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LULA-GRABOIS

Caso do terço vira provação para agências de fact-checking

Vaticano não confirmou expressamente, mas também não negou que terço foi enviado a Lula pelo Papa

Caso do terço vira provação para agências de fact-checking
Caso pôs em xeque agências de fact-checking(Fonte: Reprodução/Dirk Dallas/Flickr, CC BY-NC)

O ex-presidente Lula foi pivô, nesta semana, de um caso que pôs em xeque as “metodologias” para identificação de fake news, a imprensa, em geral, e as agências de fact-checking, em particular, porque essas agências prometem fazer particularmente bem o que a imprensa sob todos os nomes não pode se prestar a fazer mal, que é ir lá e conferir. Trata-se do caso do terço que chegou até Lula na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, no início da semana, e que teria sido enviado pelo Papa Francisco num gesto pontifício de alta carga política.

O Papa enviou recentemente a pelo menos dois outros conhecidos políticos presos (apontados por seus apoiadores como presos políticos) em países vizinhos ao Brasil, na Argentina e no Equador, terços idênticos ao que chegou até Lula.

Na Argentina, trata-se de Milagro Sala, conhecida ativista, dirigente da Organização Indigenista Tupac Amaru e deputada do Parlamento do Mercosul. Milagro foi presa em janeiro de 2016 na província de Jujuy por “instigação ao crime e à desordem”. No dia de sua prisão, seu marido denunciou que ela se tornava a “primeira presa política do governo Macri”. É considerada assim por diversas organizações argentinas e internacionais de defesa dos Direitos Humanos.

Em outubro daquele ano, a Comissão de Direitos Humanos da ONU emitiu um “apelo urgente” para que Milagro fosse libertada. O apelo foi endossado em julho de 2017 pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Meses antes, em março, Milagro recebeu o terço do Papa, seu compatriota, na prisão de Alto Comedero, em Jujuy. O emissário de Jorge Mario Bergoglio foi o vereador de Buenos Aires Gustavo Vera .

Foi, na verdade, a segunda vez que o Papa Francisco enviou um terço a Milagro Sala. A primeira aconteceu após o encarceramento da deputada, em fevereiro de 2016. Naquela ocasião, o terço destinado a Milagro foi entregue pelo Papa aos cuidados de Enrique Palmeyro, diretor da organização educativa Scholas Occurrentes. Também na época, o reitor da Universidade Católica de Buenos Aires, Monsenhor Victor M. Fernandez, escreveu um artigo sobre o caso para o jornal La Nación, no qual disse:

“Soube que ela escreveu uma carta para Francisco e alguns sugeriram que ele a respondesse, já que a conhece pessoalmente. Mas ele optou por enviar apenas um rosário, que é um instrumento para rezar, sem maiores considerações que pudessem significar uma opinião ou interferência em um processo judicial, que ainda é muito dúbio nessa sua fase introdutória”.

Correa com terço que levou a Jorge Glas
(Fonte: Reprodução/cynthiagarcia.com.ar)

Em maio desse ano, Francisco enviou um terço ao ex-vice-presidente do Equador Jorge Glas, que foi afastado do cargo após ser condenado em dezembro do ano passado a seis anos de prisão “por ligação com a Lava Jato”. Políticos do Equador e de outros países da América Latina dizem que o processo que resultou na condenação de Glas foi repleto de flagrantes irregularidades, e que as razões de sua prisão são políticas. O ex-presidente equatoriano Rafael Correa disse recentemente que se o processo contra Glas tivesse acontecido em seu governo “já teria sido denunciado na Corte Internacional de Haia”. Foi justamente Correa o encarregado de levar ao preso o terço do Papa.

Tanto Lula quanto Milagro Sala e Jorge Glas receberam no cárcere um rosário do Vaticano arrumado num estojo vermelho junto com um cartão pontifício onde aparece o brasão franciscano que Jorge Mario Bergoglio escolheu como insígnia de sua atividade eclesiástica, em 1992, quando foi nomeado bispo na Argentina, e que decidiu conservar quando foi escolhido Papa, duas décadas mais tarde. Em nenhum dos três casos (quatro, porque Milagro ganhou dois) o emissário de Bergoglio foi um representante da Igreja Católica.

Terço que Lula recebeu na carceragem em Curitiba (Fonte: Reprodução/PT)

No caso de Lula, quem trouxe o terço ao Brasil foi o advogado argentino Juan Grabois, consultor do Vaticano e amigo pessoal do Papa, cuja visita a Lula para entregar o “kit” pessoalmente foi impedida pela Polícia Federal. Trata-se de um leigo batizado ligado a movimentos sociais, como os agentes leigos das pastorais e comunidades eclesiais de base, cujas centenas de milhares de participantes tiveram papel importante no processo de formação do Partido dos Trabalhadores, 40 anos atrás.

Portanto, se não desse para cravar, havia, ao mesmo tempo, sinais de que o terço enviado a Lula na prisão poderia perfeitamente, a julgar por todo o histórico recente e pelas credenciais do mensageiro — para não falar no brasão franciscano –, ser um presente papal. Só uma negativa clara, expressa, do Vaticano poderia autorizar a dizer que se tratava de um delírio que Francisco tivesse enviado um terço, ou um sinal político, especialmente para Lula.

