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POLÍTICA E MEIO AMBIENTE

Bolsonaro, Trump e o ‘climatismo’

Adesão de líderes mundiais ao ‘negacionismo climático’ ameaça viabilidade do Acordo de Paris e coloca em risco preservação do meio ambiente

Bolsonaro, Trump e o ‘climatismo’
Bolsonaro e Trump têm posicionamentos similares quanto às mudanças climáticas (Foto: Twitter/Jair Bolsonaro)

Um relatório divulgado em novembro pela Casa Branca, que compilou estudos de mais de 300 cientistas associados a 13 agências federais dos Estados Unidos, adverte: a temperatura média do planeta está aumentando mais do que o normal, é verificável que isso se passa por ação humana, e caso a tendência não seja revertida o efeito será cada vez mais devastador para a economia, o meio ambiente e para a saúde das pessoas.

Líderes mundiais ligados à extrema-direita em ascensão, no entanto, veem a questão de outra forma. O “discurso do aquecimento global”, afirmam, embora conte com a adesão da avassaladora maioria da comunidade científica, trata-se de um “dogma esquerdista” que visa brecar o progresso e colocar fim ao capitalismo.

Essa estranha teoria, com um ou outro acento regional, goza do apoio de Donald Trump nos EUA (que disse “não acreditar” nas 1.656 páginas do relatório da Casa Branca, onde ele reside), e tem agora em Jair Bolsonaro, seu representante brasileiro.
Difundido por organizações e think tanks conservadores, como o estadunidense Heartland Institute – que, conforme revelou em fevereiro de 2012 o jornal inglês Guardian, é financiado pelas mais ricas petroleiras do mundo – o negacionismo climático vem ganhando terreno na política nos últimos anos. Seu próximo objetivo parece ser minar a viabilidade do Acordo de Paris, tratado que envolveu 195 países em 2016 e prevê a limitação do desmatamento e da emissão de gases estufa para conter o aquecimento global.

O consenso científico e a nova direita

Foi em 1990, quando da publicação do Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e a Organização Meteorológica Mundial, que a comunidade científica reconheceu que a interferência humana na dinâmica climática se tornará um risco à própria humanidade, caso o fenômeno não seja rapidamente controlado.

Mais ou menos na mesma época, cientistas de reputação questionável ligados a lobbies da indústria petroleira, carvoeira e do agronegócio, passaram a questionar o consenso, gerando ruídos na comunicação da questão ambiental, que já então requeria ações imediatas de instituições e governos.

Incapazes de rebater as medições dos níveis de carbono na atmosfera – dado factual que atesta o papel da poluição na alta das temperaturas médias da Terra – esses estudiosos ganharam espaço na mídia lançando mão de sensos comuns da ciência, tais como: a temperatura do planeta sempre oscilou; sem o carbono na atmosfera a vida humana seria inviável; e não haveria informações suficientes para se afirmar, sem sombra de dúvidas, que o aquecimento global é um perigo iminente.

“Como aqueles seus colegas que negavam que o vírus HIV provocasse a AIDS ou o cigarro o câncer de pulmão, eles trouxeram ‘boas noticias’ que sensibilizam gente que não deseja ouvir verdades inconvenientes”, avalia Alfredo Sirkis, secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Foram estudiosos como esses que emprestaram o verniz intelectual que, agora, integrantes da nova direita alardeiam na construção retórica do “ceticismo climático”.

O deputado alemão Karsten Hilse, do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), por exemplo, disse recentemente que “não acredita no aquecimento global”.

Uma vez que, para ele, o fenômeno do qual falam centenas de cientistas não passa de “uma religião ambiental irracional que força os cidadãos a pagar, em todo o mundo, por pecados climáticos imaginários”, a Alemanha – um dos países que lidera esforços para reduzir emissões de dióxido de carbono, um dos principais “gases estufa” – deveria se retirar do Acordo de Paris em nome da prosperidade da economia industrial.

Na mesma direção, Jair Bolsonaro opina que a política ambiental está “sufocando o Brasil”, enquanto Ernesto Araújo, seu indicado para o ministério das Relações Exteriores, diz ver no “alarmismo climático” traços de “marxismo cultural”.

Por trás da retórica, escondem-se interesses de grandes proprietários de terras e mineradoras multinacionais. Deixar o Acordo de Paris, para eles, é uma das etapas na flexibilização das regras que protegem a floresta amazônica do desmatamento.

