos incêndios na Amazônia, prontificando-se a ajudar. No último domingo, 25, Bolsonaro aceitou a ajuda do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.

Pelas redes sociais, Bolsonaro voltou a falar sobre a questão da Amazônia na manhã desta segunda-feira. Em um primeiro momento, revelou uma conversa com o presidente da Colômbia, Iván Duque, na qual foi debatida a intenção de criar um plano conjunto entre os países que integram a Amazônia. Em seguida, voltou a falar sobre as “intenções” de Macron.

“Não podemos aceitar que um presidente, Macron, dispare ataques descabidos e gratuitos à Amazônia, nem que disfarce suas intenções atrás da ideia de uma ‘aliança’ dos países do G-7 para ‘salvar’ a Amazônia, como se fôssemos uma colônia ou uma terra de ninguém”, escreveu Bolsonaro.

Macron x Bolsonaro

Macron e Bolsonaro tem protagonizado um dos mais intensos debates em relação à região amazônica já vistos. A tensa relação dos presidentes em relação ao meio ambiente é antiga, datando da pós-eleição presidencial de Bolsonaro.

Na época, a pressão sobre Bolsonaro tinha como foco o Acordo de Paris. Durante a reunião da cúpula do G20 em Buenos Aires, na Argentina, em uma conversa com o presidente Mauricio Macri, Macron defendeu um acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, mas pediu atenção ao recém-eleito presidente do Brasil.

Isso porque Bolsonaro deu várias declarações em relação a mudanças na política ambiental, inclusive destacando a possibilidade de retirar o Brasil do Acordo de Paris. Devido a essa declaração, Macron afirmou que não era “favorável a assinar entendimentos com países que dizem claramente que não o respeitarão [o Acordo de Paris]”, fazendo menção ao pacto Mercosul-União Europeia.

As preocupações de Macron em relação ao Acordo de Paris só foram acalmadas no Fórum Econômico Mundial, a primeira viagem internacional de Bolsonaro. Na ocasião, o presidente brasileiro destacou que permaneceria no pacto.

A tensão entre os presidentes, porém, parecia ter se dissipado na cúpula do G20, ocorrida em Osaka, no Japão, no final do último mês de junho. Na ocasião, Bolsonaro e Macron teriam se reunido e conversado ao longo de 20 minutos, com o brasileiro destacando que manteria o Brasil no Acordo de Paris.

No entanto, após a assinatura do acordo comercial Mercosul-União Europeia, a relação entre Brasil e França tornou a desandar. Poucos dias após a assinatura do pacto, o porta-voz do governo francês, Sibeth Ndiaye, colocou em xeque a ratificação do documento. O motivo, mais uma vez, seria a política ambiental do governo Bolsonaro.

Já no fim de julho, Bolsonaro cancelou uma reunião com o chanceler francês Jean-Yves Le Drian. O presidente brasileiro alegou um “problema de agenda”, mas apareceu em um vídeo ao vivo nas redes sociais cortando o cabelo. Mesmo ironizando a “urgência capilar” de Bolsonaro, Le Drian considerou positiva a viagem ao Brasil.

A tensão entre Bolsonaro e Macron reacendeu na última semana, quando o presidente francês usou as redes sociais para chamar a atenção para as queimadas na Amazônia. Dessa forma, Macron começou uma campanha para levar o debate ao G7 e ameaçou não assinar o acordo entre Mercosul e União Europeia.

Bolsonaro não gostou das críticas e passou a rebater. No último domingo, 25, compartilhou um vídeo nas redes sociais sobre a reunião do G7, na qual os líderes dialogam sobre telefonar para o presidente brasileiro para “não dar a impressão que estamos contra ele”. Na publicação, o presidente destacou que desde o início buscou o diálogo com os líderes do G7.

Intenções ocultas

Bolsonaro não esclareceu em nenhum momento quais intenções ocultas ele se refere ao falar das ações de Macron sobre a Amazônia. No entanto, analisa-se que o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia pode atingir o setor agrícola europeu.

O Brasil é o maior exportador de carne bovina do mundo, e a União Europeia é o seu terceiro maior cliente, tendo importado 58,9 mil toneladas do produto nos sete primeiros meses de 2019, totalizando US$ 336,3 milhões. O pacto entre os blocos econômicos pode ajudar o mercado brasileiro a expandir nesse sentido, mesmo que o acordo já estabeleça limites para setores competitivos, como é o caso da carne bovina.

Por outro lado, a França é a principal potência agrícola da União Europeia, tendo uma concorrência direta com o mercado brasileiro. A Irlanda, que também ameaçou não assinar o acordo Mercosul-UE, também é uma grande produtora de carne.

Em entrevista ao portal G1, o professor de relações internacionais Carlos Frederico Coelho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), diz que a resistência de países ao acordo faz parte de um jogo político, que o Brasil não está sabendo jogar.

“A França é o país mais resistente [ao acordo Mercosul-UE] e o que o governo federal fez foi dar combustível para essas questões, atacando os líderes europeus de maneira explícita e com um recuo muito lento. […] Não tem mocinhos. Macron não é inocente, mas é o jogo da política internacional. Houve inabilidade do governo federal e estamos pagando o preço”, disse o professor ao G1.

“Dia do fogo”

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram registrados 25.934 focos de incêndio nos 25 primeiros dias de agosto. O número superou a média histórica do mês, de 25.853, e se tornou o maior registro desde 2010, quando houve 45.018 focos de incêndio.

A expectativa é que o número suba até o final do mês. Desde que os registros começaram, em 1998, o pior mês de agosto foi em 2005, quando foram detectados 63.764 focos de incêndio.

Os dados do Inpe foram confirmados pela agência espacial americana (Nasa). De acordo com a entidade, 2019 é o pior ano de queimadas na Amazônia brasileira desde 2010.

Um dos responsáveis por esse aumento pode ter sido o chamado “Dia do fogo”, um movimento convocado pelo WhatsApp para iniciar incêndios em Altamira (PA). O caso está sendo investigado pela Polícia Federal.

O “dia do fogo” teria contado com a participação, direta e indireta, de mais de 70 pessoas, entre sindicalistas, produtores rurais e comerciantes. Eles teriam combinado de começar incêndios às margens da BR-163, que liga Altamira e Novo Progresso aos portos do Rio Tapajós. Caso a participação de produtores rurais seja confirmada, derrubará a hipótese do governo de que “ongueiros” poderiam estar por trás das queimadas.

Segundo uma reportagem do Globo Rural, o movimento visava expressar apoio ao presidente Jair Bolsonaro e sua política ambiental. As delegacias de municípios do Pará já registraram várias denúncias de produtores rurais que se dizem prejudicados pelas queimadas.

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Fontes:
Reuters-Bolsonaro questiona intenções por trás de ajuda internacional para Amazônia
G1-Macron promete que G7 enviará 20 milhões de euros para ajudar no combate a queimadas
DW-Focos de incêndio superam média histórica de agosto, diz Inpe

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