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POLÍTICA EXTERNA

Condução ideológica das relações exteriores isola Brasil na América Latina

Incapaz de dialogar com políticos de ideologia divergente da sua, Bolsonaro insiste em brigas inúteis com parceiros estratégicos

Condução ideológica das relações exteriores isola Brasil na América Latina
Situações se repetem, em graus diferentes, em relação ao Chile e ao Uruguai (Foto: Alan Santos/PR)

É difícil crer, mas até junho deste ano Jair Bolsonaro (PSL) e Paulo Guedes falavam na criação de uma moeda única para o Mercosul. Meses depois, ao ver seu aliado, o ex-presidente em exercício da Argentina, Mauricio Macri, derrotado nas eleições pela chapa peronista de esquerda, o mandatário brasileiro mudou de ideia e pensa em expulsar a Argentina do bloco – o que é impossível, conforme o regulamento acordado entre os países.

Na verdade, tanto a criação de uma moeda única quanto a expulsão do país vizinho do Mercosul são ideias ruins e impraticáveis fruto de um mesmo equívoco de Bolsonaro: confundir a afinidade ideológica com outros líderes mundiais, ou uma pretensa amizade, com afinidade entre Estados.

“Há uma total incompreensão sobre como se dão as relações internacionais”, resumiu, em entrevista ao portal Uol, o ex-ministro das Relações Exteriores do governo Lula, Celso Amorim. “Você representa o Estado e você representa os diferentes interesses do Estado. O Brasil tem fronteira com a Argentina e isso não vai mudar”, diz.

Como exemplo, o ex-chanceler apontou a infantil decisão do atual presidente brasileiro de não cumprimentar o vencedor das eleições argentinas. Além disso, quebrando uma tradição de 17 anos, Bolsonaro avisou que não comparecerá à posse do vizinho.

“Desejar felicidades a um país com o qual você tem relações diplomáticas é como cumprimentar alguém conhecido na rua. Você não precisa concordar com ela. Mike Pompeo [secretário de Estado dos EUA] cumprimentou. Ele sabe da importância da Argentina. Agora, se ela é importante para os EUA, imagine a importância que ela tem para o Brasil”, conclui.

Além de quebrar protocolos, Bolsonaro expõe o Brasil a desconfortos inúteis com a Argentina, terceira maior compradora de produtos brasileiros. O que já vem gerando respostas institucionais que podem impactar nos negócios – na semana passada, o chanceler de Macri, Jorge Faurie, enviou uma carta ao embaixador brasileiro em Buenos Aires condenando os ataques de Bolsonaro ao novo presidente, Alberto Fernández.

Empresários brasileiros já olham para a situação com desconfiança. Ouvida pela Folha de S.Paulo, a AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil) considera que o bate-boca protagonizado pelo presidente brasileiro não trará benefícios ao país. “Não podemos abrir mão da Argentina porque a China pode ficar muito feliz com qualquer prejuízo na relação”, avisa José Augusto de Castro, presidente da associação.

Situações semelhantes se repetem, em graus diferentes, em relação ao Chile e ao Uruguai.

No caso chileno, Piñera, o atual presidente, balança no cargo por consequência dos massivos protestos populares que tomam as ruas de Santiago e outras cidades, e já admite reformular a Constituição, fazendo diversas concessões à esquerda majoritária no Congresso, para se manter presidente.           

A Previdência do país, principal inspiração de Guedes, é um dos itens que deve ser alterado. Tendo Piñera prioridades mais urgentes, a ideia bolsonarista de formar um “bloco liberal” com o vizinho andino vai, assim, por água abaixo.

Já o Uruguai decidirá, em novembro, quem será seu novo presidente. De um lado está a Frente Ampla, de esquerda, encabeçada por Daniel Martínez; do outro, o direitista Lacalle Pou. Bolsonaro não perdeu tempo em declarar sua preferência por Pou, que, no entanto, rechaçou o apoio do brasileiro.                               

“Se eu fosse presidente da República, e houvesse uma eleição no Brasil, a última coisa que eu faria seria dizer quem eu prefiro que ganhe”, disse o político à imprensa uruguaia.

