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Brasil aposta no eucalipto transgênico: vale a pena o risco?

Brasil é o primeiro país a aprovar um tipo de eucalipto geneticamente modificado, tornando-se referência na área da biotecnologia e assumindo os riscos de uma tecnologia pouco explorada

Brasil aposta no eucalipto transgênico: vale a pena o risco?
O eucalipto é a cultura que ocupa a maior área plantada no Brasil: 5,5 milhões de hectares (Reprodução/Wikimedia)

Vem aí o H421. Não, não é a mais nova cepa da gripe suína, mas a primeira variedade transgênica de eucalipto aprovada no mundo para uso comercial, e justamente aqui no Brasil. Considerando-se que a medida é inédita, foi uma aprovação rápida: apenas um ano e três meses após uma empresa chamada Futuragene submeter um dossiê à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), solicitando a aprovação.

A Futuragene é o braço de biotecnologia da segunda maior fabricante mundial de celulose de eucalipto, a Suzano Papel e Celulose. Sua missão declarada é “potencializar as florestas da Suzano”. Pois bem, conseguiu. Seu H421 oferece um ganho de 20% na produtividade das plantações (a árvore produz 20% mais madeira), além de atingir maturidade em cinco anos e meio ao invés de sete, como o eucalipto convencional. Detentora da patente, a Suzano e seus parceiros serão, a princípio, os únicos beneficiados pela liberação do H421, anunciada na última quinta-feira, 9.

A Suzano afirma que o aumento da produtividade das suas florestas de eucalipto vai permitir uma redução das áreas de plantio e liberar terras para outros usos, como preservação ou produção de alimentos. Isso é improvável. Nas últimas décadas, o aumento das taxas de crescimento das árvores em plantações resultou na rápida expansão dessas plantações, não o contrário. Dados da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) mostram que o rendimento médio da madeira extraída de plantações dobrou entre 1990 e 2010, ao passo que a quantidade de terra ocupada por essas plantações também aumentou em 60%, de 97 milhões para 153 milhões de hectares. O eucalipto transgênico, que cresce mais rápido, é mais valioso economicamente, o que significa que as áreas onde ele é cultivado serão expandidas com vistas ao “aumento da competitividade do setor florestal brasileiro”, um dos benefícios listados pela Futuragene do ganho em produtividade.

A questão das abelhas

Parece ótima a ideia de aumentar a competitividade do setor florestal brasileiro, mas nem tudo são flores. As abelhas que o digam. Onde tem eucalipto, tem abelha. Ao contrário do feijão, soja, milho e outras culturas dominadas por transgênicos, o eucalipto é altamente visitado por elas.

Joelma Lambertucci, diretora da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), diz que o H421 ameaça contaminar todo o mel brasileiro vendido sob o rótulo de orgânico no exterior. Cerca de 80% do mel exportado pelo Brasil é vendido como orgânico. Na Europa, que tem uma política rígida com transgênicos, o H421 pode representar o fim das vendas do mel brasileiro, tanto na sua versão convencional como na orgânica. “A Europa só permite modificação genética em produtos alimentícios”, explica Joelma. “Como o pólen não é um alimento, se tiver um grão de pólen transgênico no mel, ele não será aceito nem como produto convencional”.

A Futuragene reconhece o risco e tem procurado conversar com a Abemel em busca de soluções. A empresa sugere, por exemplo, que o Brasil busque tornar as regras internacionais sobre orgânicos menos rígidas, sob o argumento de que os transgênicos devem chegar a várias culturas nos próximos anos. Mas, como a lei de orgânicos se aplica a todos os alimentos, a Abemel acha difícil os europeus darem ouvidos a qualquer lobby feito por produtores  e exportadores brasileiros de mel. “As chances de conseguirmos mudar essa legislação para todos os alimentos é zero”, diz Joelma.

Outra ideia — também descartada pela Abemel — é a possibilidade de isolar os plantios com barreiras naturais para manter colmeias longe das árvores transgênicas.  “Isso é loucura”, diz Joelma. “Diferentemente do que ocorre com o gado, que se você confinar em uma área não vai sair voando, as abelhas voam até três quilômetros. Não há como ter certeza de que elas não estarão ali.”

Sistemas hídricos

Em tempos de crise hídrica, outra preocupação é o impacto do transgênico de crescimento acelerado sobre os recursos hídricos e os nutrientes do solo das plantações. “O eucalipto convencional já é conhecido como uma árvore gulosa devido ao seu consumo pesado de água e nutrientes do solo”, diz Anne Peterman, diretora da ONG Global Justice Ecology Project, contrária à engenharia genética de plantas. “O eucalipto que cresce mais rápido irá esgotar recursos ainda mais rápido também”.

