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As ‘máquinas mortíferas’ fabricadas no Brasil

Todos os anos, acidentes de automóvel vitimam milhares de brasileiros que poderiam estar vivos caso a fabricação dos carros para o mercado interno seguisse o padrão de outros países

As ‘máquinas mortíferas’ fabricadas no Brasil
Carros fabricados no Brasil são bem diferentes dos fabricados pelas mesmas montadoras em outros países (Reprodução/AP)

Lembro-me apenas vagamente da reação das pessoas mais próximas quando o então presidente Collor comparou os carros fabricados no Brasil a carroças. A memória que tenho é a da indignação por ouvirem um presidente com cara (e fama, e talvez vida) de playboy, que certamente poderia comprar bons carros importados, falando mal dos carros “nacionais”.

Depois da relativa abertura comercial, a visão de que Collor não estava tão errado assim ganhou terreno. Hoje já não é nenhuma surpresa quando nos lembram que a qualidade – e o preço – dos carros fabricados no Brasil são bem diferentes dos fabricados pelas mesmas montadoras em outros países. Foi isso que a Associated Press (AP) reportou no último domingo, 12,  em matéria publicada em vários sites de notícias do mundo. Todos os anos, acidentes de automóvel vitimam milhares de brasileiros que poderiam estar vivos caso a fabricação dos carros para o mercado interno seguisse o padrão de outros países. No Brasil, a taxa de mortalidade em acidentes de automóveis é quase quatro vezes maior do que nos Estados Unidos.

Os carros saem sem parar das linhas de montagem locais das maiores montadoras do setor, mais de 10 mil por dia, e vão parar nas mãos ansiosas da nova classe média brasileira. Os novos  Fords, Fiats e Chevrolets são consequência de uma economia em plena floração, que agora tem o quarto maior mercado de automóveis do mundo.

O que acontece quando esses veículos vão para as ruas, no entanto, está se transformando em uma tragédia nacional, dizem os especialistas, na medida em que milhares de brasileiros morrem a cada ano em acidentes de automóvel que, em muitos casos, não deveriam ter sido fatais.

Os culpados são os próprios carros, produzidos com soldas mais fracas, características de segurança escassas e materiais de qualidade inferior, em comparação com modelos similares fabricados para os consumidores americanos e europeus, dizem os especialistas e engenheiros da indústria. Quatro dos cinco carros mais vendidos do Brasil não passaram em testes de colisão independentes.

No ano passado, Edmar Bacha, um dos formuladores do Plano Real, culpou a “política de conteúdo nacional” por alguns problemas enfrentados por indústrias no Brasil, inclusive a automobilística. Veja trechos de sua entrevista à Folha no ano passado:

Não vale a pena o governo tentar recuperar a indústria?

Não através do protecionismo, do crédito subsidiado, nem de medidas pontuais. Estamos falando de recuperar a capacidade de concorrer e de termos uma indústria produtiva. Afora imposto, e de fato os impostos são extremamente elevados, uma das maiores travas para recriar a indústria é a política do conteúdo nacional. O governo, em vez de resolver, está ampliando. Eu sou a favor de acabar com a política de conteúdo nacional.

Mas o governo diz querer incentivar produtores locais.

É uma política míope, que resolve o problema localizado à custa de criar danos maiores para a economia.

No pré-sal, por exemplo, a consequência dessa política, será que a gente não vai chegar ao pré-sal. Pergunta ao Carlos Ghosn, da Renault, por que ele não produz carro de boa qualidade no Brasil. Tendo que comprar tudo aqui dentro não dá. Protegem a indústria de componentes para criar o que chamam de “densificação da estrutura produtiva”. O que é preciso é se integrar às cadeias produtivas internacionais.

A questão levantada por Bacha responde diretamente alguns dos questionamentos feitos pela matéria da AP. Além disso, o governo parece mais inclinado a oferecer recursos para convencer as montadoras a permanecerem no país, do que abrir o mercado para que outras montadoras possam competir pelo consumo dos brasileiros.

O caso dos computadores e dos vinhos nacionais nos lembram dos efeitos do protecionismo sobre a qualidade dos produtos produzidos por um setor. Com poucos competidores e com altas barreiras de entrada no mercado, há menos estímulo para inovação e investimento em qualidade.

Sem competição, a indústria brasileira produziu vinhos rejeitados pelos consumidores, mesmo quando eram vendidos por um preço abaixo dos produzidos em outros países. Com competição limitada, a indústria automobilística produziu carros de menor qualidade, que trazem riscos desnecessários aos seus passageiros, dando razão a um ex-presidente ao qual pouca gente dá alguma razão.

 

Fontes:
Ordem Livre - Vítimas do Protecionismo

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12 Opiniões

  1. Joaquim Caldas disse:

    Os Carros de brinquedos vendidos como carros de valor.E os preços,no Brasil,´são dobrados.Aí,matam o consumidor no IPVAT eo Seguro Obrigatório e as tachas de registros.

  2. Sálvio Pessoa disse:

    Não são apenas os carros fabricados no Brasil que são “máquinas mortíferas”. Todo mundo sabe que qualquer automóvel movido a gasolina, diesel ou gás de petróleo é uma máquina mortífera, pois é um dos maiores responsáveis pela poluição atmosférica do nosso planeta e pelo aquecimento global – seja onde for que ele seja fabricado. Mas ninguém leva isso a sério e continua-se, irresponsavelmente, fabricando e comprando carros, pelo menos até que estejamos todos morrendo asfixiados pelo dióxido de carbono.

  3. Luiz Carlos Braga de Camargo disse:

    Solda, chapas, plásticos, composites, borrachas e etc etc. não são do mesmo padrão que as montadoras usam na sua origem. Ná verdade quando vemos “um made in Brazil ” que na aparência é “quase” igual aos feitos lá, fabricamos na verdade um GENERICO, é assim desde a década de 50 e não vai mudar nunca, nesta mesma década a Coréia saia dividida após um guerra e hoje a do Sul bota pra quebrar, a China idem e em breve o Vietnan. O Bananão como dizia
    Ivan Lessa, vai continuar na mesma.
    PS: Grande parte das cabeças de alho vendidas nos mercados estão vindo da China. Afinal, não somos um país com vastas terras agricultáveis ???

  4. Roberto1776 disse:

    Qual é mesmo o nome do partido que governa esta bagunça? Por acaso não seria Nationalsozialistische Brasilianische Arbeiterpartei ? (vulgo partido dos trabalhadores)? Para que não lembra ARBEITERPARTEI significa PARTIDOS DOS TRABALHADORES, mesmo.

  5. RAYMUNDO AUGUSTO D'ALMEIDA disse:

    SE EXISTE UMA GRANDE TAXA DE MORTALIDADES OU DE MILHARES DE BRASILEIROS IMOBILIZADOS NUMA CADEIRA DE RODAS, É PORQUE ESTÁ FALTANDO RESPONSABILIDADE ´POR PARTE DO GOVERNO, DOS EMPRESÁRIOS E DO PRÓPRIO MOTORISTA ESQUECENDO QUE O SEU VEÍCULO É UMA ARMA QUE DESTRÓI E MATA SEM DÓ E SEM PENA.
    ESTÁ FALTANDO APENAS BOM SENSO E MUITA VALORIZAÇÃO À VIDA.

  6. José Ney Titericz disse:

    Resumindo… Estou envergonhado de meu País… Falta domínio político… Acredito em pioras… Quando baixou o preço da energia elétrica eu disse para meus amigos: “vocês vão pagar 10 vezes mais que esse desconto em outra contra-partida…” Não deu outra… GASOLINA A TRÊS REAIS no pais do salário de SEISCENTOS E POUCOS REAIS… MUITO VERGONHOSO…

  7. andralls disse:

    não são carros, são carroças que tem um preço elevadíssimo…isso é uma vergonha… um carro popular custar 25 mil reais é uma situação irreal…popular e caro…brasil de vergonha…

  8. valci barreto disse:

    pior do que os carros são os motoristas: as mortes que temos conhecimento não são pelos carros. são pelos motoristas embriagados, alta velocidade, falando ao celular, desatento às condiçoes da pista. se o carro é ruim, o motorista deve dirigi-lo com mais cautela.

  9. EDUARDO ABREU disse:

    …Quando foi dito que nossos carros eram carroça, o Brasil já exportava, tinha até um que era brasileiro e iraquiano, quem não se lembra do PASSAT. Tinha o PASSAT, brasileiro, que era vendido aqui dentro e o iraquiano que era exportado para o Iraque, não conheci o carro, mas dizem que conheceu era totalmente diferente, em conforto, segurança e desempenho. Sobre o FOX ouvi conversas que o exportado tinha 2000 itens diferentes do nacional… será porque? Será que o brasileiro merece o pior? E isto não é só com referência a carros, é também em referência a alimentos, então vejamos, as frutas exportadas são sempre as de melhor aparência, não pode ter sido usado defensivos em sua produção, a que fica aqui é o resto, aquelas que não passaram no controle de qualidade para exportação… Fica a pergunta: Nossos filhos merecem comer as piores porque? Será que ainda temos que nos satisfazer com as sobras da mesa do senhor até hoje?