A Agência de Notícias do Vaticano informou, inicialmente, na terça, 12, diante da repercussão do caso e das dúvidas que o caso levantou, que ele, o terço, foi “abençoado” pelo Papa e enviado ao ex-presidente brasileiro como a “tantos prisioneiros do mundo sem entrar no mérito de realidades particulares”. Agências de fact-checking brasileiras correram, com a nota da agência do Vaticano debaixo do braço, para classificar como “falsa” a notícia de que “Papa enviou terço a Lula”.

Verdadeiro ou falso?

No fim da tarde de terça, porém, essa nota foi apagada do site da agência do Vaticano e substituída por uma “Correção sobre o caso Grabois-Lula”. Segundo a agência, havia “imprecisões” na transcrição e na tradução da nota anterior. O caso é que, na “correção”, segue não havendo confirmação, mas tampouco há mais desmentido de que o terço foi enviado especialmente a Lula pelo próprio Papa.

Conforme, aliás, tantos outros episódios envolvendo a figura “revolucionária” de Francisco — como o “Deus te fez assim e te ama” dito a um homem gay — que renderam tantas páginas de jornal e horas de telejornal no Brasil e no mundo, mas que jamais foram claramente confirmados pelo Vaticano, e que jamais foram negados também.

O caso Lula-Grabois parece ser a primeira retumbante provação para as agências de fact-checking brasileiras que se associaram ao Facebook numa diligência para conter a proliferação de fake news nas eleições de outubro. A checagem da agência Lupa sobre o caso, por exemplo, traz o aviso: “Esta checagem faz parte do projeto de verificação de notícias no Facebook”.

Quase 24 horas após a segunda nota do Vaticano, até a tarde dessa quarta-feira, 13, o veredito da agência Lupa para a notícia “Papa envia terço a Lula” ainda era “falso”, a pior classificação possível, com a agência sustentando essa classificação mesmo depois da correção da informação por parte da fonte, e ainda que citando essa correção. As outras classificações da Lupa são “verdadeiro”, “verdadeiro, mas”, “ainda é cedo para dizer”, “exagerado”, “contraditório” e “insustentável”, além de “de olho”, para a qual na noite de quarta a agência mudou o caso do terço, até então dado como boato, ou fake news.

A modificação foi feita logo após a divulgação por Juan Grabois de uma carta sua a Lula. É uma longa carta. Sobre o xis da questão, Grabois diz que esteve com o Papa em maio, conversou com Francisco sobre a situação de Lula (quem ele considera “objeto de uma perseguição política”) e pediu-lhe “um rosário abençoado para levar a ti. Assim foi”.

Não é difícil supor que, à luz de tudo disso, à pergunta “Papa enviou terço a Lula?” aparecerão as respostas mais ao gosto dessa ou daquela visão política, dessa ou daquela visão do Brasil, até desse ou daquele ódio, e nem por isso terão que virar questões de “verdadeiro ou falso”, como nos testes da escola primária. Isso porque a realidade, a própria vida que se faz, é uma ambígua incorrigível, cheia de nuances, dada a interpretações, passível de argumentos, crivada de contradições, tantas que nem mil e uma etiquetas de checagem serão um dia capazes de abarcar, muito menos resolver — como as contradições no seio do Vaticano. A não ser quando se trata de desmentir boatos sobre doações de filhotes de labrador.

Assim, as agências de fact-checking, também elas, veem-se agora, ou melhor, mais que nunca, em dificuldades com uma questão fundamental do jornalismo, a credibilidade, porque, afinal, é precisamente o mais elementar em matéria de jornalismo o que elas se propõem a fazer, e reivindicando o suprassumo da excelência: o trabalho de checagem. Pois, no fim das contas, o que está sempre em jogo, com lupa, com pena ou microfone na mão, em matéria de jornalismo, é a ética, a responsabilidade, o compromisso com o direito das pessoas do nosso tempo à informação fidedigna, o que significa ter sempre em vista, em vez de tentar expurgar, aquelas mais de mil e uma contradições.

Só assim, inserida na realidade, não como agência reguladora da verdade, a “melhor profissão do mundo”, se resistir ao seu pior, poderá contribuir para “lenir as dores do parto”, como dizia um mestre, referindo-se à necessidade de esclarecimento sobre as transformações por que passa a moderna sociedade, um dia após o outro, debaixo de olhos que nem tudo podem ver.

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2 Opiniões

  1. José Antonio Alves disse:

    Independentemente desse terço ter sido enviado pelo Papa ou não, o Lula já está na idade de pegar este objeto e rezar 200 (duzentos) Pai-nosso e Aves Marias por dia, até o fim da vida para ver se Deus o perdoa de todos os males que ele fez para o Brasil e para toda sua população.

  2. Almanakut Brasil disse:

    O lugar do BANDIDO e sua quadrilha é no Inferno e quem quiser que vá com eles!

    A Igreja Católica não quer saber de excomungados!

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