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O PREÇO DO CORTE

Constrangimento a chanceler francês pode atrasar acordo entre Mercosul e UE

Decisão de Bolsonaro de cancelar encontro para cortar cabelo é recebida como humilhação e fornece munição ao principal país opositor do acordo

Constrangimento a chanceler francês pode atrasar acordo entre Mercosul e UE
Principais jornais da França repercutiram o episódio (Foto: Reprodução/Facebook)

A decisão do presidente Jair Bolsonaro de cancelar, em cima da hora, na última terça-feira, 29, uma reunião com o ministro das Relações Exteriores da França, sob a justificativa de “problemas de agenda”, para, em seguida, aparecer na hora aproximada do encontro cortando o cabelo em uma transmissão ao vivo nas redes sociais repercutiu negativamente na França.

Nesta quarta-feira, 30, o Le Monde, um dos principais jornais da França, destacou o episódio e alertou que a decisão do presidente pode atrasar a ratificação do acordo entre Mercosul e União Europeia (UE). O acordo necessita do aval de todos os membros do bloco europeu, mas tem forte rejeição na França. E a decisão do presidente brasileiro oferece munição ao principal opositor do acordo.

Intitulado “Jair Bolsonaro cancela encontro com Jean-Yves Le Drian por um corte de cabelo”, o texto cita a explicação do porta-voz do governo brasileiro, Otávio Rêgo Barros, que sugeriu excesso de trabalho e falta de tempo do presidente.

“O presidente começa a trabalhar às 4 da manhã e termina à meia-noite. Ele precisa encontrar tempo para cortar o cabelo entre as 4 da manhã e a meia-noite”, disse o porta-voz.

A justificativa, no entanto, não convenceu olhares mais treinados em diplomacia, que detectaram na ação uma provocação ao governo francês. Primeiro porque, por mais cheia que seja a agenda, nenhum líder global, sob qualquer circunstância, fez algo parecido. Segundo porque é notória a rusga entre Bolsonaro e o governo francês em relação a assuntos ligados ao meio ambiente.

Conforme apontou o Le Monde, a ânsia do presidente brasileiro em acertar o corte em detrimento da reunião, não foi ao acaso, mas sim para humilhar o chanceler. “Ao aparecer publicamente no cabeleireiro, em vez de ao lado de um dos pesos-pesados do governo francês, Jair Bolsonaro afirma sua independência tanto quanto seu desprezo pelo discurso moralizador de Paris sobre o meio ambiente”, diz o texto.

O jornal destaca que, dias antes do encontro cancelado, Bolsonaro já havia dado uma declaração inflamada sobre o chanceler francês, que está em viagem pela América do Sul, em um café da manhã com jornalistas estrangeiros. Na ocasião, disparou outra provocação, ao se referir ao chanceler como “primeiro-ministro francês”.

“Ele não deve ser desrespeitoso comigo. Ele terá que entender que o governo no Brasil mudou. A submissão dos chefes de estado anteriores ao primeiro mundo não existe mais”, disse o presidente na ocasião.

Outra publicação francesa que repercutiu o assunto foi o jornal Le Figaro, em uma matéria intitulada “Bolsonaro cancela uma consulta com Le Drian…para ir ao cabeleireiro”.

“A reunião, que deveria ter ocorrido na tarde de segunda-feira, foi oficialmente cancelada ‘por questões de agenda’. Uma agenda tão movimentada que o presidente brasileiro encontrou tempo para cortar o cabelo na hora marcada para o encontro e para ser mostrado ao vivo por 12 minutos no Facebook, aparando a linha do cabelo”, ironizou a publicação.

Nem mesmo a revista ultraconservadora Valeurs Actuelles poupou Bolsonaro de críticas. A publicação, conhecida por publicar artigos com opiniões similares às do presidente brasileiro, classificou o episódio como “escândalo diplomático em Brasília”. “Algo jamais visto! Em matéria de diplomacia impulsiva, o presidente Jair Bolsonaro deve superar Donald Trump”, diz o artigo.

Além de atrasar ou mesmo dificultar a ratificação do acordo entre Mercosul e UE, a retórica diplomática de Bolsonaro pode impactar na economia, conforme alertou o professor de relações internacionais Oliver Stuenkel.

“Você pensa que a retórica não importa? Em uma conversa recente um professor do Sciences Po [o Instituto de Estudos Políticos de Paris] me disse: ‘Por razões que certamente você tem conhecimento, o Brasil não é um destino popular entre estudantes de intercâmbio franceses no momento. Eles preferem Colômbia ou Chile’. Impacto direto na economia”, afirmou Stuenkel.

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3 Opiniões

  1. DINARTE DA COSTA PASSOS disse:

    Tinha que ser o presidente mais otário da história brasileira para fazer isso. Fazia quase 200 anos que um chanceler de nação amiga não era desprezado desta forma. O chanceler americano teve sua audiência cancelada para dar espaço as diversões de Pedro I. e E agora em pleno século XXI um presidente jumento faz isso com o chanceler francês.

    Desde o Golpe Branco que derrubou DILMA a imagem do Brasil lá fora é péssima. Não tem mais governo que se imponha de forma inteligente é só gafe e nada mais. Já estou começando acreditar que o Mourão é o único capaz de moralizar este País.

  2. jayme endebo disse:

    Quanta desinformação! o ministro frances marcou uma audiencia porque eles estão querendo melar o acordo mercosul – união européia, bolsonaro sabendo disso deu um chega pra lá nele.Ainda por cima debochou com o corte de cabelo para irritar jornalista da folha de S.P.
    A mídia falou centenas de vezes que essa administração seria um desastre e que não teria a aprovação do acordo que levou vinte anos e não foi adiante e por que não foi? a esquerda brasileira é obediente aos desejos da esquerda européia.

  3. Roberto Henry Ebelt disse:

    JAYME ENDEBO está certo. Além disso a amada França, infelizmente, é uma perdedora nata e odeia os alemães que a conquistaram e os americanos que a libertaram. Agora querem melar as tratativas de Bolsonaro com a UE apenas porque nosso presidente não se submete às infantilidades do jovem e inexperiente Emmanuelzinho Macron que não passa de um pê-esse-debista europeu, pois adora ficar em cima do muro. Jesus disse: seja a vosso falar SIM, SIM ou NÃO, NÃO. Emmanuelzinho nem sabe se é de direita ou esquerda; certamente é de esquerda, pois ninguém se envergonha de ser direito.

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