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DEMOCRACIA EM RISCO

Congresso pode ter ‘bancada marcial’ na próxima legislatura

Na democracia brasileira, militares ora discutem não 'se', mas por qual via intervir, por assim dizer, nas instâncias do poder

Congresso pode ter ‘bancada marcial’ na próxima legislatura
Cerca de 70 pré-candidatos oriundos das Forças Armadas pretendem disputar as eleições (Foto: Wikipedia)

No dia do julgamento do Habeas Corpus preventivo do ex-presidente Lula no Supremo Tribunal Federal, no início de abril, o decano do STF, Celso de Mello, passou um pito em plenário sobre “declarações impregnadas de insólito conteúdo admonitório claramente infringentes do princípio da separação de poderes”. O recado era para o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, que na véspera do julgamento publicara no Twitter mensagens que foram entendidas como ameaças principalmente a uma titubeante Rosa Weber. Chamou a atenção também, naquela feita, uma outra resposta a Villas Bôas, na forma de um tweet:

“Caro Comandante, Amigo e líder receba a minha respeitosa e emocionada continência. Tenho a espada ao lado, a sela equipada, o cavalo trabalhado e aguardo suas ordens!!”.

O autor da mensagem foi Paulo Chagas, que, além de general da reserva, é hoje pré-candidato do PRP ao governo do Distrito Federal. Chagas está agora mesmo empenhado em levar ao seu palanque, se possível com exclusividade na corrida pelo Palácio do Buriti, o candidato à presidência da República Jair Bolsonaro. Trata-se de um general disputando com terceiros o apoio de um capitão.

Sobre a greve dos caminhoneiros, em entrevista dada na semana passada aos jornalistas do programa CB Poder, do Correio Braziliense, Paulo Chagas disse que, em vez de manifestação, ele prefere chamar de “demonstração”. Demonstração de quê? O repórter não fez essa pergunta, mas o próprio general, mais esse, encarregou-se de indicar a resposta, sempre via Twitter:

“Temos que ir às urnas, sejam elas quais forem e, se houver falcatrua, os caminhoneiros já nos ensinaram o que temos que fazer!!”.

Forças Armadas ‘lisonjeadas’

Na última quinta-feira, 31 de maio, na “Marcha Para Jesus” em São Paulo, o capitão Bolsonaro explicou, sobre a palavra de ordem que saiu dos piquetes caminhoneiros e invadiu muitas cidades brasileiras: “Eu nunca defendi intervenção militar nenhuma, nunca disse isso. Se um dia um militar chegar ao poder, será através do voto. É essa a minha posição”.

Poucos dias antes, Janio de Freitas intitulava assim sua coluna, uma das mais conceituadas da imprensa brasileira: “A situação provocada pelos caminhoneiros se ajusta ao que Bolsonaro diz e representa”.

De fato, o clima regressivo vivificado pela greve dos caminhoneiros, mas já no ar desde antes, fruto do descrédito na política – com tanta incompetência, corrupção e bateção de cabeça civil, por assim dizer –, parece deixar muitos militares (sobretudo aqueles a quem o próprio general Villas Bôas se referiu há não muito tempo como “reserva pró-ativa”) à vontade para discutir não “se”, mas por qual via começar a intervir mais diretamente nas mais altas instâncias do poder. Ou, conforme trocou em miúdos, em entrevista à Folha, outro general da reserva, Augusto Heleno:

“É lógico que as Forças Armadas se sentem lisonjeadas pela credibilidade que essas faixas demonstram, mas têm plena consciência de que esse não é o caminho. O caminho são as eleições que vão acontecer”.

É esse também o entendimento de um outro general da reserva — mais um –, esse cotado para compor a chapa de Jair Bolsonaro no posto de candidato a vice-presidente da República.

Um upgrade na ‘bancada da bala’

Trata-se de Hamilton Mourão, o ex-chefe do Comando Militar do Sul que em 2017 ameaçou o país com intervenção militar caso o Judiciário não fosse capaz de sanear a política. Recém-filiado ao PRTB, Mourão é tido hoje como um dos maiores divulgadores da chamada “Frente Militar”, uma tentativa de “intervenção eleitoral” que já conta com cerca de 70 pré-candidatos oriundos das Forças Armadas e que pretendem disputar cargos nas eleições de outubro, postulantes à Câmara e ao Senado, governos e assembleias estaduais, para não precisar lembrar da presidência da República.