É algo a se pensar, tendo em vista que o eucalipto é a cultura que ocupa a maior área plantada no Brasil, cerca de 5,5 milhões de hectares, segundo dados de 2013 da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá).

 

Caro leitor:

O Brasil está certo em apostar em tecnologias de modificação genética para o setor florestal?

Os benefícios de se tornar o primeiro país a comercializar árvores de eucalipto transgênicas superam os riscos?

A questão das abelhas deve pesar na balança?

 

 

 

10 Opiniões

  1. André Luiz disse:

    A transgenia é difundida em nosso planeta desde que os primeiros serem vivos se instalaram. Antes as mutações transgênicas eram naturais, aliás, elas, ainda, acontecem, e podem, ou não, impactar o meio ambiente de forma positiva ou negativa.” — Luiz Garcia, você está confundindo as coisas: transgenia é uma técnica de manipulação genética, que consiste em introduzir um ou mais genes isolados de uma espécie em outra, e, definitivamente!, isso jamais aconteceu espontaneamente na natureza (a não ser que alienígenas tenham vindo “semear” os mares primordiais do planeta Terra com seus genes — ironia, claro!); também é diferente dos casos isolados de hibridismo (quando indivíduos de espécies diferentes acasalam e geram filhotes, o que só é possível entre espécies próximas, como entre cavalos e asnos, que geram mulas); os híbridos normalmente são estéreis, e têm problemas decorrentes das informações genéticas ‘cruzadas’…

  2. Paulo Andrde disse:

    Joana, as informações trazidas são interessantes e pedem algumas reflexões. Vou começar com o mel.
    Depois de longo silêncio (mais de 4 meses entre a Audiência Pública do eucalipto GM e sua liberação comercial dia 9 deste mês, a menos que esta seja uma declaração antiga, do tempo da audiência) a Secretária Executiva da ABEMEL afirma que é provável que haja perdas na exportação de mel. Para isso argumenta que a presença de pólen transgênico pode levar ao fechamento do mercado europeu. Diz também 80% de nosso mel é vendido como orgânico. Mas não há dado algum na ABEMEL (ao menos nos documentos que estão disponibilizados ao público) que levem a este número, muito pelo contrário: sabe-se que a maioria do mel exportando não tem certificação orgânica que pudesse ser aceita como tal no exigente mercado europeu. A secretária também afirma que o problema é o pólen. Ora, basta centrifugar e filtrar o mel e já não terá pólen algum. É o que fazem outros países produtores, aliás.
    Quanto à afirmação de que as abelhas não frequentam as plantações de soja e algodão transgênicas, nada podia estar mais errado: toda a literatura científica aponta para presença de pólen de soja no mel sempre que houver proximidade entre as colmeias e a plantação. Então, mesmo sem testar nada, é evidente que já existe pólen de planta transgênica no mel brasileiro, há muito tempo. Mas isso pode ser facilmente revertido e controlado: o manejo das colmeias é tudo o que precisa ser feito. Lembro a você e aos leitores que as abelhas nunca voam mais de 1 km se houver fontes de néctar num raio menor que isso, ainda que as flores mais adiante sejam muito atrativas para as abelhas. Abelha voando 3 km ida e mais 3 de volta, jamais no Brasil. Aliás, a chave do sucesso da apicultura reside nisso e só um leigo pode imaginar que não se tem controle onde uma abelha pasta.
    O posicionamento da secretária (que, enquanto eu não vir os dados da própria associação, desconfio que é só dela) tem um forte viés ideológico e em nada contribui para uma exportação sem percalço para os pequenos produtores brasileiros.

    Em segundo lugar, gostaria de comentar a questão do consumo de água. O eucalipto cresce rápido e é exigente em aporte de água, mas não “desperdiça” água nem age com uma esponja “do mal”. O eucalipto GM talvez consuma um pouco mais de água nos primeiros anos, mas nem isso sequer está claro: as diferenças parecem ser muito pequenas. Considerando que onde se planta eucalipto em geral há uma precipitação de pelo menos 1500 mm anuais, isso dá uma sobra gigantesca de água por m2 em relação ao que o eucalipto pode consumir. É, portanto, muito pouco provável que haja algum impacto diferencial entre os eucaliptos GM e os convencionais. Apesar disso, no monitoramento pós-liberação comercial esta questão será avaliada.

