Início » Brasil » Brasil: chegaremos ao ponto de ficar sem previsão do tempo?
TUPÃ EM CRISE

Brasil: chegaremos ao ponto de ficar sem previsão do tempo?

Supercomputador que faz as 'previsões numéricas' das condições climáticas no país está ultrapassado e com manutenção precária

Brasil: chegaremos ao ponto de ficar sem previsão do tempo?
O supercomputador Tupã foi colocado em operação em 2010, comprado por R$ 50 milhões (Foto: CPTEC)

No último 30 de novembro, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) emitiu um alerta para as seguintes 48 horas de risco de “fenômeno meteorológico adverso” no sul do Espírito Santo. Um jornal de Cachoeiro do Itapemirim, cidade que fica na região onde poderia haver “acumulados expressivos” de chuva, orientou seus leitores a que acompanhassem com mais frequência a previsão do tempo, pois poderiam ter que “mudar os planos” e se protegerem de “eventuais impactos decorrentes de tempo severo”.

As informações sobre as condições meteorológicas, nas quais convinha, há poucos dias, que os capixabas ficassem de olho, são feitas no Brasil com base nos dados sobre o clima, as “previsões numéricas” do tempo, gerados por um supercomputador que fica a 620 quilômetros de Cachoeiro do Itapemirim, precisamente na cidade de Cachoeira Paulista, quase na divisa do estado de São Paulo com o do Rio de Janeiro.

Atende, a supermáquina, pelo nome de Tupã, palavra da língua tupi que significa “trovão”, e que os índios, segundo os Jesuítas, usavam para dar nome ao seu próprio deus da criação, habitante do sol. Fato é que o todo-poderoso Tupã do inferno da crise, dos cortes orçamentários e do desmantelamento da ciência nacional, ou seja, o Tupã de Cachoeira Paulista, é um velho senhor em estado terminal. E sua morte iminente (ou, no jargão técnico, “end of life”) pode deixar o Brasil, país de enchentes e deslizamentos, sem previsão do tempo, e, portanto, sem alertas sobre enchentes e deslizamentos. Resumindo: sem sistema de prevenção de desastres ditos “naturais”.

Ou, para melhor ilustração, e nas palavras do general Mourão, esse que, além de mal conter seus impulsos “intervencionistas”, ainda deixa à mostra que na alta cúpula do exército ainda há quem prefira, ao do povo, o cheiro dos cavalos: “Aqui havia aquele velho ditado: não teríamos enchentes nem furacões. Teríamos apenas um povinho meio complicado. Agora, temos enchentes, furacões e o povinho continua aí”.

Desmonte do Inpe

O supercomputador Tupã foi colocado em operação em 2010, comprado por R$ 50 milhões. O tempo de vida médio de uma máquina como essa é de quatro anos, para que não fique defasada e sob risco permanente de sofrer problemas técnicos insolucionáveis. Façam as contas. Para piorar, o pagamento da empresa que faz a manutenção do Tupã está atrasado desde outubro. A manutenção continua sendo feita, mas apenas em dias úteis. Caso o Tupã apresente problemas em fins de semana ou feriados, a ajuda só virá no próximo horário comercial.

Na verdade, isso já aconteceu: no dia 19 de novembro, um domingo, o computador parou de funcionar, e o “help desk”, por assim dizer, só chegou na terça-feira seguinte, dia 21, porque na segunda-feira, 20, foi feriado da Consciência Negra. Durante dois dias o país ficou sem dados atualizados sobre as condições meteorológicas. O Centro de Previsão de Tempo e Meteorologia (CPTEC), órgão do Inpe, alerta que o colapso irreversível da máquina é hoje um perigo real e imediato.

Um levantamento feito pelo jornal Estado de S.Paulo  mostrou que o orçamento real do Inpe encolheu quase 70% nos últimos sete anos, de R$ 326 milhões, em 2010 (ano da compra do supercomputador Tupã), para R$ 108 milhões, em 2017, em valores corrigidos pela inflação. O quadro de funcionários do instituto encolheu quase 25% em 10 anos.

Além de comprometer os esforços para prevenção de catástrofes decorrentes das condições climáticas, a precariedade, ou, no limite, a falta de dados precisos sobre chuvas, secas, etc., interfere diretamente no planejamento da agricultura, agropecuária e outros setores importantes da economia nacional, como a própria geração de energia. Além disso, o desmonte do Inpe ameaça o sistema de monitoramento da Amazônia, como este Opinião e Notícia informou semanas atrás. O cenário futuro é desalentador: para 2018, o governo Michel Temer pretende cortar em quase 40% o orçamento de todos os institutos e autarquias ligadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

São abundantes as possibilidades de metáforas climáticas para a situação brasileira, e especialmente, neste caso, para a situação da ciência neste país abandonado por Tupã (ou prestes a isso…), desde os maus ventos que lhe sopram até a tormenta que se anuncia no horizonte. Preferimos não usá-las, acompanhando o silêncio ensurdecedor que precede a devastação.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

3 Opiniões

  1. Jorge Hidalgo disse:

    tudo bem que o “governo” federal é outro lixo, mas o INPE de Cachoeira Paulista, fica onde mesmo senhoras e senhores???? no vale do Paraíba, no “rico”(falido digo eu) Estado de São Paulo…país que não incentiva sequer a tecnologia…

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    O jeito é voltar no tempo e pedir ao que chamávamos de matuto vir com seu burros (animal) para que se tenha a previsão do tempo até que se possa comprar um novo TUPÃS.

  3. Gloria de Castro disse:

    Enquanto isso o Beócio do Temer não faz mesmo o que precisa ser feito pelo País !!!

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *