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POPULAÇÃO DE RUA

Brasil sem-teto: o último a dormir apaga a Lua

Moradores de rua sequer viram números confiáveis que pudessem dar conta de uma fração que fosse do seu drama

Brasil sem-teto: o último a dormir apaga a Lua
Neste país é como dizem os versos do poeta popular Giovani Baffo sobre quem não tem para onde ir (Foto: Hugo Souza)

Na última terça-feira, último dia do gélido mês que é o de julho em São Paulo, a coluna de Mônica Bergamo, na Folha, informou que o prefeito Bruno Covas decidiu antecipar para já um censo de moradores de rua da cidade que estava previsto para ser feito em 2020. O motivo é que, no chamado “olhômetro”, não há quem não perceba que o número de pessoas que vivem nas ruas da capital paulista vem aumentando “exponencialmente”, na palavra escolhida pela coluna. “Dramaticamente” talvez caísse melhor, por causa do frio e de tudo mais. As estimativas do “olhômetro” são de que São Paulo tem hoje 20 mil pessoas sem moradia. Há três anos, em 2015, o número oficial, da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), era de 15.905.

No começo deste ano de 2018 a prefeitura do Rio de Janeiro também decidiu fazer um novo levantamento do número exato, ou próximo disso, de pessoas morando nas ruas da cidade, após a capital fluminense registrar um aumento de nada menos que 156% da população sem teto entre 2013 e 2016 (chegando a mais de 14 mil pessoas), e em meio à proliferação de matérias na imprensa carioca sobre o aumento de moradores de rua dormindo sob as marquises do Centro, debaixo dos viadutos da Avenida Brasil e nas areias da orla da cidade. “As praias do Rio de Janeiro têm se tornado albergues a céu aberto durante a noite”, chegou a dizer recentemente o portal G1.

Acontece que, por mais que “a olho nu”, ou a olhos vistos, a população de rua no Rio não pare de crescer, o novo levantamento da prefeitura do Rio, divulgado em março deste ano, apontou um número que não chega a cinco mil, ou quase dez mil a menos do que dois anos atrás. Em Salvador, a Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza (Semps) dá conta de 5.900 moradores de rua vivendo assim, ao relento, na capital baiana. Já um mapeamento independente feito pelo Projeto Axé em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA) deu conta de que eles são cerca de 17 mil.

A discrepâncias siderúrgicas, seja entre os dados oficiais e a percepção do dia-a-dia sobre os moradores de rua em duas das maiores cidades do país, seja entre os dados oficiais e levantamentos independentes, são explicadas por suas prefeituras com a palavra mágica da “metodologia”. Mágica? O prefeito – conhecido por seu estilo “sincerão” – de uma terceira grande cidade brasileira, Belo Horizonte, digamos que lamentou não poder resolver o problema da falta de moradia com uma qualquer prestidigitação:

“Nós vamos tirar, mas nós não podemos tirar e jogar no mar. Nós temos que tirar e acolher. Então nós não podemos fazer de Belo Horizonte o hotel cinco estrelas para morador de rua e por outro lado nós não podemos tirar morador de rua e jogar no mar”, disse Alexandre Kalil no fim de julho, ao exortar os agentes da prefeitura a intensificarem a abordagem à população de rua da capital mineira.

Tampouco a nórdica Dinamarca joga moradores de rua ao mar, mas vem jogando-os no xadrez. Em um ano (desde julho de 2017, quando o Parlamento dinamarquês criminalizou a mendicância) o país mandou para atrás da grades 52 pessoas pelo crime de não terem onde morar. Nenhuma delas foi um cidadão dinamarquês; todas eram imigrantes. Pura magia! Segundo um informe recente da Fundação Abée Pierre, a Europa como um todo vem registrando forte alta no número de moradores de rua. Na França, a população de rua aumentou 50% nos últimos 10 anos. A exceção é a Finlândia, onde o número não para de cair, em vez de subir, graças a uma política de distribuição de moradias de baixo custo, sem exigência de contrapartidas.

“Suprimimos todas as condições para se obter um teto, pois sabemos que, sem moradia, é impossível resolver os demais problemas”, disse Paavo Voutilainen, ex-diretor de assuntos sociais de Helsinki, ao jornal francês Le Monde. A política finlandesa tem como base a compreensão ao pé da letra da moradia como um direito fundamental, conforme consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual a Finlândia, como o Brasil, é país signatário. A política finlandesa tem nome: Housing First.

“Moradia Primeiro” é o nome também de uma campanha no Paraná para pressionar o poder público a dar mais atenção à questão da locação social. Neste inverno, pelo menos quatro moradores de rua já morreram de frio em Curitiba. No Brasil, moradores de rua sequer entram nos dados do censo do IBGE. Não são, portanto, sequer números (e quando o são, há sempre as questões de metodologia…) que pudessem chegar perto de dar conta do seu drama, a fim de tentar algo perto de minimizá-lo.

Certo é que neste país o número de casas vazias supera o déficit habitacional; que mais que nunca se aplica a este país um velho provérbio, “o último a sair que apague a luz” (62% dos jovens brasileiros gostariam de deixar o país). Neste país é mesmo como dizem os versos do poeta popular Giovani Baffo sobre quem, afinal, não tem para onde ir, nem onde ficar, reproduzidos em tantos muros Brasil afora, como o da foto que ilustra este artigo, em Penedo, localidade turística do sul do estado do Rio conhecida, ora veja, como a “Finlândia brasileira”, não propriamente por um qualquer direito social tomado ao pé da letra: “Em casa de menino de rua, o último a dormir apaga a Lua”.

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2 Opiniões

  1. Aureo Ramos de Souza disse:

    Vinte mil pessoas só em São Paulo e no Brasil ao todo quantos são? Enquanto isso temos milhões de casas não terminadas as construções e nossos irmãos morando na rua. E um Deputado ganha R$ 33.000 mil fora todas as vantagens e os que se encontram empregados ganham apenas R$ 954 reais e pagam água, luz, toma cana, vai a gafieira somos todos artistas e eles os ladrões lamento a expressão. PENSE NISSO!!!

  2. Jorge Hidalgo disse:

    terríveis dados e informações, mas não posso deixar de registrar a “luz” no fim do túnel na Finlândia com seu “housing first”, muito bem explicado no artigo…

    Aqui – antes que gritem os ianques são sempre tratados como nós, apesar de nos tratar como lat(r)inos indesejáveis, então, aqui temos aquele grande imbecil cuja lema é “America First” e está dando no que está dando…

    Deus nos acuda!

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