    Se considerarmos as vantagens (20% a mais de rendimento seguramente ajuda a reduzir a pressão pelo desmatamento; melhor produtividade significa mais lucros, preços menores ao consumidor, vantagem para o país, como exportador agrícola), acho que elas sobrepassam em muito os “riscos”, porque eles me soam em boa parte como imaginários. Para uma avaliação de risco baseada em ciência, leia http://genpeace.blogspot.com.br/2015/02/avaliacao-de-risco-do-eucalipto.html .

  3. Vitafer disse:

    Del fato um assunto altamente polêmico.

  4. Viviane disse:

    É no mínimo curioso que os EUA ainda não aprovaram eucalipto geneticamente modificado e que o PT é a favor dos transgênicos. Foi o Lula que reduziu o quórum para aprovação das sementes transgênicas na CTNBio. Não tenho uma opinião formada sobre esse assunto, não sou contra nem a favor dos transgênicos ou das abelhas, mas acho importante investigar e manter a mente aberta sem rotular de ecofanáticos ou empresários desalmados aqueles que defendem uma ou outra posição.

  5. Carlos U Pozzobon disse:

    Fico desanimado ao ter que combater o ecomisticismo e o ecofatalismo. Parece que o Brasil está condenado ao subdesenvolvimento pela vesguice de seu povo.
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    1) O aumento de qualquer riqueza tem resultados indiretos sobre todos nós. Portanto, não vale a pena argumentar se o plantio de eucaliptos transgênicos ou não preenchem estes requisitos. Mas no Brasil, desde a colônia, a visão da moral medieval é de que a riqueza privada era um mal que deveria ser combatido. A Inquisição fez o estrago a ponto de perdermos a potência econômica das plantações de açúcar, forçando os produtores a busca de novos provimentos pelo interior, que terminou no ciclo da mineração. As pessoas querem ter celulares, querem todas as comodidades e confortos da alta tecnologia, mas SÃO CONTRA AS EMPRESAS que internamente geram os excedentes com que podemos comprar o que vem de fora. É a nossa vocação para a pobreza.
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    2) O esgotamento dos recursos hídricos. Este é um problema da empresa. Água é um bem EM CIRCULAÇÃO, e não estático. Ninguém se importa com o fato dos rios estarem jogando fora a água no mar, porque sabe que ela volta com as chuvas. Mas se a água for aproveitada para a produção de riqueza aí a coisa muda: todas as suposições são invocadas para IMPEDIR o desenvolvimento econômico. A vocação para a pobreza de nossa gente é algo descomunal. Com a quantidade de água que temos, ela estaria sobrando se houvesse eucalipto em 8 milhões e 500 mil quilômetros quadrados do território nacional. FALTA D’ÁGUA É PROBLEMA DE ADMINISTRAÇÃO HUMANA, e ponto final.
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    3) O mel das abelhas: quais são os estudos científicos, quais são as experiências realizadas que indicam que o mel vai ficar “contaminado” por usar flores de eucaliptos transgênicos? De novo o misticismo a serviço da paralisação econômica, da vocação para a pobreza. Sob a hipótese de uma fator negativo, pula-se na frente com as esfarrapadas conclusões do IMOBILISMO. Quando estas árvores estiverem sendo plantadas na Austrália, nos EUA ou qualquer outro país de RACIONALIDADE técnica-científica-econômica, nenhum destes temores serão capazes de impedir a implantação de grandes extensões de reflorestamento. Mas não se iludam. Estes argumentos são apenas as cartilhas que colocam em marcha os terroristas do MST e congêneres na decisão de acabar com as experiências científicas por decisão de seus tribunais de exceção, que na calada da noite, decidem o que é bom para o Brasil, acabando com empregos, esforços e conhecimentos. Pobre país!!!

  6. Luiz Garcia disse:

    Novamente, o embate só tem um lado, a dos que são contra tudo.

    A transgenia é difundida em nosso planeta desde que os primeiros serem vivos se instalaram. Antes as mutações transgênicas eram naturais, aliás, elas, ainda, acontecem, e podem, ou não, impactar o meio ambiente de forma positiva ou negativa.

    Os que são contra a trangenia são bens instalados, não passam fome ou tem qualquer dificuldade para continuar sua luta, na maioria da vezes com caráter hipócrita, simples assim.

    Na realidade estes novos clones de eucalipto deverão DIMINUIR as áreas plantadas, uma vez que o rendimento de madeira por hectare será muito muito maior. Seja no segmento de madeiras ou de papel e celulose, a proximidade com as áreas plantadas é vital para que os custos com transportes sejam reduzidos.

    Se não houvesse a intervenção do homem com o desenvolvimento de clones geneticamente modificados de alimentos, a humanidade, há dezenas de anos, já não teria mais como prover alimentos para todos, isso é fato.