Os olhos se voltam para o Brasil

Embora a vitória de Bolsonaro nas eleições tenha significado a coroação do ceticismo climático no Brasil, seus adeptos, tão bem representados pela bancada ruralista no Congresso, alcançaram êxitos não menos importantes nos últimos anos.

Por pressão dos quase 250 deputados e 40 senadores que defendem interesses do agronegócio em Brasília, o Ministério do Meio Ambiente perdeu, em uma canetada de Michel Temer em 2017, quase metade de seus recursos. Na prática, isso redunda em menor poder de fiscalização em áreas de proteção ambiental.

Não por coincidência, no último biênio a emissão de gases estufa no Brasil aumentou 8,9% em relação a 2015. Também a taxa de desmatamento da floresta amazônica apresentou, em 2017, a maior alta em uma década. Na gasta metáfora futebolística, foi devastada, em um ano, uma área correspondente a 987 mil Maracanãs.

Vista como repositório ambiental do planeta, a situação da Amazônia pode se deteriorar ainda mais nos próximos quatro anos. Bolsonaro, que já foi multado pelo Ibama por pesca ilegal, afirmou que pretende diminuir o poder fiscalizador do instituto – “uma indústria da multa”, criticou o futuro presidente.

Outro mecanismo usado para travar a ampliação da frente agropecuária, a demarcação de reservas ambientais e indígenas, está na mira do capitão reformado.

“Demarcações protegem a floresta e diminuem o desmatamento”, disse Luis Fernando Guedes Pinto, pesquisador do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola), em entrevista à BBC Brasil.

Isso porque, explica o agrônomo, a maior parte do desmatamento se dá nas “terras devolutas”.Isto é, terras públicas que não se tornaram terra indígena, nem reserva ambiental, nem propriedade privada de alguém. Na Amazônia, são 70 milhões de hectares de terras devolutas”, esclarece.

Além disso, o novo presidente e sua equipe sinalizam recuos em compromissos internacionais. O Rio de Janeiro, que iria sediar a Conferência do Clima de 2019, retirou de última hora sua candidatura por ordem de Bolsonaro, o que causou mal estar nos meios diplomáticos.

Já Onyx Lorenzoni, indicado para chefiar a Casa Civil do governo, atacou o trabalho de ONGs e o esforço internacional na preservação da Amazônia. “Os noruegueses têm que aprender com os brasileiros, e não a gente com eles”, disse. A Noruega, cabe lembrar, é um dos principais doadores do Fundo Amazônia, tendo destinado mais de R$ 3 bilhões em recursos para o Brasil nos últimos anos sob a condição de que o governo atue para controlar o desmatamento na floresta.

Por fim, o novo mandatário ameaça abandonar o Acordo de Paris, última tentativa de frear o aquecimento global. Embora Bolsonaro e seu filho tenham votado favoravelmente ao acordo em 2016, quando ele foi apreciado pelo Congresso, eles agora afirmam que o Acordo mina a soberania nacional. Isso porque uma de suas cláusulas estabeleceria, dizem, o corredor ecológico do Triplo A, que sai dos Andes e se estende até a Amazônia.

“Uma vez confirmado [o corredor ecológico], pelo Acordo de Paris, nós perderíamos a soberania nessa área, ou seja, perderíamos toda a região amazônica”, disse Bolsonaro. Nenhuma das 27 páginas do tratado, contudo, menciona o tal corredor.

Caso Bolsonaro persevere em sua intenção de deixar o Acordo, ele precisará do apoio da maioria do Congresso. E, para além dos irreversíveis danos ao meio ambiente, o abandono traria duras consequências para a economia nacional.

“Não sou a favor de que se assinem pactos comerciais com potências que não respeitem o Acordo de Paris” disse o presidente francês, Emannuel Macron, em reunião do G20. Atualmente, está em negociação um convênio entre o Mercosul e a União Europeia que chegaria à casa dos bilhões de euros. Assim, se os argumentos científicos não forem o bastante para convencer Bolsonaro, o pragmatismo econômico, talvez, o faça retroceder quanto ao Acordo de Paris.

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2 Opiniões

  1. Almanakut Brasil disse:

    Chega de PEÇONHENTOS comunistas!

    Ao Inferno o que é do Inferno.

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    Sinceramente eu acredito nos cientistas, pois o efeito estufa se ver em todo o universo e principalmente na grandes metrópoles.

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