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IMAGEM ARRANHADA

Caos político e social embaça imagem do Brasil no exterior

Corrupção, economia estagnada, impeachment, prisão de Lula e ascensão do extremismo de direita fazem do país uma incógnita para observadores internacionais

Caos político e social embaça imagem do Brasil no exterior
Brasil é visto hoje como uma incógnita por muitos observadores internacionais (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Ao exotismo, sensualidade, malemolência, malandragem e cordialidade que, no imaginário estrangeiro, associam-se a certa ideia que se faz do Brasil, vieram somar-se nos últimos anos transtornos políticos e sociais que mesmo para os nossos padrões continentais podem ser classificados de sem precedentes.

Antes tido como liderança entre os países em desenvolvimento e encarado com um otimismo às vezes efusivo durante o governo Lula – ex-presidente cuja imagem fora do país também se deteriorou – o Brasil é visto hoje como uma incógnita por muitos observadores internacionais.

Os massivos protestos que transcorreram durante o fracasso econômico do governo Dilma, seguidos pelas denúncias de corrupção e o controverso processo de impeachment, os crimes ambientais envolvendo a Vale, dois anos de Michel Temer enredado em escândalos éticos, a prisão do ex-presidente Lula, que a despeito dos muitos processos criminais contra si segue popular, e a ascensão de um radical ao poder fizeram com que jornalistas, políticos, acadêmicos e empresários do exterior ficassem, assim como muitos de nós e ainda mais do que antes em nossa sempre confusa história, sem entender o que acontece.

Com a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) em 2018, a crise de imagem do país se agravou ao ponto de o próprio núcleo bolsonarista acusar o golpe. Ministro do Gabinete de Segurança Institucional da presidência, o general da reserva Augusto Heleno reconheceu que o governo precisa “desfazer” o desgaste recente de sua figura.

Estereótipos da “marca Brasil” 

Crises à parte, a reputação do Brasil no exterior sempre esteve mais ou menos ligada a estereótipos nem sempre elogiosos. Em entrevista à Folha de S.Paulo, os estudiosos Michiel van Groesen, professor da Universidade de Leiden, na Holanda, e a pesquisadora brasileira Vivien Kogut Lessa de Sá, da Universidade de Cambridge, afirmam que descrições de um exotismo e uma sensualidade tropicais, tão repetidas nos relatos de viajantes europeus nas Américas durante a colonização, seguem vivos no imaginário estrangeiro relativo ao Brasil.

A Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, nesse sentido, foram promovidas pelo governo como uma forma de o país se mostrar ao exterior como pronto para a era moderna. Anunciados durante o segundo mandato de Lula, quando o Brasil inspirava confiança no cenário internacional, esses dois megaeventos tiveram de ceder lugar à realidade, e, embora relativamente bem sucedidos do ponto de vista logístico, não foram eficazes em readequar a imagem do país.

Ao portal Uol, o brasilianista estadunidense David Fleischer, professor de Ciência Política UNB, contou que tem recebido diversos e-mails de seus colegas de cátedra nos Estados Unidos sobre o que se passa no país.

“A impressão é de que o país foi saqueado. Recebo e-mail de pessoas me perguntado sobre como destruíram a Petrobras, por exemplo”, disse Fleischer.

E não só os estrangeiros querem saber o que acontece no Brasil, como também os brasileiros – e em especial os jornalistas brasileiros – querem saber o que os estrangeiros pensam sobre o que acontece no Brasil. Como ressalta a revista Carta Capital, uma simples busca na internet pelos termos “repercute na mídia internacional” encontrará, em sites brasileiros, dezenas de milhares de menções.

Não por menos, muitas vezes uma notícia ou editorial do New York Times, El País ou da Economist são usados, por colunistas e comentaristas políticos no Brasil, como um estratagema para chancelar suas próprias opiniões, outra mostra de que a mentalidade colonial perdura tanto para estrangeiros quanto para brasileiros.

De 2014 em diante, no entanto, dúvidas razoáveis sobre a qualidade da democracia e da lei no Brasil seguem dando o tom de sua projeção no exterior, o que, colonialismos também à parte, trazem consequências práticas para o país. 

Impeachment, Temer, Lula e Bolsonaro 

É natural que um impeachment seja traumático para as instituições políticas de um país e que cause algum abalo em sua imagem no exterior. Mas, nas condições em que se deu o afastamento de Dilma Rousseff, ou seja, num processo capitaneado por um deputado sabidamente corrupto e sob confusas alegações de crime de responsabilidade, o dano tende a ser maior e mais duradouro, como agora sabemos.

