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VIOLÊNCIA EM PACARAIMA

Cerca de 1.200 venezuelanos deixam o Brasil após ataque em Roraima

Moradores de Pacaraima destruíram e queimaram acampamentos de imigrantes

Cerca de 1.200 venezuelanos deixam o Brasil após ataque em Roraima
Ataque aos acampamentos foi organizado por redes sociais (Fonte: Twitter/SimoneRJ_BR)

Cerca de 1.200 imigrantes venezuelanos deixaram o país no último domingo, 19, por conta da onda de violência que culminou com a destruição de acampamentos de venezuelanos em Pacaraima, cidade na fronteira de Roraima com a Venezuela. A informação foi divulgada no domingo, pelo coronel do Exército Hilel Zanatta, que comanda a Operação Acolhida, destinada a atender os imigrantes.

Os atos de violência começaram após um comerciante brasileiro ter sido assaltado e agredido supostamente por imigrantes venezuelanos na noite da última sexta-feira, 17. Na tarde do sábado, 18, moradores de Pacaraima percorreram a cidade destruindo acampamentos de venezuelanos, agredindo imigrantes – incluindo crianças – e ateando fogo em seus pertences.

No domingo, após uma reunião de emergência, o governo federal anunciou medidas como o envio de um reforço de 120 homens para a Força Nacional em Roraima, além de 36 voluntários da área da saúde para atendimento aos imigrantes venezuelanos, em parceria com hospitais universitários. Em uma nota à imprensa, a Presidência da República também informou que “continua em condições de empregar as Forças Armadas para a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) em Roraima”, mas afirmou que “por força de lei, tal iniciativa depende da solicitação expressa da governadora do estado”.

A governadora de Roraima, Suely Campos (PP-RR), criticou o comunicado, ressaltando que as medidas anunciadas por Temer vêm sendo solicitadas pelo estado há mais de um ano, mas somente após “um episódio de violência”, o presidente Michel Temer resolveu tomar providências. Em agosto do ano passado, o emprego das Forças Armadas por meio de um decreto para a Garantia da Lei e da Ordem (GLO) foi solicitado por Suely, mas seu pedido foi ignorado.

“Nós, que estamos vivenciando essa crise, apontamos essas e outras soluções em ofícios enviados a Brasília. Infelizmente, foi preciso um episódio de violência para o governo federal entender que precisa enfrentar o problema de forma mais efetiva. Se implementadas, com certeza vão aliviar os impactos para nossa população, mas não resolvem o problema. Na saúde, que hoje sofre o maior impacto da imigração, pois nos primeiros seis meses deste ano o número de atendimentos, cirurgias e internações de venezuelanos já superou o que foi registrado em 2017, a grande necessidade não é de profissionais, mas de medicamentos e de leitos. O presidente Temer precisa implantar o Hospital de Campanha prometido quando esteve aqui no Carnaval”, disse a governadora.

A cidade de Pacaraima é a principal porta de entrada de venezuelanos que vêm para o Brasil. Autoridades locais informaram que cerca de 1,5 mil imigrantes viviam em acampamentos improvisados nas ruas antes do episódio.

Entenda o episódio

O ataque aos acampamentos de venezuelanos foi organizado por redes sociais e, segundo estimativas, contou com a participação de 1 mil pessoas.

O estopim foi o assalto ao comerciante Raimundo Nonato, de 55 anos. Ele foi assaltado na noite da última sexta-feira, 17, quando chegava em casa em Pacaraima. Abordado por dois homens, Nonato reagiu ao assalto e levou uma paulada na cabeça.

Nonato teve de ser transportado para um hospital da capital em um carro civil, pois a ambulância do Hospital de Pacaraima Délio Tupinambá não estava na cidade e a da Operação Acolhida foi negada porque estava com um retrovisor quebrado, segundo informou a assessoria da operação. Porém, no caminho, o carro que levava Nonato cruzou com a ambulância de Pacaraima, que terminou de socorrer o ferido e o transportou até o Hospital Geral de Roraima, na capital Boa Vista.

A família de Nonato, que já recebeu alta do hospital, relatou à Polícia Militar suspeitar que os autores do assalto eram dois venezuelanos. A notícia se espalhou pelas redes sociais e ataques contra os imigrantes começaram a ser convocados. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o venezuelano Yineth Manzol, de 26 anos, relatou o momento em que o abrigo onde vive foi atacado. Ele estava com as três filhas, com 7 anos, 5 anos e 10 meses de idade, quando o abrigo em que estavam foi atacado por um grupo de brasileiros que, armados com paus e pedras, agrediam quem encontravam pela frente.

“Agarraram os meninos e os agrediam. Batiam nos pais. Atiravam pedras, telhas. Batiam na cabeça. Pegaram nossa comida e nos expulsaram como se fôssemos cachorros. Quem estava no banheiro [e não pôde fugir] ficou sem nada”, diz Manzol, que agora não sabe para onde vai (confira aqui a entrevista na íntegra).

Os abrigos improvisados foram destruídos e queimados por moradores de Pacaraima que querem que os imigrantes saiam da cidade. A polícia informou que ninguém foi preso.

Um dos videos que circulou pelas redes sociais chocou ao mostrar brasileiros aplaudindo e cantando o hino nacional, enquanto famílias de imigrantes venezuelanos – que vieram para o Brasil para fugir da galopante crise econômica e humanitária na Venezuela – deixavam o Brasil por medo da violência. O comportamento dos brasileiros no vídeo chegou a ser comparado à Alemanha nazista.

Fontes:
G1 - Após ataques de brasileiros, 1,2 mil venezuelanos deixaram o país, diz Exército
G1 - Venezuela pede ao Brasil para proteger seus cidadãos após ataque

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1 Opinião

  1. Maria Aparecida Nunes disse:

    Eu me envergonho deste episódio. São brasileiros mesmo que cantam o hino nacional expulsando famílias.
    Crianças sendo espancadas. É uma realidade muito cruel. Cantamos e defendemos AMOR e vemos o contrário.

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