    Até hoje os alarmistas e catastrofistas verdes de plantão, NUNCA, conseguiram provar suas alegações, a maioria ridículas, de contaminação e mutações genéticas nos seres humanos e animais seriam uma questão de tempo, pelo que tanto escreveram sobre as eventuais contaminações ou mutações genéticas, já deveriam ter sido detectados por clínicas e/ou hospitais de ponta esparramados por todo o planeta.

    O que a maioria não sabe, porque à imprensa não interessa divulgar, é que as florestas plantadas protegem as poucas e isoladas áreas de matas nativas, ali até as abelhas são preservadas.

    Outra “lenda” a de que as florestas plantadas, notadamente as de eucalipto, consomem recursos naturais ou exaurem os solos mais rapidamente, também não se sustentam, toda floresta se auto-aduba com os restos de folhas, galhos e troncos que são substituídos naturalmente, esquecem também de comentar, maliciosa e intencionalmente, que, até, e, principalmente as florestas plantadas regulam umidade local, além de controlarem importantes micro-climas. Sem esquecer que as terras são meticulosamente preparadas para o plantio.

    As tecnologias obtidas pelo segmento de Florestamento são rapidamente incorporadas pelo agronegócio como um todo, os benefícios para nossa população e para o país são muito maiores que eventuais prejuízos, os mesmo que os que são contra o desenvolvimento não conseguem, sequer, sustentar com pesquisas de alto nível, como as que são desenvolvidas pelo agronegócio e a indústria de Florestamento.

    a Suzano levou 2 anos para aprovar um projeto de pesquisa que se estendeu por 15 anos, mas estas informações não interessam para a maioria da mídia alarmista e desinformada, assim como aos verdes que nada produzem, a não ser lamentos e jogos de palavras inúteis, tendenciosos que servem, apenas, aos seus financiadores, só não sabemos com quais interesses,bem, aliás, sabemos e, muito bem.

  7. André Luiz D. Queiroz disse:

    O Brasil está certo em apostar em tecnologias de modificação genética para o setor florestal?
    — Considero válida, e mesmo necessária, a pesquisa sobre modificação genética, face que isso é uma tendência irreversível no cenário mundial da agroindústria. Mas, há de se pesar com muito, muito cuidado a adoção de qualquer cultura transgênica, vez que efeitos indesejados podem sim ocorrer, quando a informação genética da espécie for modificada. Ninguém sabe ao certo! A Natureza leva centenas, milhares de anos ‘desenvolvendo’ as espécies. O ser humano não está nem perto do conhecimento necessário para compreender/dominar isso!

    Os benefícios de se tornar o primeiro país a comercializar árvores de eucalipto transgênicas superam os riscos?
    Os benefícios… para quem? Como ressaltado na matéria, os eucaliptos transgênicos visam aumentar a produtividade e o precocidade das árvores, para aumentar o lucro da indústria de papel e celulose. Mas, e as possíveis consequências adversas para o meio ambiente, o que pode afetar negativamente outras culturas (já que estamos falando em agronegócios…!). O comentário de Joma Bastos traz números expressivos a respeito que, se realistas, dão uma ideia boa da questão.

    A questão das abelhas deve pesar na balança?
    Lembremos que abelhas não são importantes ‘apenas’ por produzir mel; a polinização de uma infinidade de culturas depende delas! E tanto a Europa quanto os EUA estão enfrentando uma grave crise com a perda de suas abelhas…!

  8. Roberto1776 disse:

    É um grande progresso conseguir a liberação de uma variedade vegetal geneticamente modificada em apenas 18 meses. Parece que finalmente o Brasil começa a engatinhar na estrada para o futuro.
    Fiquei surpreso com o fato de um alimento produzido por um inseto ter a possibilidade de não ser orgânico. Provavelmente deve ser ele de origem mineral.
    Admirável mundo novo!

  9. Joma Bastos disse:

    Não, não vale a pena o risco da aposta no eucalipto transgênico. Simplesmente beneficiará a área específica do agronegócio, aumentará o PIB em cerca de 30 bilhões, mas não contribuirá para o desenvolvimento social da Nação. Ao diminuir o ciclo de corte de 7 para 4/5 anos, os problemas de impactos negativos sobre a água, o solo e a biodiversidade serão enormes. A grande produção de mel no Brasil, que está diretamente relacionada com o eucalipto,
    irá afetar milhares de produtores que têm no mel a sua grande fonte de rendimento.
    Nos EUA o custo de para a produção de uma tonelada de celulose é aproximadamente de US$300 e no Brasil ronda os US$160, não justificando baixar este valor.
    Há que apostar em desenvolver uma agricultura sustentável que alimente a 100% este nosso Brasil.

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