Em recente entrevista à revista Veja, Hamilton Mourão disse que a plataforma da “Frente Militar” deverá ser montada de dentro do Clube Militar, que todos os anos celebra com regabofes o aniversário do golpe de 1964, evocado ali como “revolução”, e cuja presidência ele, Mourão, acaba de assumir após ser eleito “por aclamação”. Entre as “propostas” da frente, em linhas gerais, estarão desde o combate à corrupção até o resgate de “princípios, valores e tradições” que estão sendo, segundo ele, “jogados na lata do lixo”.

Candidatos de origem militar não são propriamente uma novidade. A novidade é a “frente”, o bloco. Em uma outra entrevista, ao UOL, Mourão afirmou: “Existe um termo usado na Brigada Paraquedista que diz que aves da mesma plumagem voam juntas. Esse grupo militar que eventualmente for eleito vai ser uma bancada, apesar de pertencer a diferentes partidos”.

“Vamos chegar pelas urnas”, disse, por fim, descartando o molde de 1964, mas como quem diz que há outros moldes na praça para “surfar” o mau clima atual.

Diante da liberação sem maiores constrangimentos ou pudores de apelos à derrubada da democracia, nas palavras da coluna seguinte de Janio de Freitas, pode-se dizer que uma eventual “bancada marcial” na próxima legislatura do Congresso Nacional seria uma das que terão maior, digamos assim, poder de fogo. Seria um upgrade na bancada da bala – downgrade na República Federativa do Brasil, “em memória do coronel Brilhante Ustra”.

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10 Opiniões

  1. Rogerio Faria disse:

    Ninguém e/ou nenhuma instituição são paradigmas da moralidade.
    Existe podridão nos quartéis, nas igrejas, nos órgão públicos, etc. etc…
    O que temos é uma democracia fragilizada, propícia para os aproveitadores de plantões messiânicos.
    Votar direito ou anular o voto, é simples…

  2. Almanakut disse:

    Vossa Excelência – Titãs

    Bruna Ricaldoni

    https://www.youtube.com/watch?v=D1Y1_4_PBbQ

  3. Almanakut Brasil disse:

    Se DEUS quiser, que venham legisladores decentes, para promover mudanças no Manual da Legislação em Causa Própria, chamado de Carta Magna!

    Além do mais, de tanto idolatrar bandidos, os brasileiros de bem estão vendo o caminho para separar o joio do trigo, inclusive na imprensa!

  4. carlos alberto martins disse:

    o que tenho de melhor é minha idade.devido a mesma vivi váios momentos políticos,desde Getulio Vargas até o presente.quando aqui presto meus depoimentos,o faço por experiencia própria.em 64 fui jogado no porão do navio Cachoeira,como preso político.no passar do tempo,após solto,voltei a atividade na campanha O PETRÒLEO È NOSSO,a qual hoje é uma tremenda farsa.os militares reconheceram que a PETROBRAS,éra realmente patrimonio nacional.lamentavelmente tanto a mesma como outros setores pùblicos,tornaran-se entidades de vários partidos políticos as quais foram totalmente saqueadas em proveito proprio daqueles que admninistram o Brasil.acredito que com a entrada de militares no plano nacional de politica,irá trazer um pouco de esperança ao povo,e,quem sabe maior credibilidade.não sou contra os militares ou civis no poder,mais sim contra aqueles que estão no poder como se fossem deuses.está na hóra de termos esperança num futuro melhor e mais justo com aqueles que habitam nosso solo.o Brasil para aqueles que trabalham com dignidade para uma grandeza que todos merecemos.temos que por fim a pseudo diatadura democrática que se instalou no congresso,senado,stj,stf,etc.