“A maior parte dos deputados evocou Deus e a família na hora de dar o seu voto”, diz uma reportagem do periódico alemão Der Spiegel, sobre a votação do impeachment na Câmara, que completa: “Jair Bolsonaro até mesmo defendeu, com palavras ardentes, um dos piores torturadores da ditadura militar”. Já o jornal inglês Guardian ressaltou que a “derrota esmagadora” de Dilma foi chancelada por um Congresso “hostil e manchado pela corrupção”.

Não à toa, os anos de Temer foram marcados pelo ostracismo internacional. Sem votos e com baixíssima popularidade, o presidente interino se viu sozinho, por exemplo, na reunião do G20, em 2017, o encontro das principais potências mundiais.

Ciente dos problemas da nação vizinha, o presidente argentino Mauricio Macri tratou de ocupar o vácuo deixado pelo Brasil. Durante a gestão Temer, foi ele quem se projetou como protagonista na América Latina, reunindo-se com a alemã Angela Merkel, com Donald Trump e estreitando relações com Pequim. A lua de mel internacional do argentino, no entanto, durou apenas até que problemas internos começassem a acossá-lo em seu país, mas isso já é tema para outro texto.

A etapa seguinte da crise de imagem do Brasil se dá com o acirramento dos processos jurídicos contra Lula. Antes bem visto por líderes internacionais por sua trajetória cinematográfica e por seu sucesso no combate à extrema pobreza, o ex-presidente gastou suas fichas de prestígio tentando explicar aos jornais do exterior o que entende como uma perseguição política contra sua pessoa. Os resultados dessa empreitada foram dúbios, mas não totalmente infrutíferos.

“Qualquer um que esteja seguindo os acontecimentos do Brasil de perto vai acabar com uma opinião mais crítica sobre Lula, porque esses problemas de corrupção (revelados pela Lava Jato), não surgiram no governo Dilma”, diz, à rede BBC, a professora Wendy Hunter, da Universidade do Texas, que escreveu o livro The Transformation of the Workers’ Party in Brazil, 1989–2009 (A Transformação do Partido dos Trabalhadores no Brasil).

Também à BBC, contudo, o pesquisador Matthew M. Taylor, professor da American University, ressalva que parte das acusações contra o líder petista são difíceis de se engolir no exterior.

“Como exemplo acho que dá para mencionar essa história de que ele fez lobby para as construtoras brasileiras. Fazer lobby não é ilegal e não ficou claro o que exatamente é ilícito nisso”, disse Taylor, sobre o Ministério Público Federal ter aberto uma apuração preliminar quanto ao papel do ex-presidente nos negócios fechados no exterior pela Odebrecht.

Há também, inclusive, quem vá mais além. Tendo em conta a liminar de um órgão da ONU que recomendou que a Justiça Eleitoral permitisse a candidatura de Lula nas eleições de 2018 – recomendação rechaçada pelo Tribunal Superior Eleitoral –, a historiadora francesa Juliette Dumont, professora do Instituto de Altos Estudos da América Latina (Iheal) em Paris, disse ao jornal Brasil de Fato que a condenação de Lula foi “uma afronta ao Estado de Direito no Brasil”.

Chegamos, enfim, à eleição de Bolsonaro. Classificado pela conservadora Economist como a “mais recente ameaça na América Latina”, e descrito pelo jornal português Expresso como “o pior candidato à presidência de sua história”, o próprio capitão reformado do Exército tem ciência do trabalho que terá para desconstruir sua fama de radical.

Para se despojar do rótulo de homofóbico, apologista da ditadura e extremista, contudo, o presidente terá de operar uma revolução em seu discurso e comportamento, uma vez que, como resume um texto do espanhol El País, Bolsonaro “assume o liberalismo econômico, mas rechaça plenamente todos os elementos tradicionais do liberalismo político”.

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4 Opiniões

  1. Eleutério Gouveia Sousa disse:

    …..se correr o bicho pega…

    A degradação moral é antiga… e os últimos governos só fizeram acentuá-la…Urge mudanç, juizo… e carisma…

  2. Renato Cesar de Oliveira Moreira disse:

    Na verdade as mudanças de rumo determinadas, democraticamente, pelas urnas, a contragosto dos progressistas de esquerda, é uma clara resposta da maioria do povo brasileiro: não queremos mais a agenda de esquerda no Brasil. A saída escolhida foi uma guinada de 180° em direção oposta. Bolsonaro foi apenas o instrumento a rota de fuga do Brasil destruído pelo PT.

  3. Rogério Freitas disse:

    Precisamos ter esperança de dias melhores, mas, infelizmente, ao ler este artigo, com o qual concordo, percebo que o caminho a percorrer por nossa Nação está mais difícil do que parecia durante o período eleitoral.

  4. Emílio L disse:

    Não viaja, Renato.

    55% dos votos válidos (sem contar os 10% de brancos e nulos e outros 20% de abstenções) só significa que a maioria não comprou esse B.O.

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