  10. Áureo Ramos de Souza disse:

    Depois de ler toda a noticia e alguns comentários faço uma pergunta porque os fabricados aqui não são iguais aos exportados? Temos só veículo de fachada e que só serve para pagamento de ídolos em suas propagandas! Temos vinhos de boa qualidade e vejam que nossos vinhos não foram as bebidas escolhidas pelo comitê da Copa. Os vinhos Carreteiros, São João, vinho do Frei e outros é vinho de pobre, temos que nos contentar com o que não presta. Tenho um amigo na CEASA (CEAGESP em São Paulo) que vende LIMÃO e paga a seus trabalhadores uma extra para a escolha dos melhores limão para o Mercado Bompreço, isto não é um absurdo porque a diferença? E o brasileiro que se exploda. Em 1953 meu pai possuía 2 Cadillac Rabo de Peixe um na praça João Alfredo e outro na Praça 17, era um senhor conforto e de lataria impecável podia até pular em cima, de certo que nesta época não havia fábrica de automóvel no Brasil. Mais ainda lembro do FNM (Fabrica Nacional de Motores) eram caminhões bons e já montados no Brasil.

  11. celso disse:

    Acredito que nosso problema não seja a “política de conteúdo nacional”
    Temos vinhos sem qualificação, mas…..
    Fonte: suchen.welt.de
    “Weine aus Brasilien exportiert werden und beginnen, Erfolg in Deutschland machen 20” ergab leider keine weiteren Treffer.” Traduzindo:” Vinhos do Brasil são exportados e começam a fazer sucesso na Alemanha”
    Temos carros mal produzidos, mas….
    A EMBRAER está ai para quem quizer se orgulhar. “Embraer já é a 3ª maior fabricante de aviões do mundo” Fonte:www.revistapress.com.br › Revista › Edição 129‎
    E por aí vai.
    Pena que na época da criação do Plano Cruzado e até o final dos governos que o Sr.Bacha acompanhou, os juros da Selic estiveram nas alturas inviabilizando qualquer política de desenvolvimento. E olha que o currículo do Sr.Bacha é fabuloso.
    Muitos acidentes no Brasil são pelo fato de que muito brasileiro não sabe dirigir nem a 80km/h. Adicionando um pouco de álcool e estradas ruins, teremos a carnificina que vemos.
    Afinal nem uma Ferrarri aguenta nossos motoristas.”Ferrari de R$ 2 milhões fica destruída em acidente na Marginal Tietê” nesta semana.
    Lembrem que o Japão começou copiando, produzindo mal e hoje é o que é.
    A China está trilhando o mesmo caminho. A Coreia do Sul não iniciou produzindo bons carros.

  12. Élio J. B. Camargo disse:

    Sobre o caso de sucesso da Embraer “Muitos diriam que esse exemplo não vale. É uma exceção. No entanto, serve para lembrar que o aumento do conteúdo importado deve ser avaliado num contexto mais amplo. Um setor que esteja inserido nas cadeias globais de produção pode ao mesmo tempo registrar elevado conteúdo de importação e de exportação. O que é preciso analisar é quanto se adiciona de valor no território doméstico.
    A exportação de aeronaves brasileiras, na qual se destaca a presença da Embraer. O coeficiente de exportações no setor (participação do valor exportado no valor da produção industrial), segundo o estudo da CNI, foi de 89,6% no ano de 2011, mas o das importações também é alto, 89,1%. A importação dos insumos barateia o custo de produção e tem um efeito positivo sobre a competitividade. Mas, em termos de valor adicionado, o que a Embraer contribui para o PIB? A contribuição está associada ao projeto de engenharia e/ou ao conteúdo de inovação tecnológica embutida na produção da aeronave. Além disso, as exportações líquidas do setor são positivas (diferença entre o coeficiente exportado e a participação do valor das importações na produção industrial). OESP (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,so-exigir-conteudo–nacional-nao-garante-competitividade-,850677,0.htm).

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