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IDEIAS AUTORITÁRIAS

Conservadorismo avança na sociedade brasileira

Palanque virtual das redes sociais, somado à desilusão com o cenário político e o medo da violência faz avançar o conservadorismo no Brasil

Conservadorismo avança na sociedade brasileira
Questões que conheceram avanços nos anos 2000 correm risco de retroceder (Foto: Flickr)

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (…), o meu voto é sim”. Assim concluiu seu voto a favor da abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff o deputado federal Jair Bolsonaro. Brilhante Ustra, o homenageado, foi chefe do DOI-CODI, o sinistro órgão da ditadura de 1964 responsável por perseguir, torturar, extrair informações e, em centenas de casos, eliminar pessoas consideradas ameaças ao regime militar.

Segundo colocado na maioria das pesquisas sobre as eleições presidenciais de 2018, atingindo entre 13% e 18% das intenções de voto, Bolsonaro tornou-se conhecido por apoiar medidas radicais como a pena de morte, a liberação da compra e porte de armas por civis e a redução da maioridade penal.

O deputado é um dos principais nomes entre os mais conservadores do Congresso. Costuma usar seus minutos no plenário para falar, entre outros, contra o que chama de “doutrinação de gênero” nas escolas, referindo-se aos projetos do Ministério da Educação que propunham a discussão de questões relacionadas ao machismo e à homofobia nas salas de aula.

E o deputado não está só. De acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o Congresso eleito em 2014 é, “seguramente, o mais conservador do período pós-1964”. Não por menos, questões que conheceram avanços nos anos 2000, como a legalização do aborto em determinados casos, voltam à pauta e podem retroceder.

Violência e moralismo 

Segundo uma outra pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Datafolha, o medo da violência é a principal razão para explicar a atual propensão do brasileiro a ideias autoritárias.

Vivendo numa realidade extremamente violenta – acontecem cerca de 60 mil homicídios ao ano no Brasil, e 50 milhões de adultos conheceram ao menos uma pessoa que foi assassinada – muitos vêm soluções em medidas que restringem, e não que alargam, os direitos humanos, conferindo mais poder às polícias, por exemplo, ou instituindo a pena de morte.

Este ideal revanchista de justiça que encontra-se resumido num dos bordões da onda conservadora, o de que “bandido bom é bandido morto”. Mas não só em questões de segurança pública o brasileiro tem pendido ao moralismo.

Em contraposição aos avanços logrados pelos ativistas LGBT e feministas nos últimos anos, um levantamento da agência Hello Research mostrou que 49% dos brasileiros são contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo; quanto ao aborto, de acordo com o Instituto Locomotiva de Pesquisa, 62% dos brasileiros seriam contra sua descriminalização.

Já segundo o Ibope, 7 em 10 brasileiros assumem já ter feito declarações discriminatórias como “mulher tem de se dar ao respeito”, “não sou preconceituoso, tenho até um amigo negro” e “pode ser gay, mas não precisa beijar em público”. O machismo, segundo a pesquisa, é o preconceito mais praticado no país.

Para José Álvaro Moisés, professor de Ciência Política da USP, uma camada da população sempre cultivou ideias reacionárias, mas, agora, encontrou meios para expressá-las.

Em entrevista ao jornal alemão Deutsche Welle (DW), explicou que “qualquer sociedade contemporânea complexa e desigual, como é o caso do Brasil, tem uma multiplicidade de interesses que estão escondidos e passam a se debelar publicamente, gerando uma série de conflitos”.

O filósofo Mario Sergio Cortella concorda com o professor. Em entrevista ao mesmo periódico, avaliou que “as mídias sociais favoreceram, sim, o despontar de um palanque” para ideias extremistas.

“Antes, era preciso, para se manifestar, algum poder mais presente ou a disponibilidade de uma tribuna mais socialmente evidente. Agora, como efeito colateral da democratização da comunicação, temos o adensamento da comunicação superficial, na qual todos têm alguma opinião sobre algo, mas poucos têm fundamentos ponderados para iluminar as opiniões”.