  5. Severino de souxa barbosa disse:

    Creio que mais importante que a eleicao dos militares,por meio do voto,com o apoio popular,seria necessário,criar instrumentos,para preservar a constituicao,atalizando-a se preciso,e efetuar algumas mudancas nas estruturas dos três poderes,afim de evitarmos,que o judiciário,ocupe,como tem sido feito ultimamente,o lugar do legislativo.a redução dos partidos políticos,reduzindo-se a dois partidos por região, redução de membros da Câmara e senado,fim do foro.etc…

  6. ANTUNES BRANCO disse:

    O POVO JA ESTA CANSADO DA ROUBALHEIRA E INCOMPETENCIA QUE NOSSOS POLITICOS TEM DEMONSTRADO DESDE 1985. A LAVA JATO MOSTROU QUE POUCOS SAO REALMENTE POLITICOS. O RESTO – A GRANDE MAIORIA – SAO CRIMINOSOS QUE LA ESTAO PARA SAQUEAR O ESTADO E DESTRUIR O PAIS. NOSSA EDUCACAO FOI PARA O BREJO.A SAUDE NEM SE FALA. OS ALTISSIMOS SALARIOS E BENEFICIOS DAS CASAS LEGISLATIVAS LEGISLANDO EM CAUSA PROPRIA SAO UMA VERGONHA. NOSSA INFRA ESTRUTURA AINDA VIVE HOJE DAS OBRAS DAS DECADAS DE 70. LULA E A DILMA DESTRUIRAM A PETROBRAS E JOGARAM O PAIS NUMA CRISE COMO HA MUITO NAO SE VIA.A ESQUERDA ATE HOJE APOIA OS GOVERNOS DITATORIAIS DA VENEZUELA E CUBA. A CRIMINALIDADE CHEGA A 62.000 ASSASSINATOS POR ANO (UMA GUERRA DO VIETNAM A CADA ANO ) E O SR HUGO SOUZA ESTA COM MEDO DOS MILITARES ? ELE NAO TEM MAIS MEDO DOS BANDIDOS QUE SE INSTALARAM NO PODER ? ELE TEM MEDO DO BOLSONARO , UM DEPUTADO ELEITO PELO POVO SO PORQUE E’ MILITAR ?

  7. ANTUNES BRANCO disse:

    O SR HUGO SOUZA FALA UMA PORCAO DE COISAS MAS EU NAO ENTENDO O QUE ELE QUER DIZER. DADA A VERGONHOSA SITUACAO QUE O BRASIL CHEGOU DEPOIS DO DESASTRE DOS GOVERNOS DO PT E PELA MONSTRUOSA ROUBALHEIRA QUE SE INSTALOU NA POLITICA BRASILEIRA MUNICIPAL, ESTADUAL, E FEDERAL E’ NATURAL QUE AS PESSOAS DE BEM QUEIRAM UMA MUDANCA . SE TEMOS UMA LEI DA FICHA LIMPA QUE PROIBE CANDIDATURAS DE LADROES JULGADOS EM SEGUNDA INSTANCIA E O TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL E O STF AINDA NAO PUSERAM UM PONTO FINAL NA MALUQUICE PETISTA DE MANTER LULA CANDIDATO E’ NATURAL QUE AS PESSOAS BUSQUEM UM PODER QUE POSSA GARANTIR A ORDEM ESTABELECIDA E A CONSTITUICAO. O QUE OS GENERAIS ESTAO FALANDO PELO QUE LI ACIMA E’ QUE VAO PARTICIPAR DA POLITICA COMO CANDIDATOS. ENTAO QUAL O PROBLEMA ? A INFESTACAO DA ESQUERDA APODRECEU O PAIS. PRECISAMOS DE UM GOVERNO SERIO E DA DIREITA

  8. Aureo Ramos de Souza disse:

    Poxa, pelo que li, 70 militares do alto escalão poderão ser eleitos na próxima eleição e eles gostarão da greve dos caminhoneiros que gritaram intervenção militar. Será que eles mesmo sendo de partidos diferentes mais todos militares se unirão para uma nova intervenção militar? E como ficará os ladrões da Odebrecht, JBS. OAS, Petrobras, irão mofar na cadeia. Me segura senão eu caio.

  9. Brunodpadua disse:

    Seria interessante. Apesar de achar que tirar todos atuais políticos do poder seria a via mais rápidas. Meu medo é que o cesto podre, estrague as maçãs boas…

  10. João D Aniello disse:

    Acho que já passou da hora de mostrar que esses politicos não são soberanos, nem acima da lei e da ordem.

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