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ENEM 2019

Conteúdo de esquerda de 2018 foi trocado por religião em 2019

Prova deste ano carregou menos em temas polêmicos como política e homossexualidade, mas ainda teve conteúdos ideológicos como marca registrada

Conteúdo de esquerda de 2018 foi trocado por religião em 2019
Exame deste ano carregou nas tintas no tema Religião (Foto: EBC)

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Há exatamente um ano, diversas questões do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) tinham flagrante conteúdo político e ideológico. Naquela ocasião, com o presidente Bolsonaro já vencedor nas urnas de uma disputa eleitoral que rachou o país, houve ampla contestação e críticas justas sobre a tendência claramente esquerdizante de diversas perguntas da prova. Tal fato gerou a promessa do governo eleito de que a prova – já neste ano de 2019 – abordaria somente o conteúdo programático proposto pelo ensino médio existente no país. Sem qualquer ideologia.

Não foi isso o que se viu, no entanto, na prova deste domingo, 3 de novembro. No exame aplicado em todo o país, entre as 90 perguntas, houve três questões que tratavam de temas como religiosidade cristã. A prova, que teve como redação a discussão sobre a “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”, deu espaço para perguntas com citações à norte-americana Madonna e ao cantor brasileiro Cazuza e seu “Blues da Piedade”. Mas carregou nas tintas no tema Religião e, estranhamente, abordou insistentemente o assunto obesidade – não se sabe por que – em nada menos do que três perguntas.

O cordão dos puxa-sacos também se fez presente. Segundo o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, a questão que tratava de uma quadrilhista surda foi “uma homenagem” a Michelle Bolsonaro – sabidamente dedicada à causa dos deficientes auditivos.

Se comparada com o Enem do ano passado, a prova deste ano carregou muito menos em temas polêmicos como política, homossexualidade, invasões de propriedades etc. Mas, certamente, ainda teve conteúdos ideológicos como marca registrada.

De Cristo a João Batista

A questão número 48 de Ciências Humanas – para os candidatos que fizeram a prova branca – cita: “Considero apropriado deter-me algum tempo na contemplação deste Deus todo perfeito…”, para mais adiante concluir: “Não podemos dizer que a crença em Deus é apenas uma questão de fé”. Dependendo do contexto, a pergunta poderia até ser considerada adequada no aspecto de Humanidades. Ocorre que o tema se tornou recorrente.

A pergunta 71 cita Cristo e João Batista e a avaliação de que o Cristianismo incorporou antigas práticas relacionadas ao fogo para criar uma festa sincrética. Aqui, entre as respostas, constavam, as opções (a) promoção de atos ecumênicos, (b) fomento de orientações bíblicas, (c) apropriação de cerimônias seculares, (d) retomada de ensinamentos apostólicos, e (e) ressignificação de rituais fundamentalistas. Já a questão 81, por sua vez, começa com o seguinte enunciado: “De fato, não é porque o homem pode usar a vontade livre para pecar que se deve supor que Deus a concedeu para isso”. E cita mais adiante a “punição divina”.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, havia prometido que o Enem não teria “foco em questões ideológicas”: “A gente pediu que [a prova] medisse a capacidade de ler, e não ficar discutindo coisas que possam polemizar o ensino dos jovens e das crianças do Brasil”, disse em recente coletiva sobre o exame.

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