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1964-2014

Contra ditaduras de todos os símbolos e de todas as cores

Questões hipotéticas sobre um Brasil comunista e a realidade das ditaduras socialistas não podem enevoar a avaliação do que de fato aconteceu nas duas décadas de regime militar

Contra ditaduras de todos os símbolos e de todas as cores
Logo após a queda de Jango, o governo de Castello Branco garantiu a consolidação do regime militar (Reprodução/Internet)

Não sabemos se João Goulart planejava um golpe para salvar o seu governo em 1964. Não sabemos ao certo o que teria acontecido caso esse golpe realmente tivesse sido dado. Não sabemos se Goulart entregaria o país a Fidel, Khrushchev ou Brizola. O que nós sabemos foi o que realmente aconteceu. Na noite de 31 de março, as tropas comandadas por Mourão Filho saíram de Juiz de Fora para o Rio de Janeiro. Dias depois, João Goulart deixou o país, e a presidência foi decretada vaga. Os militares vieram garantir as eleições de 1965, mas só devolveram o poder aos civis 20 anos mais tarde.

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Para o bem da democracia brasileira, os militares suspenderam liberdades civis, prenderam, torturaram e assassinaram. O estado brasileiro cometeu crimes e nem a violência da resistência ao regime pode relativizar esses fatos. As ações do regime militar brasileiro não se tornam menos imorais sob a lente da possível ameaça soviética, como as ações do regime cubano não se tornam menos imorais sob a ameaça de uma invasão americana. As vítimas do comunismo e do anticomunismo são vítimas e permanecem irremediavelmente mortas.

Como exercício de especulação, pode-se debater o que teria acontecido ao Brasil caso Goulart tivesse força para dar um golpe em 1964. Discutamos se o golpe nos transformaria em Cuba, União Soviética, Hungria ou Checoslováquia. Se os tanques soviéticos assassinariam manifestantes na Avenida Presidente Vargas (ou Karl Marx?) ao primeiro sinal de revolta ou se seriamos pioneiros da glasnost. Defensores da ditadura brasileira dizem que o Brasil teria virado Cuba. Defensores da ditadura cubana dizem que Cuba teria virado o Haiti. Defensores de ditaduras sempre tem suposições e números na ponta da língua, como se soubessem que todo o resto os desmoraliza.

A troca de ideias sobre o Brasil de amanhã permanece contaminado por uma pergunta de abril de 1964. Jamais saberemos o que teria acontecido sem a interferência dos militares nos problemas políticos que João Goulart enfrentava. O que não muda é o que nós sabemos que aconteceu após essa interferência: liberdades foram suspensas, a imprensa foi censurada, políticos foram cassados, partidos políticos foram extintos e muitas pessoas foram presas, torturadas e mortas.

Para os defensores do regime militar brasileiro, mais de 20 anos que vivemos sob a ditadura teriam sido menos livres e mais pobres com uma ditadura de outras cores e outros símbolos. Mas nós liberais não defendemos ditaduras, sob nenhuma justificativa, sob nenhuma cor ou nenhum símbolo. As vítimas do comunismo e do anticomunismo são vítimas e permanecem, inevitavelmente, traumatizadas ou mortas.

Questões hipotéticas sobre um Brasil comunista e a realidade das ditaduras socialistas não podem enevoar a avaliação do que de fato aconteceu nas duas décadas de regime militar: censura à livre manifestação, capitalismo estatista, repressão política e a suspensão das liberdades civis mais básicas.

 

Fontes:
Ordem Livre - 1964-2014: Contra ditaduras de todos os símbolos e de todas as cores

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4 Opiniões

  1. Samuel Reis disse:

    A ameaça comunista da época, pretexto para o golpe militar, só existia para satisfazer o ímpeto imperialista dos Estados Unidos e seus cúmplices latino americanos. Benéfica seria a “ditadura do proletariado”, pois a sociedade organizada imporia a sua vontade à minoria, incluindo a classe política e os golpistas militares, contudo os intitulados comunistas compartilhavam do revisionismo krushoviano que anos depois permitiu o desmonte da União Soviética e não dos verdadeiros defensores da classe trabalhadora. Dessa forma a “ameaça comunista” nunca existiu, até porque no Brasil jamais existiu uma mobilização popular ao estilo “bolchevique” que realmente desafiasse a classe burguesa encastelada no poder. Assim tanto a ditadura “socialista” quanto a “capitalista” resulta de uma macabra manobra da globalização, uma vez que em ambos os lados apenas alguns afortunados foram de fato beneficiados em detrimento da classe trabalhadora, ou seja, o proletariado.

  2. Sebastian Sulu Akamada disse:

    Não é muito dificil entender: os militares precipitaram o 31 de março de 1964 porque Jango e seu cunhado Brizola estavam insuflando a quebra da hierarquia e a insubordinação nos quartéis, coisa que os militares não toleram.

  3. Vitafer disse:

    Tenho a impressão de que o Bastião e o Samuca são comunistas… rs
    Vitafer

  4. Ivaldo Roland disse:

    urss: stalin manda assassinar centenas de oficiais russos com medo de sublevação. veio a ii guerra. a alemanha deixa a urss de quatro e o exercito vermelho é quase destruído. uma quebra de hierarquia é algo semelhante uma vez que não produz COMANDO, vital para desenvolvimento das ações. napoleão e aníbal sempre combateram em inferioridade numérica, mas seus exércitos tinham comando e bons. Ps. exceção ao exercito napoleônico na campanha russa, que invadiu com 600 mil homens, o dobro do exercito russo, mas foi derrotado pelo rigor do exercito russo, quebra de comunicações, suprimentos, etc.

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