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DESENCANTO NAS URNAS

Brasil: o fantasma do ‘Boi-Cote’ ronda as eleições

Os altos índices de abstenção, brancos e nulos vêm chamando a atenção nos últimos processos eleitorais no país

Brasil: o fantasma do ‘Boi-Cote’ ronda as eleições
Não tem sido raro políticos se elegerem com menos votos do que a soma dos votos brancos e nulos e das abstenções (Foto: Agência Brasil)

“Desencanto amazônico”. Foi com esta expressão que a Folha de S.Paulo intitulou um de seus editoriais do último dia 8 de agosto, dois dias após a realização do primeiro turno da eleição suplementar no estado do Amazonas, à qual 24% das pessoas aptas a participar dela não se deram ao trabalho de aparecer para votar. Entre as que apareceram, 16% votaram nulo ou em branco. Há três anos, nas eleições de 2014, a abstenção no Amazonas havia sido de 19%; brancos e nulos somaram naquela feita 8%.

Não é novidade. Os altos índices de abstenção, brancos e nulos vêm chamando a atenção nos últimos processos eleitorais no Brasil, onde o voto é obrigatório e onde a questão do voto obrigatório não entrou na pauta da reforma política que já está em andamento. Não tem sido raro políticos se elegerem em eleições majoritárias com menos votos do que a soma dos votos brancos e nulos e das abstenções. Em 2014 isso aconteceu nas eleições para governador em quatro estados brasileiros. Foi o caso do Rio de Janeiro, onde Luiz Fernando Pezão foi eleito com 3.242.513 votos, enquanto o chamado “não-voto” – soma de brancos, nulos e abstenções – deu de lavada, batendo em 4.142.231.

Juntando-se esse desencanto com as “reparações” feitas a posteriori pela Justiça Eleitoral, em alguns casos a expressão “Democracia representativa” perde totalmente seu sentido, ou quase. Um exemplo: a paradisíaca cidade de Arraial do Cabo, na região dos Lagos fluminense, tinha 28.879 cidadãos aptos a votar na última eleição municipal. No dia da “festa da democracia”, 5.833 nem se dignaram a aparecer. Dos 23.046 que apareceram, 18.649 votaram, para prefeito, ou em Renatinho Vianna, do PRB (10.677 votos) ou em Tê, do PMDB (7.972), os dois primeiros colocados. Os dois, porém, foram declarados inelegíveis, e os votos que receberam foram engrossar o índice total de votos no município anulados pelo eleitor ou pela Justiça Eleitoral: 84,58%.

Chegou a ser declarado eleito, assim, com 2.170 votos, ou estrondosos 7,5% do total de eleitores de Arraial do Cabo, o terceiro colocado, o economista José Bonifácio Ferreira Novellino, do PDT. Dias depois, porém, o TRE do Rio resolveu validar os votos em Renatinho, que até hoje governa o balneário.

Para derrotar Marcelo Crivella no segundo turno da última eleição para prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo disse na época que iria atrás dos mais de um milhão de eleitores da cidade que não foram às urnas no primeiro: “Eles têm mais chance de conhecer a diferença entre os candidatos e se posicionar”.

O histórico dos 20 anos anteriores de eleições na capital fluminense indicava, porém, que a chance não poderia ser tão grande assim. Naquele período, nas três vezes em que a escolha do prefeito não foi feita de uma vez no primeiro turno, o índice de abstenções não diminuiu no segundo, mas aumentou: em 1996, de 19% para 21%; no ano 2000, de 16% para 18%; em 2008, de 17% para 20%.

Para pensar em derrotar Crivella, portanto, Freixo teria que baixar, e bem, e brigando com a “série histórica”, um índice de 24% de ausência na primeira volta. Pois no segundo turno o candidato do Psol não apenas fracassou nessa empreitada, como também se viu “ultrapassado” pelas abstenções: enquanto Freixo amealhou 1.163.662 votos, 1.314.950 eleitores sequer apareceram para votar, um índice de 26,85%, quase três pontos percentuais a mais do que no primeiro turno. Crivella, de resto, foi mais um chefe de poder executivo eleito com menos votos do que a soma de brancos, nulos e abstenções. Como na época das eleições de Pezão, muitos disseram novamente que no Rio deu “Boi-Cote”.

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2 Opiniões

  1. Roberto Toledo disse:

    O não voto está muito errado. com isso os bandidos esquerdistas vão e votam em massa e fazem os seus bandidos chefes ganharem!!!!

  2. Áureo Ramos de Souza disse:

    E acredito que nas próximas eleições ira´acontecer no Brasil o inevitável desaparecimento de eleitores inclusive eu. E já vários amigos assim falarem que não votarão em mais nenhum ladrão. E agora sem poder ter empresas lhes patrocinando para compra de voto a coisa vai ficar ainda muito preta. Mais do jeito que esses ladrões tem sempre um jeitinho brasileiro encontrão um meio de uma empresa bancar suas candidaturas.

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