Para o cientista político Ricardo Markwald, diretor-geral da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior, a situação é consequência da falta de um ministro experiente e pragmático nas Relações Exteriores. Em entrevista ao jornal alemão Deutsche Welle, ele avalia:

“Neste momento, o Itamaraty parece não estar no comando. Então é difícil responder se a atitude de Bolsonaro será ideológica ou pragmática. Teremos alguma escalada [nas provocações]?”, questiona.

Também com a Bolívia, maior fornecedora de gás natural para o Brasil, os Bolsonaro estão a causar problemas. Dessa vez, por intermédio de uma fala de Eduardo Bolsonaro (PSL), embaixador frustrado, que afirmou que “está na cara” que as eleições recentes que deram um novo mandato a Evo Morales “foram fraudadas”.      

Para Guilherme Casarões, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas, Bolsonaro busca construir uma política externa baseada no personalismo, estreitando relações com líderes com pensamentos iguais aos seus. “O grande desafio foi encontrar líderes que comungam desses mesmos valores e dessas ideias”, avaliou, em entrevista ao Uol, o cientista político.

Tal estratégia carrega, ainda, um risco óbvio. E se um dos “amigos de Bolsonaro”, como aconteceu com Macri, perder as eleições em seu país? “Isso pode isolar o Brasil”, explica Casarões. “Claro que esse isolamento é relativo, já que o Estado continua com suas relações que vão além dos líderes, mas não haverá a mesma proximidade. Vai haver um afastamento político natural”.

É o que está para acontecer com Israel, onde Benjamin Netanyahu, representante da direita, não conseguiu formar governo, abrindo espaço para que a centro-esquerda assuma o poder.

E, também, o que já aconteceu em relação à Itália: no mundo ideal de Bolsonaro, o extremista de direita Matteo Salvini seria o novo primeiro-ministro do país. Mas um acerto entre a centro-direita e a esquerda isolou Salvini, esfriando, por ora, suas pretensões políticas. Outros líderes europeus que fariam a “ponte conservadora” de Bolsonaro com o velho continente, Viktor Orbán, na Hungria, e Tayyip Erdogan, na Turquia, deram mostras de fraqueza eleitoral nas eleições municipais de 2019. O recado para Bolsonaro é claro: pelo menos por mais alguns meses, ele terá de conviver com a hegemonia da alemã Angela Merkel e do francês Emmanuel Macron no continente.

Frente ao crescente isolamento internacional, a Bolsonaro restará se fiar em sua subserviente proximidade ideológica com Donald Trump.

O presidente estadunidense, no entanto, vem dando repetidas mostras de que o amor do brasileiro não é correspondido.               

Em outubro, rejeitou o pleito de Bolsonaro para apoiar a entrada do Brasil na OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), contrariando um anúncio feito pelo governo brasileiro quando da visita do presidente aos EUA. E, mais recentemente, em uma medida claramente protecionista, Trump manteve o veto à importação de carne bovina brasileira. Indícios de que Bolsonaro está, cada vez mais, só.

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4 Opiniões

  1. Rogério Freitas disse:

    Mais um ditado popular vem à tona: “o risco de andar na contra-mão é dar de cara com um imbecíl que esteja na mão”. Na política também tem mão e contra-mão e,consequentemente tem também os seus riscos, que não são poucos. No caso da política o risco não é apenas do condutor irresponsável, sobra para todos, sejam os que escolheram o condutor ou os que não o escolheram.

  2. Roberto Eustáquio Neves disse:

    Infelizmente creio que estamos caminhando para uma ditadura de um governo neofascista.

  3. Rafael de Barros Faria disse:

    Resumindo, idocracia pura…

  4. Dinarte da Costa Passos disse:

    Sabe o que estamos caminhando para uma “Burrocracia” no sentido de “Jumentocracia” mesmo.

    Não tem Ciência Política que explica essa forma de governo implantada pelo Bozo.

    Somente a Ciência Médica e a psiquiatria pode esclarecer a esquizofrenia do Bozo. Eu não sei por que ainda não internaram ele em um manicômio.

    Brincadeira! Tenho que dizer que vivi o necessário para ver tudo isso. Vai entrar para a História!

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