O palanque virtual, somado à desilusão do eleitor com o cenário político atual e o medo da violência, são os ingredientes para o surgimento de um líder autoritário como Bolsonaro, conclui o professor Álvaro Moisés.

“Se essa tendência de descrença e rejeição [à política] permanece por muito tempo, essas pessoas que se sentem desrespeitadas começam a formar uma base social a favor de posições autoritárias”.

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7 Opiniões

  1. Almanakut Brasil disse:

    Não só no Brasil, mas em vários países, o povo cansou dos quarqués!

    Dar poder nas mãos de ralés, infesta a máquina pública de parasitas e peçonhentos!

  2. Laércio disse:

    As coisas no Brasil já passaram do limite das ideias, que seja instituído já a instituição da pena de morte, prisão com cárcere isolado, proibição de quaisquer tipos de visitas, penas sob regime de trabalhos forçados, para todos os”colarinhos” criminais.
    Quanto a opção sexual, problema de cada um, jogos de azar, prostituição é problema de quem queira praticar, escolhe quem quer!
    Já passou da hora de alguns liberais pegarem seus passaportes…

  3. Lucinda Telles disse:

    Intelectuais-barnabés e filósofos de boteco gostam de rotular os outros de “conservadores”. Mas, como diz o velho jargão, “não existe nada mais conservador do que um revolucionário no poder”. Porque o que ele mais deseja é conservar-se lá.

  4. Norberto LGuimaraes disse:

    Os políticos e as ideologias q fazem a apologia do famigerado coronel Ustra, q fazem a apologia do regresso da ditadura militar e defendem uma Justiça vingativa cujo lema é “bandido bom é bandido morto”, não devem ser apelidados de conservadores, mas de radicais de extrema direita. São ideias contra a Democracia,propagandiadas por por políticos populistas de tendência ultra radical de direita que exploram o medo da violência e a sensação da falência do Estado na proteção da Sociedade.
    Erra o autor generalizar este grupo, ao conservadorismo democrático de parte importante da sociedade que influenciadas por suas convicções religiosas ou outras, não conseguem fazer a separação entre as considerações morais a q cada um tem direito, e outra são as leis q nos devem reger, que têm de ser laicas e atender ao bem comum, designadamente das populações mais desfavorecidas.
    Exemplo disso é a questão da descriminalização do aborto, q não deve ser abordado como uma questão de moral, mas sim como uma questão de saúde pública.

  5. jorge cardillo disse:

    Devemos sim exigir medidas duras contra a criminalidade, a entrada de armas e drogas em nossas fronteira, escolas de boa qualidade onde quem mandam são os professores e não alunos que não querem saber de estudar, redução da corrupção,redução de impostos para a economia girar, etc. O conservadorismos é o contraponto possível desta bagunça deslavada em que se encontra o País.

  6. Carlos U Pozzobon disse:

    Não sei por que os analistas não colocam o dedo na ferida: o problema do caos atual foi instalado pela governança petista de longa duração. A humilhação que vivemos nas mentiras demagógicas, na corrupção deslavada, no cinismo ostensivo, na transgressão da lei, só pode fazer com que o povo procure a tábua de salvação no lado oposto das alianças ideológicas do grupo que ocupa poder. E aí surgem os astuciosos salvadores da pátria, os autoproclamados imaculados pela lisura, os santinhos do pau oco, os pícaros broncos que nos reserva o próximo turno eleitoral.

  7. nereu disse:

    Esses chamados avanços democráticos estão destruindo a sociedade e o país.
    Aqueles que vivem achando ruim com Bolsonaro vivem fora da realidade brasileira,enfiados em seu mundo acadêmico e cheio de teorias.Digo a estes que existem dois mundos,o ideal, que esses se esforçam para viver e obrigar que todos vivam e, o real, a qual estamos sujeitos.Se o conservadorismo não melhorar o Brasil muito menos essa bagunça deslavada trará algum resultado.
    A propósito, se alguns desses iluminados doutores tiverem alguma ideia concreta para melhorar o país,além de ficar criticando o conservadorismo ,por favor , divulgue-as.

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